Daniel Herz propõe leitura contemporânea de Martins Pena em O Pena Carioca – Teatro em Cena
Entrevista

Daniel Herz propõe leitura contemporânea de Martins Pena em O Pena Carioca

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

O espetáculo “O Pena Carioca” despertou um discurso sensível da atriz Fernanda Montenegro (de “Viver Sem Tempos Mortos”) quando o assistiu, em setembro. Ela disse que a Cia. Atores de Laura, responsável por reunir três obras do Martins Pena (1815-1848) nessa peça inédita, a fazia “acreditar que o teatro é eterno”. Fã da grande dama do teatro brasileiro, o encenador por trás disso tudo é Daniel Herz, há 23 anos a frente do grupo elogiado. Ele nunca tinha montado Martins Pena e decidiu fazer logo assim, com três em um – as peças reunidas são “A Família e a Festa na Roça” (1838), “O Caixeiro da Taverna” (1845) e “O Judas em Sábado de Aleluia” (1846). É também a primeira montagem de um clássico brasileiro pela Cia. Atores de Laura, mais íntima dos europeus Shakespeare (1564-1616) e Molière (1622-1673). O resultado fica em cartaz no Teatro do Leblon até 20 de dezembro.

– Quando você mergulha em uma história de origem no Rio de Janeiro, no Brasil, você vai fazendo uma reflexão sobre as coisas que mudaram, as coisas que continuam as mesmas, as contradições éticas que nós vivemos como cariocas e brasileiros. Você sente que não está só montando para os outros, mas para você mesmo. Acaba sendo um momento da vida em que você elabora questões de sua identidade como cidadão brasileiro. – ele conta ao Teatro em Cena – O que me instigou foi: como fazer uma leitura contemporânea de Martins Pena? Pegar um autor que é do século XIX e fazer dessa montagem algo que interesse o público de hoje, sem ter a sensação que é uma coisa antiga, uma coisa que tenha cara de museu. Como fazer uma montagem que tenha essa roupagem da vida rápida, fragmentada, multifacetada que vivemos hoje em dia, que é completamente diferente da época dele? Acho que tem uma teatralidade e uma brincadeira com o pacto com o público de que estamos fazendo teatro o tempo inteiro, que ajuda a chegar a esse resultado.

Cena de "O Pena Carioca" , mais nova direção de Daniel (Foto: Paula Kossatz)

Cena de “O Pena Carioca” , mais nova direção de Daniel (Foto: Paula Kossatz)

Daniel Herz, além de diretor e porta-voz da Cia. Atores de Laura, que administra o Teatro Miguel Falabella desde 2000, é também ator, autor e professor. Já foi indicado ao Prêmio Shell de melhor direção duas vezes, e saiu vencedor do Prêmio Coca-Cola, Prêmio Qualidade BR e Prêmio Orilaxé. Este último, ele ressalta a importância, por ser um prêmio que valoriza a diversidade. Foi-lhe entregue por conta de “O Filho Eterno” (2011), adaptação do livro de Cristóvão Tezza sobre os percalços da convivência com um filho com síndrome de Down. “Recebi esse prêmio das mãos da Marília Pêra, então foi muito bacana. Foi diferente e fiquei feliz de receber”. Mas ele não faz diferença entre os espetáculos premiados ou não. Atualmente indicado ao Prêmio Cesgranrio por “Meu Saba” (de fora da cia.), diz que todos são como filhos. Quando questionado sobre as montagens mais marcantes da companhia, acaba listando um punhado delas. “A Entrevista” (1992), por ter sido a primeira; “Romeu e Isolda” (1995), por ter levado o grupo para a França; “As Artimanhas de Scapino” (2002), pelo sucesso; “O Filho Eterno”, pela ida a Portugal, entre outras razões; “Adultério” (2011) e “Absurdo” (2012), por serem criações coletivas especiais; e, quando você acha que ele fechou o combo, se lembra de mais uma: “O Decote” (1996). “É um espetáculo sofisticadíssimo, inspirado em Nelson Rodrigues, mas que não tem nenhuma citação do Nelson, então você jura que é dele, mas é uma criação coletiva. É um espetáculo que a gente ama”.

Nelson Rodrigues, aliás, é um dos dramaturgos favoritos de Daniel. “Poderia ficar montando Nelson Rodrigues a vida inteira. Sou completamente apaixonado”. Molière, Jean Genet (1910-1986) e Shakespeare são os outros. Um dos seus sonhos é montar “Hamlet”, seja como ator, diretor ou ambas as funções. Mas, por hora, ele se satisfaz com a realização de outro: trabalhar com Marco Nanini (de “Beije Minha Lápide”). Vai dirigir o ator em “Ubu Rei” no ano que vem. “Estou muito feliz, emocionado porque vou trabalhar com ele”, comenta. O projeto é para o segundo semestre. No primeiro, dirigirá Marcos Veras (de “Falando a Veras”) em “Acorda Pra Vida”. A parceria com o ator é um namoro de muito tempo, ele conta. “Ele me chamou para fazer esse espetáculo. É a realização de um desejo, de um namoro um com o outro, de trabalhar junto”. São convites assim que firmam sua carreira de diretor, com um currículo cada vez mais extenso, e o afastam do ofício de ator. A última vez que se lembra de ter atuado foi em uma substituição de um dia em “O Decote”, na remontagem de 2004, no Teatro Miguel Falabella.

