Crítica

Crítica: Tia Julia e o Escrevinhador

“Tia Julia e o Escrevinhador” é o nome de um livro publicado em 1977 pelo peruano Mario Vargas Llosa, escritor que mais tarde veio a vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Já adaptado para a TV (em 1981 na Colômbia) e para o cinema (em 1990 nos Estados Unidos), com Keanu Reaves, Barbara Hershey e Peter Falk (1927-2001) no elenco, a obra ganha agora também sua versão teatral no Brasil, com adaptação de Caridad Svich e direção de Ritcheli Santana. O espetáculo cumpriu temporada em abril no Teatro Serrador, no Centro, e reestreará em 31 de maio no Teatro Poeirinha, em Botafogo. Em resumo, conta duas histórias entrecruzadas ambientadas em Peru dos anos 1950: a do adolescente Mário (chamado de Marito), que sonha em ser escritor, e se apaixona pela tia, bem mais velha; e a do autor de radionovelas boliviano Pedro Camacho, que é contratado para trabalhar em uma rádio peruana e, atribulado com tamanha produção diária, começa a embolar histórias e personagens, escrevendo cenas estapafúrdias ou indesejadas para o público e os anunciantes. Mário trabalha na rádio e tem em Pedro um ídolo.

(Foto: Divulgação)

O livro tem inspiração autobiográfica: quando tinha 19 anos, Mario Vargas Llosa realmente se casou com uma espécie de tia – a irmã de sua tia – dez anos mais velha. Como o personagem, teve que lidar com a contrariedade da família. Diferença de idade, hoje, ainda gera olhares estranhos, e na época era mesmo um tabu. Acessar essa obra é, portanto, acessar um pouco da vida pessoal do escritor, em meio a um recheio de ficção. O livro e, por sua vez, o espetáculo mostram também as histórias criadas por Pedro Camacho, que, na verdade, saíram da cabeça de Vargas Llosa, evidentemente. Não li o livro, mas a adaptação teatral entremeia a evolução do romance de Marito e Tia Julia com trechos da radionovela e muito dos bastidores de sua criação. É muito frágil o que liga Marito e Camacho, o local de trabalho, já que pouco é explorada a inclinação do jovem à escrita em toda a trama. Toda a questão radiofônica resulta em interrupções (ainda que alívios cômicos) no que se consolida como o enredo principal, Marito e Tia Julia. No espetáculo, são avulsas. Para mim, ficou a dúvida se Vargas Llosa homenageia ou satiriza as radionovelas, porque ele acaba mostrando que o melodrama da “vida real” é melhor – embora os personagens sejam viciados no folhetim da rádio… Param tudo para ouvir a ficção, quando a vida que os cerca é mais saborosa.

Essa linguagem do melodrama também é explorada na direção, com exageros compactuados com a plateia e uma direção de movimento (de Laura de Castro) que escapa ao natural. É um ponto interessante da montagem, que traz nove atores em cena. Otavio Tardelli (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”) e Fernanda Teixeira (de “A Grande Ressaca”) são Marito e Tia Julia, par romântico com boa desenvoltura e química, ela em especial está muito segura no papel. Gonzalo Martinez Cortez (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”) é Pedro Camacho, muito convincente na egolatria e nos surtos do escritor. Completam o elenco de boas atuações Arthur Portella (de “A Falecida”), Flavio Moraes, Gabi Soledade (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”), Lucas Gonjú (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”), Marcelo Ferreira (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”) e Relise Adami (de “Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias”).

Algo curioso da montagem é que os atores permanecem no palco em tempo integral. Quando não estão em cena, posicionam-se no fundo do palco, de costas, enfileirados, logo abaixo dos três letreiros que dizem “ao vivo”. De certa forma, é uma metalinguagem entre atores e personagens: o “ao vivo” serve para a radionovela que entra no ar mas também para o teatro. A cenografia de Alice Cruz trabalha com esses elementos e três placas transparentes móveis, como se fossem os limites do estúdio. Os figurinos de Maria Duarte, com poucas cores, exploram uma estética mais cerimoniosa, funcional para a situar personagens e a época. A iluminação de Anderson Ratto apara arestas e limitações, com bom resultado. O saldo do espetáculo é positivo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Mario Vargas Llosa
Adaptação: Caridad Svich
Tradução: Gonzalo Martinez Cortez
Direção: Ritchelli Santana
Assistente de direção: Julya Avila
Elenco: Arthur Portella, Fernanda Teixeira, Flavio Moraes, Gabi Soledade, Gonzalo Martinez Cortez, Lucas Gonjú, Marcelo Ferreira, Otavio Tardelli, Relise Adami
Ator stand-in: Marco Palito
Iluminação: Anderson Ratto
Cenografia: Alice Cruz
Trilha original: Diogo Matos
Assistente de cenografia: Monique Pimentel
Figurino: Maria Duarte
Preparação corporaledireção de movimento: Laura de Castro
Assessoria de imprensa: Tangram Marketing
Projeto gráfico: Volio.com.br
Direção de produção: Gonzalo Martinez Cortez
Assistentes de produção: Fernanda Teixeira e Otavio Tardelli

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