Crítica

Crítica: Solo

Com direção de Vinicius Arneiro (de “Colônia”, “Rose”), o espetáculo “Solo” apresenta ao público o texto vencedor da 8ª edição do concurso Seleção Brasil em Cena. A peça é de Fabrício Branco, um dos frutos do projeto Dramaturgia de Novos Autores (DNA) do Galpão Gamboa. Ele foi assistente de dramaturgia de Walter Daguerre em “Nordestinos” e “Josephine Baker, a Vênus Negra”, e agora apresenta para a plateia carioca um texto próprio. A estreia com carimbo de um concurso respeitado não decepciona.

(Foto: Vinicius Arneiro)

A peça pensa sobre a morte a partir do discurso de quatro personagens, ligados ao tema de diferentes maneiras. O primeiro a aparecer é um coveiro. Ele mantém uma relação de gratidão e atração pela terra, que recebe cada vez menos corpos por causa da opção de cremação. Outro personagem é um pastor evangélico, com seus ideais de pecado sobre vida e morte, também crítico da cremação. Ele esconde um segredo sujo. A terceira é uma mulher gorda, que explora sua sexualidade como autoafirmação irresponsável, engravidando e entregando seus bebês recém-nascidos para outras pessoas. O quarto é um mendigo com o peso da invisibilidade social. Os papéis são de Kadu Garcia (de “Procópio”), Jansen Castellar, Aliny Ulbricht e Bárbara Abi-Rihan respectivamente, com atuações conectadas e entrosadas apesar do formato de monólogos.

Na peça, os monólogos dos quatro personagens são fragmentados e alternados. Aparentemente independentes, eles na verdade estão interligados por conta dos pontos de interseção criados pela ação de um dos personagens (seria spoiler se eu dissesse mais). No início, o espetáculo é um pouco arrastado, por conta da apresentação de cada um dos personagens, como um grande prólogo, mas em seguida ele ganha ritmo e a estrutura dramatúrgica funciona, tornando-se interessante. Tudo acontece ao redor de uma mesa retangular longa, como a da santa ceia, com um monte de terra no centro. É a cenografia assinada por Fernando Mello da Costa e bem explorada pela direção: os atores se desenvolvem à frente ou atrás da mesa, em cima ou embaixo dela, utilizando as possibilidades com coerência.

Partindo da máxima de que todos são iguais na morte, ainda que tentem se diferenciar com belos jazigos e tudo o mais, Vinicius Arneiro explora a crueza humana em sua concepção cênica. A respiração dos atores é evidenciada e potencializada por microfones e caixas de som, o corpo seminu é um elemento marcante no espetáculo (tanto para “a gorda” quanto para “o mendigo”, interpretado por uma mulher, o que cria um subtexto provocante) e há ainda uma cena de vômito. A terra de verdade e um balde de água ajudam a ressaltar o estado presente, em meio à penumbra do desenho de luz criado por Bernardo Lorga, que cria uma atmosfera sinistra para a encenação. Em alguns momentos do espetáculo, ocorrem blackouts e a plateia ouve as vozes dos atores, o que reforça essa sensação. Quando pode enxergar, o público vê figurinos (de Ticiana Passos) desgastados e decadentes, harmoniosos com os demais elementos cênicos. Bom espetáculo.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Vinicius Arneiro)

Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Dramaturgia: Fabrício Branco
Direção: Vinícius Arneiro
Assistência de Direção: Andreas Gatto
Elenco: Kadu Garcia, Aliny Ulbricht, Bárbara Abi-Rihan e Jansen Castellar
Cenografia: Fernando Mello da Costa
Figurino: Ticiana Passos
Direção Musical: Marcelo H
Iluminação: Bernardo Lorga
Programação Visual: Tânia Grillo
Produção Executiva: João Eizô Y. Saboya
Assistência de Produção: Alessandro Zoe
Direção de Produção: Sergio Saboya

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 30. 80 min. Classificação: 18 anos. Até 3 de março. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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