Da sala de aula ao palco profissional – Por Juliane Bodini – Teatro em Cena
Papo de Artista

Da sala de aula ao palco profissional – Por Juliane Bodini

(Foto: Janderson Pires)

Meu primeiro contato com Dançando no Escuro foi em 2007, quando Paulo Afonso de Lima, meu então professor da CAL, me apresentou o filme com a ideia de usar a obra como exercício de montagem da turma de atores da qual eu fazia parte. Foi então que fiquei em êxtase e fascinada com tamanha preciosidade. Um filmaço!

Na adaptação acadêmica de Paulo Afonso, existiam cenas e personagens criados por ele para dar conta de uma turma de aproximadamente 15 alunos, um número de atores maior que o número de personagens da história. Também contávamos com uma iluminação simples, operada por ele mesmo, e para que a sala ficasse mais escura, encapamos todas as portas e janelas com sacos de lixo pretos para dar a ideia de “escuridão” que permeava a história de Selma.

Na ocasião, lembro que teríamos apenas duas ou três apresentações abertas ao público, mas a procura foi tão grande que tivemos que abrir sessões extras devido ao sucesso. As pessoas faziam filas para conseguir nos assistir, saíam chorando, era engraçado e também inspirador ver aquilo acontecendo numa peça acadêmica. A experiência na CAL foi muito prazerosa, e também um marco na minha trajetória por lá. Foi quando decidi que quando me formasse, desenvolveria a ideia de fazer “Dançando no Escuro” profissionalmente.

Essa ideia fixa martelou a minha cabeça durante alguns anos depois que me formei, mas me faltava uma atitude mais concreta para que o desejo saísse da minha cabeça e chegasse até a prática. Até que um dia, numa conversa com Luis Antonio Fortes, meu amigo, que também havia estudado comigo na CAL, chegamos à conclusão de que ele iria me ajudar a produzir a peça. Foi então que a empreitada começou.

As dificuldades eram muitas, partindo do princípio que se tratava de um filme de Lars Von Trier, um dinamarquês que parecia estar tão longe de nós, além de toda a sua fama de ser uma pessoa difícil e também da sua briga com Bjork, depois de dirigi-la em “Dançando no Escuro”. Os obstáculos pareciam ser gigantes. Como chegaríamos até ele? As chances de recebermos um “não” era muito grande. Mas seguimos.

Eis que então descobrimos a adaptação para teatro do nova-iorquino Patrick Ellsworth, a única permitida pelo Lars Von Trier. Era diferente da adaptação do Paulo; continha apenas o número correspondente aos personagens da trama original, mas também com algum toque de criatividade. Porém, bem fiel ao filme. E com os direitos comprados em outubro de 2015, demos início a uma nova etapa da produção, e também a mais difícil de todas: a busca por patrocínio.

Nos inscrevemos no Edital Programa de Fomento as Artes 2016 e fomos contemplados com o então patrocínio da Prefeitura. Que felicidade! Mas nossa alegria não durou muito. Quase não pudemos festejar direito, porque logo em seguida, foi decretado o calote da prefeitura e o não-pagamento do Edital. Realmente estávamos certos, os obstáculos não apenas pareciam, mas de fato, eram bem grandes.

Foi aí que o Teatro Sesc Ginástico nos convidou para estrearmos lá em outubro de 2017. Ligações no telefone com a Jessica, a nossa produtora, e com Tuninho ocuparam o nosso dia, naquele dia do convite do Sesc. A dúvida era se conseguiríamos levantar um musical daquele porte, com nove atores, músicos, técnicos, equipamento de som e tudo mais, com praticamente metade do valor que supostamente teríamos com o Edital da Prefeitura. Resolvemos encarar.

Conseguimos montar um elenco e equipe incríveis, capitaneados pela amada Dani Barros no pior momento de descaso e desmonte da Cultura. Todos trabalhando com pouquíssima grana, mas acreditando no poder daquela história a ser contada. Vendemos tudo! Pedimos empréstimos, vendemos o carro, a vida, a mãe! (como brinca a Dani, rs). Fizemos isso, porque no meio do processo, vimos que o nosso orçamento iria exceder o valor que tínhamos conseguido com o Sesc.

Mesmo assim, em paralelo à história da Selma, que tem uma doença degenerativa que vai fazendo com que ela vá perdendo a visão aos poucos, Luis teve a ideia de fazer um trabalho de acessibilidade no espetáculo. Programas em braille, sessões com audiodescrição, libras e também a contratação de músicos cegos para integrarem a nossa banda.

Estreamos no dia 19 de outubro de 2017, exatos dez anos depois da montagem da CAL. Ficamos muito felizes com a resposta do público e também da crítica, e claro, com as indicações a Prêmios. Foram um total de 11 indicações aos Prêmios SHELL, Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR. Para uma peça que poderia nem sequer ter estreado por conta da falta de verba, receber este reconhecimento foi bastante inspirador e gratificante.

No momento em que finalizo este texto, me encaminho para o Teatro Oi Casa Grande para dar uma bisbilhotada de como está caminhando a nossa montagem, pois iremos reestrear daqui a dois dias, em nossa quarta temporada no Rio, em um dos teatros que mais tive o desejo de estar em cartaz aqui. Continuamos à base de empréstimos, é verdade. Também é engraçado porque as pessoas me perguntam: “Por que você faz isso? Vale a pena?”, e eu digo: “Tenho certeza que sim”.

Dançando no Escuro é um grito de alerta, de resistência. Uma peça levantada na raça e na luta. Essa história fala sobre isso. Queria muito que o Paulo pudesse assistir essa montagem. Ele havia me dito que iria, mas apesar dele ter nos deixado meses antes da nossa estreia e não estar fisicamente mais entre nós, tenho certeza que ele já assistiu “Dançando no Escuro” de onde estiver. Evoé!

Juliane Bodini é atriz e cantora.
Está em cartaz com Dançando no Escuro no Oi Casa Grande.

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