Entrevista

Dani Barros continua a missão de Estamira: revelar a verdade

Dani Barros em cena de "Estamira - Beira do Mundo" (Foto: Luis Alberto Gonçalves)

Dani Barros em cena de “Estamira – Beira do Mundo” (Foto: Luis Alberto Gonçalves)

Suja, física e psicologicamente, Dani Barros gasta uma boa meia hora no camarim do Teatro Poeira para deixar a personagem para trás, ao fim da sessão. Ela está em cartaz novamente com “Estamira – Beira do Mundo”, monólogo que lhe rendeu os prêmios Shell, APTR e Questão de Crítica de melhor atriz, e que ela não encenava há dois anos. Novamente, é um sucesso. A personagem real que ela interpreta, uma catadora de lixo com doença mental crônica, encanta plateias desde 2011. Para Dani, a peça é “um acerto de contas”, como ela costuma dizer, mas não dá para negar: é também um desgaste. A quantidade de texto é grande e com certeza o papel mexe com o psicológico de qualquer um. Em cena, todos acreditam que ela é Estamira – “a profeta do lixão”. Até mesmo os amigos ficam impressionados.

– Fiz uma lista com várias anotações para essa atrizinha melhorar – brinca o comediante Paulo Gustavo, que espera por ela na saída para dar os parabéns. No mesmo dia, o casal Françoise Forton e Eduardo Barata também a prestigia. Todos querem comentar momentos da peça e tirar fotos com ela. Dani passa cerca de 40 minutos atendendo todo mundo, até que é sutilmente expulsa do teatro, com os funcionários apagando as luzes e sacudindo a chave do portão na mão.

– Eu vi você bem na primeira fila. Eu hoje ia dizer “tem algum médico aí?”, mas pensei que ficaria muito endereçado. – ela comenta com Paulo, que é casado com o dermatologista Thales Bretas, também presenta na plateia.

– Ai! Ela acha que tem pouco texto! Quer botar mais! – Paulo zomba e eles se abraçam.

Dani realmente sempre quer botar mais. Ao longo do espetáculo, dirigido por Beatriz Sayad, ela provoca a plateia e busca indagar o máximo possível de espectadores (“Eu tô focando muito na primeira fila, né? Tenho que me atentar a isso…”). Uma cena, em especial, é atormentadora. Estamira, a senhora que ela interpreta, começa a passar mal bem ao lado do público e pede socorro às pessoas. Ela agoniza e grita – “vocês vão ficar só olhando?” – e ninguém sabe o que fazer. Françoise Forton confessa que quase levantou, mas o marido a segurou “para não pagar mico”. Às vezes, os espectadores realmente a ajudam. Dani conta que, em determinada sessão, uma mulher saiu de sua poltrona, a buscou contorcida na parede, a levou para o banco no centro do palco, deitou sua cabeça em seu colo e a acalmou até sua respiração desacelerar. “Eu não queria que ela saísse dali, porque sabia que em seguida vinha pauleira no texto”, confessa a atriz. Ela também parece confundir o que é ela e o que é Estamira.

(Foto: Luis Alberto Gonçalves)

(Foto: Luis Alberto Gonçalves)

Morta aos 70 anos, em 2011, Estamira Gomes de Sousa ficou famosa internacionalmente ao ser tema de um documentário com seu nome, dirigido por Marcos Prado (o mesmo cineasta de “Paraísos Artificiais”). O filme recebeu 23 prêmios no Brasil e no mundo e impressionou o público, porque, apesar de sofrer de transtornos mentais, aquela senhora também dizia verdades muito lúcidas. Quando assistiu ao documentário, Dani Barros ficou fascinada por aquela que passou a considerar sua heroína, uma Mulher Maravilha. Como a atriz também passou grande parte da vida em hospitais psiquiátricos, primeiro por causa do diagnóstico de sua mãe, e depois por causa do trabalho com os Doutores da Alegria, não foi difícil se identificar com tudo que viu. “Eu encontrei nela o que eu sempre quis dizer, estava ali”. Para a dramaturgia, juntou momentos emblemáticos do filme com recortes próprios de sua história com sua mãe. Por isso, chama o projeto de acerto de contas e diz que entra em cena com sangue nos olhos. Às vezes, sente a presença da mãe no teatro.