O diretor com os atores da Cia. Atores de Laura (Foto: Divulgação)

O diretor com os atores da Cia. Atores de Laura (Foto: Divulgação)

– Sinto muita falta de atuar. Acho que isso é uma contradição na minha carreira, porque, como diretor, ela cresceu muito, com convites muito sofisticados, muito bacanas, maravilhosos, que me deixam super honrado. Ao mesmo tempo, eu acho o ator a figura mais sagrada do teatro. É como se eu tivesse me afastado da parte mais sagrada do teatro. Não que eu ache direção menor, não é isso, mas a figura do ator é a figura que enfrenta o abismo da morte, da cena ali. Eu tenho uma coisa muito mal resolvida com isso. Não é bem resolvida não. Eu acho que é uma coisa para eu resolver ainda nos próximos anos. A gente tinha um projeto louco: eu, André Paes Leme e João Fonseca, nós três como atores. Os três diretores em cena. É um projetinho que a gente tinha, uma brincadeira, sem uma dimensão mais concreta ainda. Mas toda vez que a gente se encontra brinca de falar sobre isso.

A transição da carreira de ator para diretor, deixando a primeira função de lado, ocorreu de forma natural, e teve a ver com a Cia. Atores de Laura. Daniel começou a dar aulas muito cedo e logo percebeu a necessidade de integrar uma companhia para aprofundar a pesquisa artística e diminuir uma angústia pessoal. “Nessa carreira tão instável, tão dura, você cria laços e logo depois, quando acaba a peça, você fica sozinho”, observa. “Sempre tive a convicção de que o ambiente da companhia era a única possibilidade de aplacar essa angústia”. Com a fundação do grupo, ele acabou se firmando como diretor precoce. Sua biografia aponta a estreia como ator em 1984 e a primeira direção já oito anos depois. “Eu sou o cara que pensa no projeto, sobre o que quero falar, como quero dizer. Nesse sentido, sou menos ator, porque sempre tenho um monte de ideias e 40 projetos para montar”. Escolher o que e como vai fazer se tornou uma necessidade artística.

Em registro raro como ator, na minissérie "O Sorrido do Lagarto", com Carlos Augusto Strazzer, em 1991 (Foto: Memória Globo)

Em registro raro como ator, na minissérie “O Sorrido do Lagarto”, com Carlos Augusto Strazzer, em 1991 (Foto: Memória Globo)

– Também é um olhar sobre onde o teatro tem sua força, que é um olhar distorcido sobre a vida. O teatro não é um lugar, como a televisão, de tentar reproduzir a vida como ela é. É fazer o olhar da distorção, o que já traz uma teatralidade para a cena, que é muito instigante e sempre me fascinou. Então eu acho que é bem natural essa minha transição. O que me faria voltar à atuação seria essa sensação de dinâmica da vida. Acho que vai ser um momento de alegria eu me permitir atuar. Eu só posso dirigir enquanto for uma experiência alegre e potente, e tem sido. O dia que eu sentir que terei essa alegria e potência como ator e não tanto como diretor, vou atuar. Esse é o lado bom de ficar mais velho: a gente pode criar um pouco nossa carreira.

A criação, ou melhor, construção dessa carreira tem ainda um trunfo para 2016, que ainda não pode ser revelado. Sobre o ano que vem, aliás, Daniel Herz está preocupado por todo o teatro carioca. A crise econômica, ele acredita, será sentida mais acentuada após a virada do ano.

– Vai ser difícil pra caramba. Esse ano, por exemplo, não teve edital da Eletrobas e várias coisas foram caindo, e só vamos sentir ano que vem, porque este ano estamos realizando as coisas que foram dadas ano passado. Eu ainda não tenho como mensurar o que vai acontecer ano que vem, mas acho que vai ser muito estranho, porque está tudo cortado, as pessoas não tem dinheiro, os teatros estão todos com buracos de pauta, vai piorar no ano que vem. Temos que torcer para reverter isso em alguma hora. Pensando especificamente para a nossa área, se o país está em crise, você não só não consegue produzir como não consegue ter público para assistir. Os teatros todos estão mais vazios nas últimas três semanas, por exemplo. Isso tudo é consequência dessa retração. As pessoas estão acuadas, do ponto de vista econômico. Eu acho que 2016 é um ano que vamos sofrer um pouco. Espero que esteja errado.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

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O PENA CARIOCA: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 70 (qui e sex) e R$ 80 (sáb e dom). 90 min. Clasificação: 12 anos. Até 20 de dezembro. Teatro do Leblon – Sala Marília Pêra – Rua Conde Bernadotte, 26 – Leblon. Tel: 2529-7700.

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