De Bibi a Brecht: o político no teatro musical – Teatro em Cena
Luiz Buarque

De Bibi a Brecht: o político no teatro musical

Acabei de voltar da minha segunda visita à “Bibi – Uma Vida em Musical”, brilhante comédia musical brasileira que com um talentoso elenco, performance memorável da protagonista Amanda Acosta, números musicais divertidos e texto bem estruturado dá uma boa dose de esperança ao futuro do formato no país.

A peça também traz à tona uma questão a ser discutida, ao focar seu segundo ato na transição de Bibi Ferreira dos “musicais americanos engraçadinhos” para projetos mais engajados (como “Brasileiro Profissão Esperança” e “Gota d’água”), colocando em cheque a possibilidade do musical da Broadway como veículo de contestação política.

Essa é uma das principais críticas enfrentadas pelo musical desde que voltou a se estabelecer em nossos teatros e é importante que seja discutida: a percepção do político no musical americano ganha novos contornos quando consideramos a relação do Brasil com esse formato artístico e afeta a maneira como criamos nossos próprios projetos.

Palanque no Palco

A discussão costuma começar nos musicais abertamente engajados: os frutos da parceria dos alemães Kurt Weill e Bertolt Brecht, melhor representada por The Threepenny Opera (1928), que inspirou o americano Marc Blitzstein e seu The Cradle Will Rock (1937) ou sátiras políticas como Of Thee I Sing (1931) dos irmãos Gershwin. Todos marcados pelo cenário político-econômico que assolou o mundo nas décadas que precederam a Segunda Guerra Mundial. Outros períodos conturbados continuaram a gerar obras com agenda política acentuada, como Cabaret (1966), Hair (1968) e Urinetown (2001).

Uma outra corrente, com teor mais “documental”, ajudou a estabelecer o musical como fonte de comentário histórico: Call Me Madam (1950) é uma cômica crônica da política externa americana dos anos cinquenta, Camelot (1960) ficou pra sempre associado à esperança interrompida da era Kennedy e Fiorello! (1959) aborda a administração de um dos mais famosos prefeitos de Nova York com todo o charme e sagacidade da comédia musical.

O musical sobre o prefeito Fiorello H. La Guardia levou um Pulitzer por sua abordagem inspirada de temas políticos – (Foto: Sarah Krulwich/ New York Times)

E vemos que não se trata só de conteúdo, já que a maioria desses musicais contribuiu com inovações formais e estéticas na busca pela melhor maneira de levantar suas bandeiras no palco. Kurt Weill, por exemplo, era tão vanguardista na forma de seus projetos quanto em seus temas, indo da opereta ao que mais tarde chamaríamos de “musical conceito” para fazer suas críticas. Fica claro então que o político no musical americano não só é possível, como tem presença efetiva.

Por outro lado, espetáculos mais “contundentes” têm dificuldades de sobreviver ao lado business do musical americano e quando “vingam” são tão característicos de uma cultura nacional que desencorajam montagens no exterior. Logo, não é estranho que a grande maioria dos exemplares que o Brasil recebeu a partir do “boom” atual seja cria de um outro momento, que tinha como principal objetivo tornar o musical um produto de exportação global.

A Invasão Britânica

No final dos anos setenta, os ventos mudaram e a Inglaterra aproveitou uma fase de “vacas magras” na Broadway para aperfeiçoar um novo tipo de musical, que lançou ao mundo numa série de réplicas exatas das encenações originais. Para cumprir essa missão conquistadora seus criadores buscaram uma linguagem “universal”, optando por melodias grandiosas e ininterruptas, letras simplificadas e cenários hi-tech no lugar de textos aprofundados e personagens muito específicos.

Essa empreitada altamente lucrativa foi muito bem vinda mediante os custos de produção cada vez mais altos, mas ao se tornar a “cara” do musical no resto do globo acabou abafando outras vertentes criativas (principalmente as mais contestadoras). E apesar da era do megamusical britânico ter passado, ainda é a ideologia de shows como Cats e Les Misérables que serve como balança para analisar o formato aqui no Brasil.

“The Phantom of the Opera” é outro forte expoente dos megamusicais ingleses e acabou de completar trinta anos em cartaz em Nova York (Foto: Playbill)

Então, quando o personagem do dramaturgo Paulo Pontes declara no segundo ato de “Bibi” que os americanos nem perceberam o “potencial político” de The Man of La Mancha, não deixa de estar dando vazão a uma percepção que ainda domina nossas aulas, seminários e até conversas de bar sobre o tema. Mas optar por essa abordagem é tomar a parte pelo todo, seria a mesma coisa que pensar o teatro de revista brasileiro pelos critérios do musical engajado dos anos da Ditadura.

O que se mostra bastante infrutífero, pois o musical rejeita todo tipo de rótulo, “caixinha” ou afirmação muito categórica: é uma ciência mais do que inexata, suscetível às transformações culturais e cujas contradições ideológicas e formais (em sua união de várias linguagens) garantem seu status de formato artístico capaz de andar com as próprias pernas.

São Brecht: Patrono dos Musicais Indefesos

Ponto crucial do nosso debate, já que buscar uma “veia política” não pode ser uma tentativa de validação externa. São valiosas as associações do musical com as ideias de Brecht, por exemplo, mas muitas vezes (e especialmente no meio acadêmico) ele é encarado como uma espécie de “patrono” do formato, aquele capaz de dar o carimbo de “arte engajada” a um pobre camarada sempre às voltas com o estigma de mero entretenimento.

Mas mesmo estando aberto ao diálogo com outras linhas teatrais, o musical não está esperando um salvador. Sua longa trajetória gerou méritos e vícios suficientes para que seja analisado e construído segundo parâmetros próprios: Mãe Coragem e Um Violinista no Telhado têm semelhanças, mas são antes de tudo representantes notáveis dos formatos específicos para os quais foram criados.

Então, se “O Homem de La Mancha” que teve Bibi como Dulcinéia foi bem sucedido ressaltando o político da obra, apenas fica provado que um material sólido recebe de braços abertos novas interpretações. E acredito que seja esse um bom objetivo para o nosso produto nacional: criar textos e partituras de qualidade que funcionem como espelho crítico do país, mas não só isso. Abandonar o reducionismo, generalizações e a divisão “nós/eles” para conferir uma relevância ao musical brasileiro capaz de ultrapassar limites temporais e geográficos.

Afinal, no fantástico LP da primeira montagem brasileira de Hello, Dolly!, Bibi Ferreira termina uma divertida ode ao patriotismo americano com um sonoro “abaixo a Ditadura e viva a liberdade!”: a inserção bem brasileira conversando perfeitamente com a irreverência levemente anárquica do material original.

Porque no Brasil ou em Nova York, na revista ou no musical engajado, o formato já comprovou sua capacidade de subverter mesmo dentro do contexto capitalista no qual surgiu. E “Bibi – Uma Vida em Musical” não foge à regra, indo além da categoria de “homenagem” para dar continuidade ao trabalho de sua musa: ajudando a estabelecer o musical no país como uma arte viva, presente e sempre em movimento.

Luiz Buarque é dramaturgo e diretor, escreve musicais e fica feliz com qualquer coisa envolvendo Hammerstein e/ou Sondheim. Também pode ser encontrado em https://leituradramatizada.wordpress.com

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