– Um amigo falou comigo que, assim como eu, tinha vergonha da mãe chamando atenção dos outros com seus aplausos quando o assistia no teatro. Depois que ele viu a peça, disse que vai deixá-la aplaudir do jeito que ela quiser. Justamente quando conversávamos sobre isso, a amiga da minha tia me mandou uma mensagem dizendo que minha mãe tinha enviado uma carta psicografada falando exatamente isso. “Sua mãe é a que mais está te aplaudindo nas suas apresentações. Ela está junto com você”. Você pode acreditar ou não, ou quem está lendo isso aqui pode acreditar ou não, mas recebi essa mensagem. Parece coincidência, mas o além é isso mesmo.

Dani fala do além com a mesma leveza com que conta sua visita ao Jardim Gramacho, suas apresentações em clínicas psiquiátricas, e seu encantamento absoluto por Estamira. Ela só se altera quando fala sobre políticos, muito indignada com o processo de impeachment e “com a cara de pau do Cunha”, e sobre o caos que é o sistema de saúde pública, em especial a psiquiatria. Não esconde suas mágoas em relação ao tratamento destinado à sua mãe, que faleceu aos 54 anos “muito mal tratada, com muita química errada”, e à própria Estamira, que ficou um dia sem atendimento no corredor do Hospital Miguel Couto.

Estamira, a inspiradora (Foto: Divulgação)

Estamira, a inspiradora (Foto: Divulgação)

– Fazer a peça agora, nesse momento do Brasil, que isso tudo está acontecendo, o que Estamira diz, mais uma vez, é muito contundente. Parece que ela está dialogando com o Brasil de agora quando fala dos espertos ao contrário, dos “trocadilos”… – a atriz faz uma pausa, querendo citar uma fala do espetáculo que ela acabou de apresentar, mas a fala não vem – Pior que quando eu tento lembrar as falas assim, eu não consigo, cara! Tem uma frase que é maravilhosa… Eu não consigo lembrar as frases depois da peça. Eu ia falar uma frase agora que era perfeita para esse momento atual…

Num instalo, ela se lembra e solta, sem avisar, interpretando no mesmo tom da personagem: “Eu não tenho raiva de homem nenhum, eu tenho é dó. Eu tenho raiva sabe de quê? Do ‘trocadilo’, do esperto ao contrário, do mentiroso, do traidor, desse que eu tenho raiva, ódio, nojo”. Em seguida, volta a falar como ela mesma: “São frases que parecem que ela está dialogando com o [presidente da Câmara Eduardo] Cunha!” É interessante como Estamira entra e sai desse corpo, mas os pensamentos se entrecruzam e permanecem.

A entrevista lida aqui aconteceu à meia-noite de um sábado. Como o teatro já estava fechado, Dani recebeu o repórter em seu carro, parado em um posto de gasolina na mesma rua do Poeira, em Botafogo. “Que esquisito isso. Nunca dei entrevista assim. Você vai colocar isso na matéria?”, ela pergunta, curiosa, achando graça. Entre uma resposta e outra, Dani faz várias perguntas. É interessada. “Como você vai escrever isso tudo? Eu abro muitos parênteses, não abro? Devia ser mais objetiva…”. Quando fala de política e faz denúncias, vai e volta atrás. Solta muitos “eu não devia estar falando isso”, “não põe isso não…” e “ah, quer saber, pode falar sim, é até bom”. Mas o engraçado é como se preocupa, no fim das contas, com um ponto específico: “não pareci tucana não, né? Pelo amor de Deus!”. Era a noite anterior à votação do impeachment pela Câmara dos Deputados. Ela estava indo para casa com o pensamento de comparecer ao protesto da Furacão 2000 na Praia de Copacabana no dia seguinte – mesmo tendo que poupar a voz para a peça. “Geralmente, falo pouco ao longo do dia, porque a peça demanda muito. Mas eu não vou aguentar. Vou estar lá. Vai ser um dia quente. Onde eu te deixo?”.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Você ficou dois anos sem fazer essa peça, enquanto estrava trabalhando na TV. Como é voltar agora?
Total, total. Quando acabou a novela, falei “preciso voltar com Estamira”. Volta e meia, encontrava alguém que perguntava “e Estamira? Não vai voltar?”. Ela estava me chamando. É uma peça que sinto que vou fazer minha vida toda, entendeu? Nasci para fazer essa peça. Claro, muitas outras peças também, mas essa é muito importante para mim. Costumo dizer que é um acerto de contas.

