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Crônicas do exílio de Augusto Boal ganham palco do Oi Futuro

Para os conhecedores, o título do espetáculo em cartaz no Oi Futuro não deixa dúvidas – “Crônicas de Nuestra América”. Mas muitos outros podem não saber do que se trata. Talvez pensando nisso, surgiu a ideia de montar a peça, que é uma adaptação de crônicas escritas pelo dramaturgo e ensaísta Augusto Boal durante seu exílio em Buenos Aires, na década de 1970. Mais do que uma homenagem, é uma maneira de apresentar suas reflexões para um público novo. O nome escolhido é o de um livro, publicado em 1977, com textos compilados do jornal O Pasquim.

Cena de "Crônicas de Nuestra América" (Foto: Marina Andrade)

Cena de “Crônicas de Nuestra América” (Foto: Marina Andrade)

O projeto foi idealizado pelo Instituto Augusto Boal, com envolvimento direto da esposa do teatrólogo, Cecília Boal, e do primo dele, o produtor Luiz Boal. Foi Luiz quem convidou Theotonio de Paiva para cuidar da adaptação do texto. Ele concebeu o espetáculo ao se apropriar de uma crônica, que se passa nas desenraizadas Ilhas Falklands, para de lá contar as outras histórias. Sobre o teor delas, é o próprio Augusto Boal quem define, em apresentação na 1ª edição do livro: “São todas histórias verdadeiras – histórias que o povo andou me contando, aqui e ali, nestas viagens que eu, errante, ando fazendo desde que saí do Brasil, em 1971. Alguns personagens eu conheço, eu vi; outros, só de ouvi dizer. Nalguns lugares estive – descrevo como repórter. Outros me descreveram – escrevo do mesmo jeito”.

Para a concepção cênica, foi convidado o diretor Gustavo Guenzburger (de “O Mambembe”, como ator), que apostou em um método colaborativo com os atores. No elenco, há um nome que chama a atenção: Clara de Andrade, pesquisadora sobre a obra de Boal, em doutorado na UNIRIO. No mês que vem, não por acaso, ela lançará um livro chamado “O Exílio de Augusto Boal: Reflexões Sobre um Teatro Sem Fronteiras”. Mas é com Gustavo que o site Teatro em Cena conversou para saber mais detalhes da peça, que fica em cartaz até 28 de setembro, de quinta a domingo às 20h, com ingressos a R$ 20, no Oi Futuro, no Flamengo. Confira:

Como esse espetáculo chegou até você?
Em 2011, Cecília Boal nos convidou (a mim e à minha companheira Clara de Andrade) para participarmos da homenagem aos 80 anos de Augusto Boal. Ali conhecemos o Luiz Boal e ficou a vontade de produzirmos juntos alguma obra do teatrólogo. A ideia de adaptar as Crônicas foi da Cecília. Três anos depois de muita batalha, o projeto finalmente está estreando agora.

Qual era – se existia – sua relação com a obra de Augusto Boal antes desse trabalho?
Minha formação foi com o diretor Almir Telles e meus primeiros 20 anos de teatro foram dentro do Grupo Sarça de Horeb. Dirigidos pelo Almir, atravessamos o deserto político do teatro carioca dos anos 90 fazendo espetáculos que, entre outros temas esquecidos, discutiam o legado da ditadura. Viajamos por todo o País fazendo mais de mil apresentações de peças como “Brasil Nunca Mais” em escolas, igrejas, bairros ricos, comunidades muito pobres, cumprindo uma função social que andava e anda meio esquecida quando se fala de teatro no Brasil. Nossas referências de teatro político sempre foram Boal, Vianinha, Guarnieri, Suassuna, Plínio Marcos.

(Foto: Marina Andrade)

(Foto: Marina Andrade)

Qual foi a maior dificuldade de dirigir essa montagem?
Além do pouco tempo de ensaio que uma produção como a nossa tem para levantar um espetáculo, o desafio de se montar Boal hoje reflete a dificuldade do teatro em geral no mundo inteiro. O teatro nasceu para discutir os problemas da pólis. É político desde o nascimento. Mas com o surgimento de novas mídias, nas últimas décadas ele se vê cercado de concorrentes mais eficazes na função de representação objetiva e mesmo na discussão sobre nossa realidade. Então ao montar Boal, um autor que vê política nas pequenas coisas, como podemos encontrar uma linguagem que seja própria do teatro, que não tente concorrer com a TV, ou com as mídias digitais, mas que também não fuja de sua tarefa política? Durante o processo de montagem apareceu como chave para esta busca de linguagem a questão da ética do sentimento, que infelizmente muitas vezes é substituída pela lógica do dinheiro, o que causa uma desorientação total no ser humano. E no quesito sentimento, o presente da relação palco-plateia é um veículo que ainda não foi batido por nenhuma mídia, por mais desenvolvida que seja.

Há no elenco uma estudiosa sobre Augusto Boal. Seu estilo de direção é aberto a sugestões do elenco?
Minha companheira de teatro e de vida Clara de Andrade é pesquisadora da obra de Boal, e vai lançar em setembro um livro sobre o exílio de Boal pela editora 7Letras, ao mesmo tempo em que estará em cartaz na peça, como atriz. Não só ela, como todo o elenco (que conta ainda com Adriana Schneider, Carmen Luz, Henrique Manoel Pinho, Larissa Siqueira e Lucas Oradovschi) participou na construção da dramaturgia cênica do espetáculo. Cada cena foi concebida em cima de muita discussão e improvisação. Não penso que isso se tenha dado por uma questão de estilo, mas sim por uma necessidade de coerência com o próprio Boal, que eu considero um grande aperfeiçoador da democracia no século XX. Se ele considerou que o teatro teria uma nova função social ao incluir nele o cidadão ou cidadã comum como ator protagonista, o mínimo que caberia a nós fazermos seria encarar os problemas da cena como algo a ser solucionado igualmente por todos que nela estivessem implicados. E aí podemos incluir não só o elenco, mas o Ney Madeira e a Dani Vidal no figurino e cenário, o Paulo Cesar Medeiros na luz, meu talentosíssimo assistente Dieymes Pechincha e até mesmo nossa assistente de produção Regina Mascarenhas que, sendo também atriz talentosa, chegou a dar os seus pitacos. O espetáculo é o resultado destes muitos olhares, então ele transita em diversas camadas éticas e estéticas que se entrecruzam e se misturam, compondo uma malha complexa que, mesmo não sendo facilmente nomeável, penso ter o poder de plantar no espectador certas inquietudes indispensáveis para se evitar o caminho fácil da alienação de hoje.

Qual a expectativa para a temporada?
Esperamos que o público primeiramente se divirta, mas que também saia cheio de questões para refletir depois da peça. Como quebrar a lógica do oprimido que também oprime ao tentar se safar? Como conseguiremos nos reconhecer em nossos irmãos sul-americanos? Quando a mulher vai ter o mesmo poder que o homem em nossa sociedade? O que tudo isso tem a ver com o nosso atual sentimento de desorientação, falta de perspectiva de futuro, falta de projeto coletivo, dependência crescente de drogas psiquiátricas (ou não) legais (ou não) para todos os gostos e todas as idades? A primeira semana teve uma ótima resposta do público, que entende, se emociona e se diverte com as histórias e com a ironia fina de Augusto Boal. A temporada é curta e o espaço do Oi Futuro pequeno, então quem quiser conhecer estas histórias vai ter que garantir logo o ingresso.

(Foto: Marina Andrade)

(Foto: Marina Andrade)

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