Crítica: Yank! O Musical – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Yank! O Musical

“Yank! – O Musical” encerrou sua temporada em 2017 com fila de espera na porta do teatro. Nem isso nem as indicações – e vitórias – em prêmios ajudaram o espetáculo a conseguir um patrocínio para sua segunda temporada. Então, de novo, o musical entra em cartaz “na resistência”. O único lado positivo disso é que “Yank” continua sendo um trabalho sem concessões comerciais que prejudiquem o artístico. É bonito de se ver. Fora isso, todo mundo está no palco porque acredita no projeto. Trazido dos Estados Unidos para cá, “Yank” é originalmente um Off-Broadway, criado pelos irmãos David e Joe Zellnik, que aqui ganha direção de Menelick de Carvalho e direção musical de Jules Vandystadt (de “O Homem no Espelho”). Em resumo, o espetáculo conta a história de um soldado desajeitado que descobre o amor e sua sexualidade ao ser convocado para a Segunda Guerra Mundial e se apaixonanar pelo colega de pelotão.

(Foto: Bernardo Santos)

Hugo Bonemer (de “Ayrton Senna – O Musical”) é o protagonista Stu, um típico recruta sem o menor dom para a guerra e com dificuldades pra se relacionar com os homens de seu pelotão. Ele simplesmente não se identifica com os caras. Sua sorte é que Mitch (Betto Marque, de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”), o bonitão popular, se afeiçoa a ele e o protege. O vínculo entre ambos logo se torna romântico e Stu se declara, mas o ambiente militar não é o mais propício para viver sua primeira paixão, se for por alguém do mesmo sexo. A discriminação é explícita e homossexuais são caçados e punidos internamente. Ninguém quer “ficar marcado”, então todo cuidado é pouco. A situação clareia para Stu quando ele conhece Art (Leandro Terra, de “A Última Festa Antes do Fim do Mundo”), o fotógrafo gay da revista militar Yank, que descola um emprego para ele como repórter, poupando-o do campo de batalha, e também o apresenta às maravilhas de ser gay e estar cercado de homens. O sexo. Deste modo, Stu acaba entendendo que ninguém se importa com as transas alheias, se ocultas: o problema é querer expor seu amor.

O interessante da dramaturgia é que ela parte de um argumento aparentemente simples e batido, o primeiro amor de um homem gay em uma sociedade homofóbica, para aprofundar tensões existentes até mesmo dentro da sigla LGBT. Raramente são harmoniosas as relações entre a bicha afeminada, o gay enrustido, o “fora do meio”, o promíscuo, o bissexual, o hetero-que-pega-rapazes, a lésbica refém da heteronormatividade, os simpatizantes, enfim. O espetáculo toca na ferida da discriminação entre os pares, também, fora a repressão externa. Há boas cenas nesse sentido no conflito entre Stu-Mitch-Art. Tudo isso contribui para o amadurecimento rápido do protagonista, que termina bem diferente de como começou a história. Sua curva narrativa é muito rica, e Bonemer a representa muito bem.

Vi “Yank” no último dia da primeira temporada e no primeiro dia da nova temporada. Escrevo com base na sessão mais recente, infelizmente pouco azeitada depois do hiato de seis meses. Por ter visto antes, sei como pode ser muito melhor. Houve várias pequenas derrapadas do elenco – formado por dez atores – como atropelos de texto, gaguejadas e demonstrações de insegurança. Além disso, o cenário perdeu o grande nome “Yank” no fundo do palco, eliminando um cuidado estético, e a direção pareceu pouco minuciosa quanto à organização da cenografia móvel. No ápice de uma cena dramática, que nada tinha a ver com o quarto dos militares, a beliche do cenário estava em primeiro plano na lateral direita – algo a ser repensado urgentemente. A iluminação de Daniela Sanchez não escurece o palco suficientemente para o móvel ser ignorado. Ressalto ainda que os figurinos do início e do fim do espetáculo poderiam ser melhor articulados, embora as fardas que marcam todo a encenação sejam excelentes. Lamentavelmente, criou-se o hábito no Rio de Janeiro de se estrear sem estar pronto. Mas acredito que melhora.

Como todo bom musical, a estrutura deste é bem arquitetada e as canções ajudam a avançar a história. As versões das músicas, assinadas por Menelick de Carvalho e Vitor Louzada, são bem construídas, o que é evidente sobretudo nas letras bem humoradas. Neste aspecto, nada a dizer. Os músicos são ótimos, o coro é harmônico, e as vozes de Hugo Bonemer e Fernanda Gabriela (de “Bibi – Uma Vida em Musical”), as mais destacadas, estão bem trabalhadas. Fernanda é a única mulher do elenco e tem um timbre lindo, que suaviza tanta testosterona. Além disso, as coreografias de Clara da Costa captam bem a essência da trama: os passos não parecem gratuitos.

Como vi duas temporadas diferentes, pude assistir também a elencos distintos. Leonam Moraes (de “Bibi – Uma Vida em Musical”), uma das novidades, dá tons diferentes ao seu personagens, imprimindo personalidade. Não é uma mimese do trabalho antecedente. Nos papéis principais, Hugo Bonemer e Betto Marque têm muita química e cumplicidade no palco. Leandro Terra, que traz o humor ao drama, certamente é um dos destaques do espetáculo. Alain Catein (de “Rock’n Lixo”), Dennis Pinheiro (de “S’imbora, o Musical”), Robson Lima (de “Fala Sério, Gente!”), André Vieri (de “Tim Maia, Vale Tudo – O Musical”) e Bruno Ganem (de “Andança – Beth Carvalho, o Musical”) completam o time, também com boas contribuições, formando uma unidade coesa. Robson, ao longo da temporada, poderá substituir Hugo em algumas sessões: no ano passado, o vi como Stu e asseguro que não deixa nada a dever, cada um com suas qualidades.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Bernardo Santos)

Ficha técnica
Elenco: Hugo Bonemer, Betto Marque, Leandro Terra, Fernanda Gabriela, Conrado Helt, Dennis Pinheiro, Leonam Moraes, André Viéri, Alain Catein, Bruno Ganem, Robson Lima e Rhuan Santos.
Libretto e Letras: David Zellnik
Música: Joe Zellnik
Tradução e Versões: Menelick de Carvalho e Vitor Louzada
Direção Geral: Menelick de Carvalho
Direção Musical: Jules Vandystadt
Coreografias: Clara da Costa
Desenho de Luz: Daniela Sanchez
Direção de Arte: Vitor Aragão
Programação Visual: Thiago Fontin e Raphael Jesus
Assistência de Direção: Vitor Louzada
Assistência de Direção Musical e Regência: Ciro Magnani
Direção de Produção: Leandro Terra
Produção Executiva: George Luis
Assistência de Produção: Igor Miranda e Mayara Luana
Realização: Silhueta Produções
Assessoria de Imprensa: Ribamar Filho / MercadoCom

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SERVIÇO: ter e qua, 20h. R$ 60. 130 min. Classificação: 16 anos. Até 2 de maio. Teatro dos Quatro – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2239-1095.

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