Nas entrevistas que você durante as primeiras temporadas, dizia que Estamira representava o que você queria falar e tinha encontrado nela o meio para fazer isso. Isso continua?
Na primeira vez que eu vi o filme, tinha essa questão da minha mãe. Eu sempre, desde pequena, frequentei hospital psiquiátrico e trabalhei 12 anos dentro de hospital no projeto Doutores da Alegria. Quando assisti ao filme, falei “meu Deus, é tudo que eu queria dizer na vida”. A Estamira é um bufão, né? Eu trabalho com palhaço, e a Estamira é um bufão, uma profeta maravilhosa, falando toda aquela lucidez dentro de um lixão. O contraditório, o paradoxo, é que essa mulher dentro do lixo fala o lixo que a nossa sociedade está vivendo. Quando eu vi, achei que era o acerto de contas que eu queria ter feito com a história toda da minha mãe. Quando ela faleceu, eu fiquei em uma dúvida – processo ou não processo esse lugar que ela estava internada – e um dia eu fui assaltada e achei que a vida estava me dizendo: “não, tem outras formas de processar”. Até porque é tudo… (gagueja) Nossa, eu não sei se devia estar te falando tudo que estou te falando. É porque é tão difícil lidar com a loucura. Esse lugar que minha mãe ficou internada, por outro lado, tinha pessoas incríveis. Tinha alguns copiadores de receita, como a Estamira fala, mas também tinha pessoas que gostavam muito da minha mãe. Mas é que o tratamento psiquiátrico, ao longo da vida dela toda, foi muito difícil. Difícil encontrar bons médicos, que não sejam pessoas que vão te dopando, fazendo você ficar uma pessoa dopada, sem desejo, sem vontade. Às vezes, ao longo do caminho, você encontra médicos bons, outros não, enfermeiros maravilhosos, outros nem tanto, pessoas que apoiam, que te dão ajuda ou não. É muito complexo. Lidar com a loucura é muito complexo. Com essa peça, eu tenho muito o depoimento das pessoas, que eu não teria se não tivesse a peça. As pessoas chegam e falam “minha mãe é esquizofrênica”, “ah, eu já surtei, já fui internada”: depoimentos lindos que, com a peça, as pessoas se sentem confortáveis para falar desse assunto. E é um assunto que se coloca meio debaixo dos panos, porque realmente é muito difícil… Quer dizer, na época da minha mãe era mais difícil…

Qual era a época?
Minha mãe morreu há 15 anos atrás, antes dessa reforma. A psiquiatria caminhou bastante. Teve essa história da reforma psiquiátrica. Mas acho que tem sempre que caminhar mais e mais, porque foi uma reforma que veio tardia. Até pouco tempo atrás, as pessoas eram trancafiadas dentro de uma clínica. Está tendo toda uma luta aí, porque o Valencius [Wurch, coordenador geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde]… ah, não quero falar disso não!

Dani Barros com Renata Sorrah ao receber o Prêmio APTR (Foto: Reprodução)

Dani Barros com Renata Sorrah ao receber o Prêmio APTR (Foto: Reprodução)

Tudo bem. Trazendo de volta para a peça: você teve esse hiato para fazer TV. Sente um reflexo disso nas apresentações, com relação ao público?
Eu não sei, pode ser que sim. Ainda não sei. Vem muita gente porque ouviu falar da peça, que a peça é legal, porque muitas pessoas comentam coisas lindas na Internet. “Estamira” rola um boca a boca. E tem muita gente que é fã da Estamira, que viu o filme e quer ver a peça. Eu não encontrei ainda ninguém que falou “te assisti como Lorraine e vim te ver”. Pode ser que sim. Pode ser que tenham pessoas que tenham vindo porque viram a Lorraine e estão querendo conhecer meu trabalho no teatro. Eu adoraria, aliás, que esse público viesse conhecer um pouco mais do meu trabalho no teatro. Teve um grande público que conheceu porque fiz uma peça com a Lília Cabral e muita gente assistiu, que era uma peça bem legal, “Maria do Caritó”. Muita gente me conhece da galinha. Agora, enfim, sou Estamira: é essa esquizofrenia cênica de que cada hora sou um personagem.

