CríticaEspecial Festival de Curitiba

Crítica: Tráfico

O dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco é um nome cada vez mais montado no Brasil. Só nos últimos anos, o público pôde assistir “Kiev”, “O Bramido de Düsseldorf”, “Kassandra”, “A Ira de Narciso” e “Tebas Land”. Não é surpreendente que sua peça mais recente, estreada em março em Bogotá, já esteja em solo brasileiro. Blanco levou ao Festival de Curitiba a montagem original colombiana de “Tráfico”, monólogo sobre um garoto de programa que se torna matador de aluguel ao se envolver com uma organização criminosa implacável. O espetáculo teve duas apresentações no Auditório Salvador de Ferrante, em formato de arena, no Teatro Guairinha.

(Foto: Annelize Tozetto)

A dramaturgia blanquiana é marcada pela autoficção. O autor aparece como personagem nos dois espetáculos em cartaz no Rio, “A Ira de Narciso” e “Tebas Land”. Neste novo, não é diferente. O ator Wilderman García Buitrago representa, no centro do palco, o garoto de programa / assassino, e se refere ao dramaturgo durante toda a história. Blanco é um de seus clientes mais fiéis, tanto para noitadas de sexo e drogas, quanto para programas culturais. É notório que o prostituo tem profundo afeto pelo cliente, que acaba exercendo papel fundamental em sua vida: é o autor que sugere que ele faça “serviços por encomenda” (os assassinatos) para levantar uma grana extra. As semelhanças com “A Ira de Narciso” e até “Tebas Land” são claras. Em “Ira”, o dramaturgo também se envolve com um garoto de programa e com um assassinato. A peça, aliás, é mencionada em “Tráfico”. Em “Tebas Land”, o personagem do dramaturgo visita um presídio para entrevistar um garoto de programa que matou o pai após ser ofendido por conta de sua sexualidade. Sergio Blanco tem alguma obsessão por assassinatos e prostituição masculina.

Limitações de criatividade à parte, “Tráfico” prende a atenção do público. Falando em espanhol (há legendas em português nas paredes), o ator explica ao público que sua história é dividida em três atores. No primeiro, ele apresenta sua rotina de prostituição, seu relacionamento com a namorada Jenny e seu envolvimento com o dramaturgo, que ultrapassa a fronteira do mero serviço. No segundo ato, o protagonista entra para o mundo do crime e fala francamente sobre a sensação de matar pessoas desconhecidas. A crueza e simplicidade do discurso envolvem a plateia. No terceiro ato, a situação foge de controle e as consequências são cobradas. Para quem viu “A Ira de Narciso”, há uma sensação de deja vu com o desfecho.

A montagem é bem simples. O cenário limita-se a uma motocicleta, pouco significativa, e um poste de luz, de onde vem a iluminação constante para o ator, em meio à escuridão geral. O ator e a direção exploram esses elementos como artifícios para que o personagem sensualize. Wilderman seduz o público, apesar do figurino – calça clara, regata branca e boné azul virado para trás – que mais o aproxima de um flanelinha do que com um garoto de programa. O tema da prostituição em si já é um facilitador para fisgar a curiosidade do espectador, mas o desempenho do ator dá veracidade à história, o que é fundamental tratando-se de uma obra de autoficção. É legal fantasiar que aquilo pode ter acontecido de verdade, pelo menos em parte. Entretém.

(Foto: Annelize Tozetto

Ficha técnica
Texto e direção: Sergio Blanco
Intérprete: Wilderman García Buitrago
Assistência de direção: José Saeed Pezeshki
Produção: Wilson l. García e Matilde López
Este espetáculo é uma coprodução entre Maldita Vanidad (Colômbia) & Marea (Uruguai)

O crítico viajou a convite do Festival de Curitiba.

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