Crítica

Crítica: Tebas Land

Parricídio – assassinato do próprio pai – é o pano de fundo da peça “Tebas Land”, escrita pelo uruguaio Sergio Blanco e montada pela primeira vez no Brasil pelo diretor Victor Garcia Peralta (de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”). O espetáculo, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, acompanha o processo de criação de um dramaturgo, que se submete a encontros semanais com um homem preso por matar o pai, a fim de colher material e escrever uma peça inspirada nesse crime. A medida que os encontros acontecem e a relação entre eles se estreita, se conhece cada vez mais detalhes da personalidade e da biografia de um e de outro. É mais valiosa a maneira como se revelam do que os detalhes do crime, que o dramaturgo já sabe por ter lido o relatório da polícia.

(Foto: Jr. Martins)

O texto de Sergio Blanco entremeia três momentos: o pretérito mais que perfeito, quando ocorreram os encontros no presídio; o pretérito perfeito, quando o dramaturgo desenvolveu a peça com o ator na sala de ensaio; e o presente, em que o espetáculo é apresentado à plateia. Otto Jr. (de “Amor Em Dois Atos”) interpreta o dramaturgo e Robson Torinni (de “A Sala Laranja: No Jardim de Infância”) faz tanto o assassino quanto o ator que o interpreta. Tudo acontece entre recortes, com idas e vindas no tempo. Os atores apresentam bons trabalhos. Torinni é muito hábil tanto em diferenciar o ator do assassino quanto em humanizar com sensibilidade a figura do presidiário. Não é um trabalho fácil: ele representa o ator, o assassino e o ator fazendo o assassino. Cabe a Otto, que se dirige diretamente ao público, estabelecer as conexões e conduzir a história, o que acontece sem qualquer confusão temporal.

Um problema da peça e da encenação é a tentativa de ilusão de performance, que não se sustenta. Quando o espectador entra no teatro, os atores já estão no palco, cumprimentam conhecidos e, de repente, alguém diz “pode começar!”. Otto, então, se dirige à plateia, explicando o teor do projeto e como se dará a apresentação. Já é o personagem falando, mas o intuito é que pareça ser sua pessoa física. Robson, dentro de uma espécie de gaiola, que representa a quadra de basquete do presídio (ótimo cenário de José Baltazar), é apresentado como um verdadeiro criminoso. Para quem já o viu em cena antes, a proposta cai por terra. Depois, mais de uma vez, o intuito é criar a tensão no espectador com a possibilidade de dividir a sala do teatro com um assassino. Seria inquietante se conseguisse ser minimamente crível. Não é o caso, então resulta bobo e totalmente dispensável. Felizmente, o espetáculo tem muitas outras qualidades.



A cenografia dividida entre a quadra de basquete gradeada e o livre espaço de criação teatral é muito importante para delimitar e borrar fronteiras temporais. Essa concepção é importada de outras montagens de “Tebas Land” pelo mundo. Os atores ainda manuseiam um projetor em cena, exibindo fotos e documentos, e escrevem com giz em um quadro negro, reforçando o estado presente. Por outro lado, os figurinos (criação coletiva) afastam a cena da realidade penitenciária brasileira, enquanto a trilha sonora de Marcello H., com Agnaldo Timóteo, se esforça em se aproximar do espectador brasileiro. Faltou harmonia entre os elementos. A iluminação de Maneco Quinderé, por fim, se apresenta sem equívocos.

É notória a preocupação de “Tebas Land”, peça e espetáculo, com a forma e a linguagem, mas é seu conteúdo, a amizade improvável entre os dois homens, o maior acerto. A história é boa, e segura a plateia do início ao fim.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Rodrigo Lopes)

Ficha técnica

Autor: Sergio Blanco

Tradutor: Esteban Campanela

Direção: Victor Garcia Peralta

Atores: Otto Jr. e Robson Torinni

Cenógrafo: José Baltazar

Figurino: criação coletiva

Iluminador: Maneco Quinderé

Direção de movimento: Cris Amadeo

Trilha sonora: Marcello H

Assessoria de imprensa: Flávia Tenório

Designer Gráfico: Alexandre Castro

Direção de produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela

Fotografia – Jr. Marins

Produção: Galharufa Produções Culturais

Equipe de Produção: Alex Nunes e Ártemis.

Produção Executiva – Lis Maia.

Realização: REG’S Produções Artísticas

Idealização: Robson Torinni e Victor Garcia Peralta

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. Classificação: 16 anos. Até 21 de dezembro. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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