Você falou sobre apresentar a peça nesse panorama atual, e hoje é véspera da votação do impeachment. Qual a importância de trazer esse personagem com doença mental crônica e, ao mesmo tempo, tão lúcido para o teatro?
É pena que, só daqui a alguns anos, talvez todos tenham consciência do que está acontecendo. É uma grande arapuca armada. Independente das pessoas gostarem ou não do governo que está, a quebra da democracia é uma coisa irreversível. Se quebrar uma vez, pode quebrar de novo, porque já foi quebrado uma vez. É lamentável. Se não está gostando do governo, espera passar e aí faz uma campanha melhor para que seu candidato ganhe, sei lá, não sei. Não pode… Tanta gente morreu, tanta gente foi torturada, para conquistar a democracia, e agora a gente quer quebrar a democracia? Há várias falhas na democracia, realmente, e dá trabalho fazê-la. Dá trabalho. A gente ainda é muito jovem, a gente é um país jovem, tem uma democracia de poucos anos, e tem muita coisa para melhorar, para consertar. Devia não ter patrocínio de campanhas políticas, devia não ser obrigatório o voto, para você ir mais consciente… Democracia dá trabalho, mas quem gosta de facilidade é ditador. Então, falar esse texto, eu fico muito emocionada. Há quatro anos, era muito emocionante, e agora então… parece que ela está dialogando direto com toda essa arapuca armada, todo esse golpe mesmo que estão dando. E é uma peça que fala sobre os excluídos, a falta de escuta com determinadas pessoas e classes sociais. Gostando ou não, o Brasil saiu da miséria que estava, então, assim, eu acho isso muito positivo. Os “trocadilos” e os espertos ao contrário têm mesmo que responder os processos e ser investigados, mas a gente não pode tirar a presidente que foi eleita pela maioria. Eu gostaria muito que meu voto fosse respeitado. Eu votei e, dessa vez, eu nem votei no PT tão feliz, na certeza, mas eu gostaria que fosse respeitado meu voto. E votaria de novo.

Tem um vídeo no Youtube que é você na frente do lixão de Jardim Gramacho, e você diz no programa da peça que gosta de brincar com lixo desde criança. Sua mãe te chamava de “Maria Caquinho”. Como foi essa experiência in loco lá?
Para fazer Estamira, eu não tive que ir para clínica psiquiátrica fazer laboratório, porque passei a vida inteira indo por conta da minha mãe e dos Doutores da Alegria. Eu tive que ir a Gramacho para sentir como era o lixão, para sentir o cheiro… Engraçado, eu não sei se fui a lugar que realmente era um fedor, mas eu não achei… Não sei se a Estamira já estava incorporada em mim, mas eu me senti em casa, parecia um pinto no lixo. A gente tinha pouco tempo, uma tarde, e eu fiquei louca lá em Gramacho, com aqueles urubus. Tem uma parte da peça que eu fico ali me sentindo com aqueles urubus em Gramacho. Foi muito emocionante, e ouvir as histórias da Estamira, de outras pessoas, outras Estamiras que você encontra no meio do lixão…

(Foto: Barbara Copque)

(Foto: Barbara Copque)

Como foi conhecê-la?
A gente ligou para o Hernane, o filho dela, e falamos com ele. A gente não sabia que eles sabiam [da peça], mas quando chegamos descobrimos que o Marco já tinha falado com ele. Foi muito emocionante. Foi como se eu estivesse conhecendo a Mulher Maravilha, porque pra mim a Estamira é uma heroína. Foi muito emocionante, inclusive ela deu o final da peça, que eu não vou falar aqui, porque é uma surpresa, mas foi lindo, foi muito emocionante. Eu gostaria muito de ter feito para ela em vida. Ela faleceu uns três meses antes, no Hospital Miguel Couto, sem atendimento. Ficou um dia no corredor sem atendimento e… inclusive vai rolar agora um processo por essa negligência. Também outro hospital… [fica em dúvida quanto ao nome] É um hospital que ela chegou e falaram que ela não tinha nada, mandaram embora. Vai rolar agora essa audiência. É lamentável essa senhora ter passado tudo que passou na vida e chegar ao hospital e não ser atendida. Esses “trocadilos”, eu não sei onde eles vão parar. A Saúde é triste, né? Já é uma questão para todo mundo. A gente pode pensar “ah, mas eu tenho plano de saúde, está tudo bem”. Não está tudo bem, não. Para ninguém. Porque quando começam a faltar leito nos atendimentos, todos hospitais entram na roda e começa meio que a faltar leito geral, é um efeito dominó. Quando vê, não tem leito, não tem como ser atendido. É lamentável. Esses políticos deviam tomar vergonha, porque é triste. Por que essa gente rouba tanto? Eles roubam, mas roubam demais. O que eles vão fazer com tanto dinheiro? O que se faz com tanto dinheiro? O que o Cunha faz com tanto dinheiro, gente? Não já deu? Já foi. Pega o dinheiro que você roubou e vai aproveitar a vida, vai para uma ilha deserta. A vida passa, é triste, é lamentável. Eu não sei como essa gente dorme em paz. Eu trabalhei 12 anos em hospital e vi por 12 anos acontecer isso: falta de equipamento, falta de material, falta de tudo, falta de vergonha na cara desses políticos. Você vê um hospital como o Fundão com um buraco no teto, o Pedro Ernesto pedindo ajuda, o Fundão pedindo ajuda porque está para fechar. E tem uns médicos e enfermeiros ali, que trabalham para segurar a onda, e trabalham ganhando pouco, enquanto esses políticos estão viajando. Chega, acabou, acabou a palhaçada, parou, chega! Ai, eu fico revoltada! (exaltada).

