Crítica

Crítica: Vamp, o Musical

“Vamp – O Musical” é a nova aposta da produtora de musicais teatrais Aventura Entretenimento, que vem investindo em espetáculos originais brasileiros nos últimos anos, mais precisamente desde que rompeu laços com a consagrada dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Quem acompanha as obras da empresa reconhece facilmente a pretensão (por vezes, unicamente) comercial de cada um de seus projetos. “Vamp” não é diferente: um título conhecido do grande público, importado da TV Globo, com atores famosos em papéis principais – no caso, Claudia Ohana (de “Forever Young”) e Ney Latorraca (de “Entredentes”), revisitando personagens icônicos, os vampiros Natasha e Conde Vlad. Visto isso, o espectador sabe exatamente o que esperar dessa produção. Paga-se para uma viagem nostálgica, meia dúzia de boas risadas e um deslumbre visual: entretenimento dos bons.

(Foto: Divulgação)

Na sessão assistida, na estreia fechada para convidados, houve uma série de problemas que prejudicaram esse combinado. Claudia Ohana se atrapalhou logo nas duas primeiras cenas, não executando direito uma troca de roupa rápida que era para impressionar, tropeçando em uma escada e deixando a peruca cair. Soma-se a isso seu canto para lá de comprometido, que passou péssima impressão, como se não devesse ocupar aquele lugar de destaque na montagem. Soube depois que a atriz estava com faringite. Fora isso, uma cena de voo, que tinha tudo para ser grandiosa, deixou a atriz Claudia Netto (de “Se Eu Fosse Você, o Musical”) suspensa de costas para o público, em um dos momentos mais constrangedores da noite. Foram algumas falhas impagáveis, que acredito que não se repetirão no restante da temporada. Dito isso, continuemos.

O mesmo autor da novela, Antonio Calmon, assina a dramaturgia da peça, o que pode ter sido uma decisão equivocada. Calmon revela-se apegado ao próprio texto ao reproduzir no palco a mesmíssima história da TV, com excesso de personagens secundários dispensáveis. Novelas demandam muitos personagens e tramas paralelas para ficarem oito meses no ar. Peças teatrais com duas horas, não. Com isso, a comédia “Vamp” tornou-se ainda mais rasa, porque a dramaturgia não dá conta de tantas subtramas: amores que não interessam, vampiros que não acrescentam, brigas sem consequências… Muitas cenas poderiam ser cortadas sem ônus para a montagem. Ainda sobre a dramaturgia, é positivo o uso de canções originais – escritas por Tauã Delmiro e Tony Lucchesi, diretor musical – que ajudam a contar a história. Finalmente, a Aventura teve coragem para investir em boa dose de músicas autorais, que enriquecem muito mais o texto. Ninguém aguenta mais o uso de sucessos radiofônicos inseridos à força em musicais teatrais.

Mérito do espetáculo também cabe à direção assinada por Jorge Fernando, o mesmo da novela, e Diego Morais (de “Luiz & Nazinha”), seu parceiro na TV. A dupla dá conta de um elenco de mais de 30 atores e imprime o caráter de superprodução nas soluções arriscadas para a dramaturgia. São vários os efeitos especiais do musical, e o público adora quando eles acontecem. É um show, no melhor sentido da palavra. As ideias são grandiosas, só precisam ser melhores executadas, como visto no segundo parágrafo. Elogios ficam para a diversidade de figurinos de Lessa de Lacerda, o visagismo de Martin Macias, o desenho de luz de Maneco Quinderé e os incríveis cenários de José Claudio Ferreira, com efeitos visuais proporcionados por uma tela na boca de cena: o time da Aventura costuma se sair bem no quesito extravagância. Expectativa atendida. As coreografias de Alonso Barros, simplórias para o elenco principal, encontra bons momentos com o ensemble. O número de “Thriller” é o mais arrebatador, e faz valer o ingresso.

Talvez pelo estado de saúde da protagonista, realmente chamou a atenção o ótimo desempenho do coro e bailarinos: profissionais bem preparados, ensaiados, e com vitalidade. No elenco principal, destaca-se sem sombra de dúvida Evelyn Castro (de “Cássia Eller – O Musical”), que vive Ms. Penn Taylor, personagem que foi de Vera Holtz na TV. Ela é afiada no humor e esbanja potência vocal: exatamente o que uma comédia musical precisa. Livia Dabarian (de “We Will Rock You”) faz uma divertida Mary Matoso, personagem de Patrycia Travassos na novela. Claudia Netto, com poucas oportunidades, faz bem o que tem que fazer. O astro do espetáculo, no entanto, é Ney Latorraca, com seu Conde Vlad debochado, engraçado e despretensioso. Em cena apenas em momentos muito específicos da história, ele sempre eleva o nível do musical – ainda que não apareça exatamente cantando ou dançando. Cabe a ele falar com o público, que o venera, e fazer a produção rir de si mesma. A dupla masoquista que Vlad forma com seu lacaio Gerald (Pedro Henrique Lopes, de “Chacrinha – O Musical”) é um dos acertos da história, que se realiza no palco. Grande ator!

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto – Antonio Calmon
Concepção e Direção Geral – Jorge Fernando
Direção – Diego Morais
Coreografia – Alonso Barros
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal – Tony Lucchesi
Cenografia – José Claudio Ferreira
Figurino – Lessa de Lacerda
Visagismo – Martin Macias
Desenho de Luz – Maneco Quinderé
Desenho de Som – Carlos Esteves
Produção de Elenco – Marcela Altberg
Assistente de Direção – Pedro Rothe
Assistente de Coreografia – Alan Resende
Orquestração e Assistente de Direção Musical – Alexandre Queiroz
Assistente de Cenário – Daniele Fontes
Figurinista Assistente – Teresa Abreu
Elenco: Ney Latorraca, Claudia Ohana, Evelyn Castro, Claudia Netto, Luciano Andrey, Erika Riba, Pedro Henrique Lopes, Xande Valois, Livia Dabarian, Thadeu Matos, Osvaldo Mil, Gabriella Di Grecco, Oscar Fabião, Mariana Cardoso, Duda Santa Cruz, Daniel Brasil, Rafa Mezadri, Talita Real, Mariana Gallindo, Lana Rodhes, Laura Ávila, Carol Costa, Carol Botelho, Jessica Gardolin, Renan Mattos, Lucas Nunes, Matheus Paiva, Leonardo Senna, Franco Kuster, Murilo Armacollo, Gustavo Della Serra, Marina Mota, Gabriel Querino, Andressa Tristão, Leonardo Rocha

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SERVIÇO: qui e sex, 20h30; sáb, 16h30 e 20h30; dom, 18h. R$ 50 a R$ 130 (qui e sex); R$ 50 a R$ 150 (sáb, 16h30 e dom); R$ 50 a R$ 180 (sáb, 20h30). 120 min. Classificação: livre. De 17 de março até 4 de junho. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38 – Cinelândia. Tel: 3005-3432.

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