Crítica: Vou Deixar De Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste? – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Vou Deixar De Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?

É, eu sei, o título “Vou Deixar De Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” parece de autoajuda. Mas se você clicou no link é porque surtiu algum efeito em você. Essa galera da autoajuda sabe mesmo atrair o público. Pois bem. O espetáculo que traz esse nome – uma peça inédita de Yuri Ribeiro (de “Hamlet ou Morte!”), dirigida por Jorge Farjalla (de “Dorotéia”) – não é uma adaptação de nenhum livro dessa estante da livraria, mas é totalmente motivacional. Conta a história de uma mulher que se apaixona por um garoto mais ou menos da idade do filho dela e, juntos, os dois vivem todas as neuras de um relacionamento com diferença de idade. “Quando eu tiver 60, ele vai ter 30 e vai me trocar por uma novinha” – esse tipo de pensamento. É, eu sei. Não é exatamente um tema original. Novelas, filmes, revistas femininas, sites, programas temáticos e até outras peças já se debruçaram sobre o assunto. O que torna essa obra especial não é o que ela conta, mas como conta. Românticos, não percam. Yuri e Jorge trouxeram a comédia romântica de volta, e em grande estilo.

(Foto: Carol Beiriz)

O espetáculo é protagonizado pelo próprio dramaturgo, ao lado da atriz Paula Burlamaqui (de “O Misantropo”). O texto, na verdade, é inspirado na vida pessoal de Yuri, que, como seu personagem, mantém relacionamento com uma mulher mais madura. Essa informação pode interferir em seu interesse ou visão da obra, mas não foi meu caso, porque só li o programa depois. Na história, Paula Burlamaqui é Andrea, uma mulher que já viveu dois casamentos, tem um filho na faculdade (Vitor Thiré, de “Querida Quitinete”) e nenhum interesse em se apaixonar de novo. Tudo muda, porém, quando ela conhece Daniel em um barzinho. Ele canta olhando para ela, os dois se envolvem e Daniel ganha uma gaveta em seu quarto e um grande espaço em sua vida. Daniel é estudante, artista e duro. Como não sai mais do apartamento dela, não demora muito a surgirem conflitos com o enteado Caio. O filho não aceita o padrasto jovem e sente que há um intruso no lar, com isso colocando-se também entre o casal. Drama. Tava faltando drama, né. Os casaisinhos sempre têm que passar por uns perrengues antes do final feliz.

Essa é a sinopse, mas ela representa só 50% do que o público vê. A outra metade fica a cargo da montagem de Farjalla, com estética deslumbrante. Para começar, a direção optou por uma encenação mais lúdica do que realista. O palco é transformado em picadeiro, o cenário (de José Dias) traz uma lona e um longo banco em semicírculo que gira como em um autorama, a iluminação (de Jackson Inácio e Vladimir Freire) trabalha com dezenas de pequenas lâmpadas em cena (todo um charme!), os figurinos (assinados pelo próprio Farjalla) transferem os personagens para um universo mágico, artístico e mesmo romântico (o visual me lembrou um pouco os trabalhos de Gabriel Villela), e a trilha sonora (de João Paulo Mendonça) coroa essa sequência de acertos. O artista Jujuba Cantador, um ator, palhaço e músico, completa o elenco, manuseando diferentes instrumentos musicais ao lado dos personagens, impregnando a dramaturgia com seu som e sua intrusa presença física e ficcional. O acordeão, em especial, marca sua participação. É como se o espetáculo se baseasse na ideia de que amar é ver o mundo com outros olhos. Com mais cor, doçura e criatividade. É tudo muito gracioso e encantador.

Paula Burlamaqui tem um papel importante para defender, porque Andrea é a verdadeira condutora de toda a peça. É pela ótica dela que o público acompanha a história. A atriz parece muito à vontade na personagem. O personagem de Yuri Ribeiro é mais alegórico e sua atuação ainda mais afastada do realismo. Algumas frases de efeito do texto, como a do título, poderiam ser defendidas com mais naturalidade: se a frase já é de efeito, não precisa de mais efeito. Como casal, os dois têm química e desenvoltura. Sobre Jujuba, disse anteriormente: as músicas e a aura de palhaço dão os contornos do espetáculo. Vitor Thiré, por sua vez, dá conta de variados personagens, além do filho Caio, e exibe uma excelente comicidade na voz e no corpo. É notável e bonita de ver sua evolução como artista nos últimos anos. Com tudo isso, “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” torna-se uma atração valiosa na programação carioca.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Carol Beiriz)

Ficha técnica:
Autor – YURI RIBEIRO
Argumento – CLAUDIA WILDBERGER e YURI RIBEIRO
Direção Artística – JORGE FARJALLA
Diretora Assistente – RAPHAELA TAFURI
Elenco – PAULA BURLAMAQUI, YURI RIBEIRO, VITOR THIRÉ e JUJUBA CANTADOR
Figurinos – JORGE FARJALLA
Preparação Corporal – JORGE FARJALLA
Preparação Vocal – PATRÍCIA MAIA
Trilha Sonora – JOÃO PAULO MENDONÇA
Direção de Arte e Cenografia – JOSÉ DIAS
Desenho de Luz – JACSON INÁCIO e VLADIMIR FREIRE
Fotos – CAROL BEIRIZ
Visagismo – ROSA BANDEIRA
Gerência de Marketing – MAURÍCIO TAVARES
Produtor Executivo – DEZO MOTA
Assessoria de imprensa – DANIELLA CAVALCANTI
Produtores associados – CLAUDIA WILDBERGER e FREDERICO REDER

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 20h. R$ 80. 70 min. Classificação: 12 anos. Até 29 de julho. Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2540-6004.

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