A Estamira dizia que a missão dela era revelar a verdade. Você sabe qual a sua?
A minha missão é revelar a missão dela (risos). O Marcos Prado, quando foi encontrar a Estamira no lixo, perguntou se podia fotografá-la e ela falou “pode, mas você vai ter que ouvir algumas verdades”. E ela sempre falava que a missão dela era revelar a verdade, aí um dia perguntou para ele: “você sabe qual a sua missão?”. Antes que ele respondesse, ela falou: “sua missão é revelar a minha missão”. A Estamira até fala uma coisa, que eu repito na peça, que é: “quando desencarnar, eu vou fazer muito pior!”. Acho que minha missão é continuar com a missão dela, para que seja ouvida, para que esteja aqui, para que as pessoas entendam, é continuar revelando a missão dela, sim. E fazendo esse acerto de contas com a história toda da minha mãe. Porque eu entrava nos hospitais e não conseguia fazer nada. Depois, no Doutores [da Alegria], até conseguia, com o trabalho de palhaço, subverter e apontar as coisas que você quer mudar. Com a arte, você tem essa capacidade de transformar as pessoas, as coisas. Eu ia aos hospitais quando era criança e sentia que não podia falar nada. Agora, eu sinto que posso, sim, falar. Inclusive a gente levou a peça para hospitais psiquiátricos. Quando a gente faz em hospital psiquiátrico, é muito bom, porque depois a gente faz bate-papo e são bate-papos incríveis, apresentações incríveis, de muita troca, entre pacientes, usuários, clientes, médicos, enfermeiros. Poder falar sobre esse sistema de saúde mental, saúde pública, exclusão, é muito enriquecedor. Sinto que a peça ganhou mais camadas nessa volta depois de dois anos, depois de termos esse feito essa circulação por esses hospitais psiquiátricos.

(Foto: Emi Hoshi)

(Foto: Emi Hoshi)

O que você aprendeu com Estamira – o filme, a peça, a mulher, o trabalho? Qual o maior aprendizado?
Qual o meu maior aprendizado? Eu sinto que aprendo muito com Estamira. Sinto que cresci muito como atriz. O monólogo é uma demanda grande para um ator e essa peça, particularmente, o retorno que tenho das pessoas… Recebo cartas, presentes, umas coisas lindas, belíssimas, coisas até do além, conexões, sincronias que acontecem, que gente descrente fala “ah, coincidência”, mas na verdade essas coisas do além são isso, coincidências. A loucura tem esse poder, essa capacidade, de estar com o inconsciente a céu aberto, como a Nise da Silveira falava, então pega mais essas dimensões, esses desdobramentos do ser, que acho que o louco está mais aberto para isso. Mas o meu maior aprendizado… acho que eu falei, né?

