Crítica

Crítica: Um Bonde Chamado Desejo

Clássico de Tennessee Williams (1911-1983), “Um Bonde Chamado Desejo” finalmente faz sua parada no Rio de Janeiro, após uma longa e bela trajetória em São Paulo, com tradução e direção de Rafael Gomes (de “Gota D’Água [a seco]”). O espetáculo, que rendeu quatro prêmios de melhor atriz para Maria Luisa Mendonça (de “O Desaparecimento do Elefante”), é tudo aquilo que você já ouviu falar por aí. Fascinante, no mínimo. Na peça, Maria é a professora de literatura Blanche Dubois, uma mulher sonhadora, com delírios de grandeza, que é forçada por fatos externos a buscar refúgio na casa de dois cômodos de sua irmã mais velha, casada com Stanley, homem bruto e intolerante para suas fantasias. Blanche não diz a verdade, mas “o que deveria ser a verdade”. Realidade? Não. Ela quer um mundo de magia. Mas ali não há espaço para isso. Nada de gentileza, cortesia, cavalheirismo, sofisticação, privacidade ou qualquer outra qualidade que ela preze ou se sinta merecedora.

(Foto: João Caldas)

A personagem foi vivida originalmente por Jessica Tandy (1909-1994) na Broadway em 1947, valendo-lhe o Tony Award de melhor atriz, e reprisada por nomes como Rosemary Harris (em 1973), Jessica Lange (em 1992), Natasha Richardson (em 2005), Rachel Weisz (em 2009) e Gillian Anderson (2014) no teatro. Mas sua encarnação mais conhecida foi de Vivian Leigh (1913-1967) na adaptação cinematográfica de 1951, aqui intitulada de “Uma Rua Chamada Pecado”, vencedora de quatro Oscars, incluindo o de melhor atriz. O filme trazia também Marlon Brando, repetindo o papel de Stanley que havia feito no teatro, antes de ficar famoso. Mas esse bonde é da Blanche. É com certeza a personagem dos sonhos de qualquer atriz. Mas ela não é um papel para qualquer atriz. O que Maria Luisa Mendonça faz no palco é impressionante e me faltam palavras para expressar a qualidade de seu preciosismo e sua total entrega. Todos elogios são poucos. Esse é certamente o papel de sua vida.

A montagem permite que a atriz voe nas ilusões da personagem, enquanto denuncia a ilusão cênica para a plateia. A proposta de Rafael Gomes sublinha o contraponto realismo x ilusão, proposto pelo texto, com suportes para holofotes à mostra no palco, toda a iluminação superior propositalmente visível, elenco à vista no palco mesmo fora de cena, trocas de roupa coreografadas e atores manuseando toda a estrutura cênica aos olhos da plateia. O jogo entre fantasia e realidade de Blanche é também o jogo teatral. Gomes bebe de Brecht em sua montagem. O diretor também assina a seleção musical, que chama a atenção do espectador, com canções contemporâneas de Beirut e Amy Winehouse (na sessão assistida, com som estourando em alguns momentos).

O espetáculo foi concebido para o teatro de arena: ficou em cartaz neste formato durante toda sua história em São Paulo, no Teatro Tuca. No Rio de Janeiro, houve transferência para o palco italiano, com poucas adaptações, diluindo um bocado da proposta. Foram colocadas três fileiras de assentos no palco, encarando a plateia principal, mas o caráter circular da encenação, tão marcante, se esvaiu. O público, que antes circundava a casa, agora a vê de frente – e com maior distanciamento. Mas a montagem continua apoiada no círculo: o cenário (de André Cortez) é delineado por um trilho circular, dentro do qual há uma estrutura móvel de madeira alusiva à casa, utilizada coreograficamente pelo elenco. Para o teatro de arena, a cenografia é genial. Para o palco italiano, direção e cenário talvez merecessem ser revistos em busca de outra experiência, e desprendimento de uma que ali já inexiste.

Além de Maria Luisa Mendonça, há mais seis atores em cena. Cabe ao ator Eduardo Moscovis (de “Fauna”) fazer o protagonista masculino que já foi de Marlon Brando. Mais linear que Blanche, Stanley também oferece boas oportunidades para o artista, que capricha em suas cenas incisivas e brutais. Entre os dois atores, acentua-se radicalmente o binarismo entre masculino e feminino, agressividade e doçura. Virgínia Buckowski (de “Cais ou Da Indiferença das Embarcações”), como a irmã de Blanche, é um verdadeiro suporte para que seus pares despontem. Donizeti Mazonas (de “Osmo”), Fabricio Licursi (de “Chorume”), Nana Yazbek (de “Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes”) e Davi Novaes (de “O Príncipe Desencantado – O Musical”) completam o time.

Os figurinos, essenciais para a construção do imaginário do que é a protagonista, são assinados por Fause Haten, caprichados no caráter lúdico. A iluminação de Wagner Antonio, como dito, toda explícita no palco, é fundamental para a peça – por vezes mencionada no texto: Blanche só marca encontros à noite ou só é vista pelo pretendente à meia-luz, para parecer mais nova. “Um Bonde Chamado Desejo” é um presente para quem gosta de teatro. Imperdível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: João Caldas)

Ficha técnica
Texto: Tennessee Williams
Tradução e Direção: Rafael Gomes
Elenco: Maria Luisa Mendonça, Eduardo Moscovis, Virgínia Buckowski, Donizeti Mazonas, Fabricio Licursi, Nana Yazbek e Davi Novaes
Cenário: André Cortez
Iluminação: Wagner Antonio
Figurino: Fause Haten
Seleção Musical: Rafael Gomes
Assessoria de Imprensa SP: Daniela Bustos, Beth Gallo e Thais Peres – Morente Forte Comunicações
Assessoria de imprensa RJ: Barata Comunicação
Projeto Gráfico: Laura Del Rey
Fotos de Estúdio: Pedro Bonacina e Renata Terepins
Fotos de Cena: João Caldas
Administração: Magali Morente Lopes
Produção Executiva: Martha Lozano
Coordenação de Projetos: Egberto Simões
Produtoras: Selma Morente e Célia Forte
Realização: Ministério da Cultura, Morente Forte Produções Teatrais, Substância Filmes, Empório de Teatro Sortido
Patrocínio: Renner

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 18h. R$ 80. 110 min. Classificação: 14 anos. Até 26 de novembro Teatro XP Investimentos – Jockey Club – Avenida Bartolomeu Mitre, 1315 – Gávea. Tel: 4003-6860.

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