Crítica

Crítica: Suassuna – O Auto do Reino do Sol

É muito difícil alguém ir assistir “Suassuna – O Auto do Reino do Sol” sem expectativas elevadas, depois de ter visto o maravilhoso “Auê”, espetáculo anterior da cia. teatral que atende pelo nome de Barca dos Corações Partidos. Mas expectativas, como sempre, levam à decepção. Primeiro, porque os dois musicais diferenciam-se completamente em formato, proposta, linguagem, direção e colaboradores. Segundo, porque qualquer comparação com “Auê” é covardia.

(Foto: Elisa Mendes)

“Suassuna – O Auto do Reino do Sol” nasce de um desejo coletivo de homenagear os 90 anos do nascimento do autor Ariano Suassuna (1927-2014). Para isso, a Barca direcionou sua atenção para o sertão paraibano – onde o escritor nasceu e ambientou suas histórias – e uniu forças ao diretor Luiz Carlos Vasconcelos (de “Vau da Sarapalha”), o autor Bráulio Tavares e o músico Chico César. O tributo a Suassuna não consiste em uma biografia e tampouco na montagem de qualquer uma de suas obras: é um espetáculo inédito, inspirado em seus personagens, seu humor e os lugares em que viveu e retratou. Os admiradores do escritor reconhecerão sua essência e seu universo ali e quem não tem esse repertório também não enfrentará problemas para acompanhar a história ou seus regionalismos.

A trama gira em torno do casal Iracema e Lucas, que pertencem a famílias rivais: ela é sobrinha do comerciante de minérios Major Antonio Moraes (personagem de “Auto da Compadecida” e vilão de “Romance da Pedra do Reino” e “Infâncias de Quaderna”) e ele é membro da família Fortunato, criadora de gado. Impossibilitados de ficarem juntos em meio a guerra familiar, eles fogem e buscam abrigo em uma trupe de circo-teatro mambembe liderada por Mademoiselle Sultana, que se dirige a Taperoá, na Paraíba.

É um argumento bem simples, como costumam ser os de Ariano Suassuna. O texto assinado por Bráulio, porém, demora a tomar forma para o público. A primeira parte da peça é confusa: são muitos personagens para apresentar e muitas referências entregues de uma vez – os retirantes, a seca, o vilão, os palhaços, etc. – tardando a apontar qual é a história que deseja ser contada. A trama fica mais clara e envolvente a partir do momento que Iracema e Lucas Fortunato fogem juntos. “Ah, então é sobre isso. Ufa”.

As músicas criadas por Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, com letras de Bráulio, são importantes para a montagem, dão ritmo e vigor a algumas cenas, muito bem arquitetadas e poéticas. No entanto, nenhum dos números apresentados ao longo do espetáculo são especialmente memoráveis, o que é um déficit se pensar que “Auê” rendeu um álbum incrível. A apresentação das músicas, na verdade, por vezes é poluída. A direção de Luiz Carlos Vasconcelos opta por uma limpeza cenográfica, mas tende a agrupar o elenco em aglomerações desnecessárias para coreografias em um palco grande. Algumas decisões não se justificam. Também fica a impressão de que o elenco, que toca instrumentos, é explorado muito abaixo de sua capacidade.

A cenografia do musical é de Sérgio Marimba, que utiliza uma espécie de carroça para sinalizar a vida no circo-teatro e um esboço de lona ao fundo do espaço cênico. Fiel ao caráter mambembe, esta lona é bastante simples, mas não suficiente para impedir equívocos técnicos em sua suspensão, o que deixa a plateia aflita. Além disso, como a lona não está sempre de pé, o palco frequentemente passa a impressão de vazio e mal disposto. A luz de Renato Machado não consegue diminuir o espaço ou ocupá-lo. Por sua vez, os figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler são pontos positivos da montagem, tão bem delineados que, por vezes, são dois passos para a composição dos personagens. Um destaque é para os figurinos dos papéis femininos vividos pelo ator Adrén Alves, que também está em um de seus melhores desempenhos aqui em “Suassuna”.

O elenco desta vez traz os membros da Barca e três convidados: Rebeca Jamir (de “Andança – Beth Carvalho, o Musical”), única mulher em cena, bem integrada ao todo, com atuação impregnada de humor lúdico, e os músicos Chris Mourão e Pedro Aune. Algo admirável da Barca é a unidade que os artistas compõe. Neste trabalho, porém, é possível dizer que Adrén e os atores Eduardo Rios e Renato Luciano (dupla de palhaços) se sobressaem, pelo aproveitamento das oportunidades que lhe foram concedidas.

(Foto: Elisa Mendes)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

Ficha técnica
Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Texto: Bráulio Tavares
Música: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho
Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves
Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros.
Atriz convidada: Rebeca Jamir
Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune
Cenografia: Sérgio Marimba
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Design de som: Gabriel D’Angelo
Assistente de direção: Vanessa Garcia
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Lydio
Apoio: One Health e ONS

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SERVIÇO: qui a dom, 20h30. R$ R$ 50 a R$ 130 (qui e sex), R$ 50 a R$ 150 (sábado) e R$ 40 a R$ 100 (domingo). 120 min. Classificação: 12 anos. Até 20 de agosto. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 40 – Centro. Tel: 2533-8799.

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