Crítica: Urbana – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Urbana

Estreado neste ano em festivais mineiros, o solo de teatro físico “Urbana”, criado e apresentado pela atriz Glaucy Fragoso (de “Veracidade”), agora cumpre temporada no Teatro Serrador, no Centro do Rio de Janeiro. Como o título indica, a atriz traça um panorama de situações urbanas, em geral caóticas, com inspiração em histórias e personagens reais. Deste modo, ora ela é um traficante, ora uma mulher amarrada no poste, ora vítima de assalto, só para citar alguns casos. É um ótimo espetáculo. Para cariocas, a identificação é inevitável: se o espectador não vê ali alguma de suas experiências, vê certamente seus medos. A atriz, na verdade, se coloca o tempo todo como uma de nós.

(Foto: Renato Mangolin)

A dramaturgia e a direção são da própria Glaucy Fragoso, fruto de um ano e oito meses de processo criativo, o que é raríssimo na atualidade. Tanto tempo rendeu um trabalho minucioso, que dialoga com a trajetória da artista, desde 2010 atuante com arte de rua, com vivência em espetáculos de artes integradas (teatro-dança-circo). Em “Urbana”, no qual conta com co-direção de Roberto Rodrigues (de “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”) e supervisão geral de Julio Adrião (de “A Descoberta das Américas”), ela trata de pessoas marginalizadas, poder paralelo, insegurança e medo constante. A temática parece pesada – e é – mas o espetáculo diverte, graças à boa dose de humor adicionada por Glaucy, que também é palhaça. Ela lança um olhar de ironia para o caos urbano. O gestual, a coreografia e toda a linguagem corporal da atriz, em seus mais distintos personagens, são importantes para o equilíbrio entre o horror e o humor. “Urbana” é essencialmente engraçado.

O espetáculo não tem cenário, a trilha sonora (de André Ramos) é pontual, e o figurino (de Glaucy Fragoso e Florência Santangelo) é básico, um mínimo múltiplo comum entre a atriz e a plateia. A concepção cênica é baseada no potencial da conexão com os espectadores. O espetáculo começa com as luzes do teatro acesas, Glaucy aparece, “coloca o figurino”, uma blusa por cima da sua, pergunta se deve iniciar ou esperar os atrasados e, sem que se sinta, já está fazendo suas cenas urbanas, vez ou outra quebrando a ilusão teatral em atitude metalinguística – mostrando que está fazendo uma peça, que se equivocou na ordem, que escreveu aquele texto, enfim, que é uma artista no palco. A iluminação (de Guiga Ensá), talvez o ponto negativo do espetáculo, embora justificável, demora a mostrar elaborações, porque o início da encenação é dedicado à ideia de simular uma não-encenação, com o teatro todo aceso. Essas construções, desconstruções e misturas entre ficção e realidade dão um sabor especial. “Urbana” revela-se por vezes capcioso, positivamente. Assisti-lo é muito prazeroso, porque toca em assuntos contundentes criativamente. Quando o clima pesa, a própria atriz brinca com isso em cena. Tento escrever sem dar muitos spoilers, porque grande parte da experiência está em deixar-se surpreender por Glaucy.

Notavelmente excelente atriz, com exímio domínio técnico, ela provavelmente será considerada para as premiações teatrais deste semestre. O que ela faz no palco, considerando que o texto também é dela, é muito rico. Imperdível. Obra de alta qualidade. Sua engrenagem de texto-atuação-direção funciona tão bem que não se sente a ausência do cenário, do figurino elaborado, de outros atores. A proposta pode ser decorrente de um baixo orçamento, mas isso não é evidente. Precariedade no palco, só a humana, individual e coletiva. Ótimo espetáculo.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Renato Mangolin)

Ficha técnica
Dramaturgia, direção e atuação: Glaucy Fragoso
Supervisão geral: Julio Adrião
Co-direção: Roberto Rodrigues
Figurino: Glaucy Fragoso e Florência Santangelo
Trilha Sonora: André Ramos
Iluminação: Guiga Ensá
Fotografia: Renato Mangolin
Vídeo: Renato Riguetti e Cris Lustosa
Midias Sociais: Ana Righi
Assessoria de Imprensa: Passarim Comunicação (Silvana Cardoso e Juliana Feltz)
Produção Executiva e Identidade visual: Fernando Alax
Produção: Julio Adrião Produções

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SERVIÇO: ter e qua, 19h30. R$ 40. 65 min. Classificação: 16 anos. De 7 até 30 de agosto. Teatro Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Cinelândia. Tel: 2220-5033.

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