Voltando para sua mãe, quantos anos ela tinha quando morreu?
Eu sou muito ruim de data… Cara, eu não sei. Ela nasceu em 1947 e morreu em… [pensa] 2001. Eu acho que ela tinha cin… Ai, me deu curiosidade. [abre a calculadora no celular e faz a conta]. É, eu estava com esse número na cabeça: 54. Ela morreu muito nova. Muito nova. Muito mal tratada por tanta química, por química errada… eu quero dizer, com tudo isso, que também não é fácil estar no lugar do médico, não. É muito difícil. Acompanhei os médicos nos Doutores da Alegria nos hospitais universitários e sei que é muito difícil, porque é uma educação falha. Nem todos os psiquiatras tem o treinamento para saber lidar com todos os medicamentos. Tem medicamentos que às vezes o cara na faculdade não aprendeu a usar, porque o Estado não disponibiliza, porque talvez seja mais caro dar aquele tratamento, requer mais tempo, e a gente sabe como são os hospitais públicos, né? Em vez do cara atender dez, ele atende 25. Estamira, quando eu fui visitá-la, vi como o Hospital Miguel Couto parece uma praça de guerra. A emergência do Miguel Couto é triste, é lamentável. O olhar de desespero de todo mundo, dos médicos também. Coitados dos médicos, sabe? É muito difícil lidar. Eu imagino que seja muito difícil ser médico, mas minha mãe encontrou alguns copiadores de receitas lamentáveis, alguns tratamentos lamentáveis, muito eletrochoque, muito. Acho que às vezes tem o lugar do eletrochoque, porque muita química também não é bom. Mas o médico tem que ter essa sensibilidade e nem todos têm. Na peça, tem uma hora que eu falo “se você não tem paciência para tratar de pessoas…”. Como é que eu falo? “Quem não tem paciência para tratar de pessoas, não pode ser médico”. Não… Como é que é?

Quem não tem paciência para pessoas, não pode ser médico de pessoas.
Quem não tem paciência para tratar de pessoas, não pode… ser médico de pessoas. Eu falo isso? Cara, eu não sei dizer os textos depois. Não sei o que é que acontece. Tem uma coisa assim na peça… Ai, essa frase do maior aprendizado que você perguntou…

Ih, ficou presa nisso!
É, porque eu sou uma geminiana, então são muitos aprendizados. Outro aprendizado foi o da produção. É uma idealização minha, tem uma produtora agora, mas eu sempre estou por trás, pensando todos os pontos, tô junto com a diretora, junto com as produções. Para mim, foi um grande aprendizado entrar em cena sabendo quanto custa cada coisa: quanto custa uma van, quanto custa um banner. É muito enriquecedor você saber. Um grande aprendizado também, pra mim, é que eu acho que, como é um acerto de contas, eu entro em cena com sangue nos olhos. É muito importante a gente saber, um ator, e isso faz parte do amadurecimento, saber exatamente o que eu quero dizer, o que tenho necessidade de dizer. Quando você diz com necessidade, acontece isso: uma peça que a gente fez e continua fazendo, e vai continuar fazendo sempre. Não é só fazer, e depois acabou a peça. Eu tenho necessidade de falar esse texto, então é muito importante volta e meia fazer essa peça. Agora, no Rio, não tão cedo a gente vai apresentar, mas quero rodar muitos lugres. Quero ir mais para fora. A gente fez em Portugal e na Espanha, com legenda. Eles acompanharam tudo, eram adolescentes, e riam e choravam exatamente nos momentos como é aqui. Foi incrível.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Então, esse ano vai ser de Estamira? Ou tem outros projetos?
Esse ano é Estamira. A gente vai rodar por aí, outros lugares. A gente vai fazer uma apresentação no Jongo da Serrinha, no fomento Olímpico, lá em Madureira. Vai ser muito bacana. Eu gostaria muito de fazer uma peça nova, que é um texto do Domingos Oliveira, que estou muito paquerando, mas até agora não saiu patrocínio. Acho Domingos um autor maravilhoso, muito maravilhoso. São uns textos dele, que ele já montou. E tem uma novela para o ano que vem, mas não está certo ainda, então não posso falar aqui, porque tô esperando.

Aqui, a entrevista supostamente tinha terminado. O gravador foi desligado, Dani Barros perguntou qual era o tempo de gravação (meia-hora), engatou um papo político e, por fim, pediu para gravar mais uma parte. Sobre o quê? Seu maior aprendizado com “Estamira”. Sim, ela encasquetou nessa parte. Segue a conclusão última da geminiana:

O grande aprendizado da peça foi ter pego todo esse material, todo esse sofrimento, da minha mãe, meu, e transformar isso através da arte. A arte tem essa capacidade. Hoje em dia, poder falar sobre isso, poder trocar com essas pessoas que chegam e falam “ah, eu também tenho uma mãe assim…”. Eu vejo mensagens no Facebook e fico encantada. O grande aprendizado foi esse: pegar isso tudo e transformar em arte. Em vez de processar, esse processo se transformar em uma peça de teatro e poder trocar com as pessoas, falar sobre isso.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50 (qui e sex) e R$ 70 (sáb e dom). 75 min. Classificação: 12 anos. Até 29 de maio. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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