Crítica

Crítica: Tom na Fazenda

Para ampliar o panorama teatral carioca acerca da sexualidade, chegou “Tom na Fazenda”, brilhante peça do canadense Michel Barc Bouchard, dramaturgo inédito no país. Traduzida, produzida e protagoniza pelo ator Armando Babaioff (de “Na Solidão dos Campos de Algodão”), o espetáculo gira em torno de um homem que descobre, no velório de seu namorado, em uma fazenda distante, que a sogra ignora a orientação sexual do filho e não faz a menor ideia de quem seja ele, Tom. Obrigado pelas circunstâncias a se passar por um “amigo do trabalho”, Tom, com sinais de depressão e à beira do estado de loucura, se deixa levar pela família do amado, se hospeda com eles, se adapta à vida na fazenda, e sucumbe ao terrorismo psicológico do cunhado, que sabe de tudo. É incrível o que pode fazer uma morte que leva segredos consigo, mas deixa rastros de mentiras. A cultura homofóbica enraizada em casa causa consequências sociais e psicológicas inimagináveis. Como afirma o dramaturgo em frase de efeito, “homossexuais aprendem a mentir antes mesmo de aprender a amar”, uma tristeza.

(Foto: José Limongi)

Existe um filme que conta a mesma história. Em 2013, o cineasta canadense Xavier Dolan apresentou a adaptação cinematográfica no Festival de Veneza. “Tom na Fazenda” foi o quarto longa-metragem do diretor indie. No Brasil, não passou no circuito comercial nem em festivais, então os detalhes da trama são desconhecidos da maioria do público – o que deve dar um sabor especial, tratando-se de um thriller. A montagem teatral, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, já com ingressos disputados, tem direção de Rodrigo Portella (de “Uma História Oficial”) e aposta no visceral, no sujo e no performativo.

Babaioff começa a encenação em um terno Dolce & Gabbanna e termina emporcalhado. O personagem se desmonta esteticamente a medida que se consolida sua relação de dependência psicológica com a família e a fazenda. Existe uma tensão sexual com o irmão de seu namorado falecido, Francis, e um sádico jogo masoquista entre eles, o homossexual e o heterossexual. O cenário, da mesma maneira, se bagunça, com baldes de água barrenta jogados ao longo da encenação, e muitas brigas bem coreografadas. Os figurinos de Bruno Perlatto e a cenografia de Aurora dos Campos têm narrativa própria. A iluminação de Tomás Ribas sublinha os momentos mais densos, que são muitos.

O texto é inteligentíssimo ao entremear os diálogos com o fluxo de pensamento de Tom. A maneira como a proposta se concretiza no palco com maestria é um mérito da direção e do elenco. Babaioff está no ponto exato de perturbação que o papel pede, sem exageros. Gustavo Vaz (de “Sobre Ratos e Homens”), que vive Francis, dá conta convincentemente de um personagem cheio de nuances – é hipnótico assisti-lo, e desponta como candidato a prêmios. E há ainda Kelzy Ecard (de “Por Amor ao Mundo – Um Encontro com Hannah Arendt”), que interpreta a mãe: superatriz, que ainda pode explorar melhor algumas oportunidades dramáticas em momentos-chave. Camila Nhary (de “O Nó do Coração”) completa o elenco, aparecendo na reta final da trama com uma personagem que é um sopro de lucidez.

“Tom na Fazenda” é ótimo e já chega como uma das melhores montagens em cartaz dos últimos meses. São duas horas devastadoras de peça, que você não sente passar. Pelo contrário: dá vontade de assistir de novo. O jogo de submissão ao qual Tom se vicia também deixa a plateia adicta. Imperdível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: José Limongi)

Ficha técnica
Texto: Michel Marc Bouchard
Tradução: Armando Babaioff
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Kelzy Ecard, Armando Babaioff, Camila Nhary, Gustavo Vaz
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Bruno Perlatto
Concepção Sonora: Marcello H.
Preparação Corporal: Lu Brites
Hair Stylist: Ezequiel Blanc
Produção: Galharufa Produções
Idealização: ABGV Produções Artísticas

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 15. 110 min. Classificação: 18 anos. Até 14 de maio. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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