Crítica: Uma Intervenção – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Uma Intervenção

“Uma Intervenção” é o título da mais recente peça do inglês Mike Bartlett montada no Rio de Janeiro. Já vimos por aqui outras obras dele, como “Love, Love Love” (2017) e “Cock – Briga de Galo” (2014). Nesta, o foco é a amizade entre dois homens e como fatores externos à relação podem afetá-la drasticamente e, consequentemente, afetá-los também como indivíduos. Aqui no Brasil, o texto ganha montagem caprichada da diretora Clarissa Freire (de “Pulsões”, “Aqui Jaz Henry”, “O Homem no Espelho”), que assina também a trilha sonora (ao lado de Marco França) executada ao vivo com tambores, tornando-se uma importante base do espetáculo.

A história começa com uma discussão entre os amigos. Um é a favor de uma intervenção. O outro é contra e está decepcionado porque o amigo não foi protestar na rua ao seu lado. A peça não explicita que intervenção é essa, e ora parece se tratar de algo próximo e ora distante da vida deles. A lacuna é proposital: cada um projeta ali sua referência. No caso da plateia carioca, o noticiário gritante não deixa muitas alternativas diferentes sobre o que se pensar.

Os dois têm opiniões consolidadas sobre o assunto e isso revela uma série de outras discordâncias entre eles. Discutindo, um assume que não gosta da nova namorada do outro e, por sua vez, ouve que é um alcoolatra. A história caminha e, conforme um anda para a frente, o outro anda para trás. Mesmo assim, estão sempre se encontrando, discutindo e afetando-se mutuamente. Apesar do título da peça, “Uma Intervenção”, a história não gira em torno desta. Ela é apenas o gatilho para que o público entenda que, apesar de divergências graves, um amigo não desiste do outro, embora eles se afastem e precisem manter a distância às vezes.

Comparada às outras peças de Mike Bartlett, essa é menos profunda. O espetáculo dura apenas uma hora – pouco tempo para evoluir a questão. A impressão é que falta algo. As cenas se desenvolvem em círculos e, uma vez que se entende essa mecânica, tudo fica um pouco previsível. Os atores Gabriel Sanches (de “As Alegres Comadres”) e Pedro Yudi (de “.1”) entregam atuações regulares. A roupagem dada por Clarissa Freire, por sua vez, é mesmo surpreendente. O espetáculo se desenvolve no belo cenário de Teca Fichinski, com uma estrutura de andaime de dois andares, sobre o qual fica um terceiro membro do elenco: Ludimila D’Angelis. É ela que dá o tom e a vibração de momentos cruciais, tocando tambores. A direção musical (de Marco França) é muito acertada e resulta em uma encenação criativa junto com as marcações coreografadas dos atores e a iluminação avermelhada de Paulo Cesar Medeiros. Todos esses elementos se articulam muito bem coletivamente. Os figurinos, assinados por Teca Fichinski e Claudio Carpenter, complementam a dramaturgia e também contam uma história com o passar do espetáculo. Boa montagem para uma peça regular.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Alberto Mauricio)

Ficha técnica

Texto: Mike Bartlett

Tradução original: Amanda Vogel

Tradução adaptada: Ana Beatriz Figueras

Direção e Concepção: Clarissa Freire

Assistência de Direção: Flavia Rinaldi

Direção Musical: Marco França

Trilha Sonora: Clarissa Freire e Marco França

Cenário: Teca Fichinski

Figurino: Teca Fichinski e Claudio Carpenter

Visagismo: Diego Nardes

Iluminação: Paulo Cesar Medeiros

Designer Gráfico: Victor Hugo Cecatto

Elenco: Gabriel Sanches, Pedro Yudi e Ludimila D’Angelis

Direção de Produção: Maria Alice Silvério

Produção Executiva: Joana D’Aguiar

Administração: Alan Isidio De Abreu

Realização: Alan Isidio De Abreu Prod. Culturais

Mídias Sociais: Fernanda Con’Andra

Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

_____
SERVIÇO: qui e sex, 20h. R$ 50. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 1º de março. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.

Comentários

comments