Entrevista

Diretor analisa sucesso de The Book of Mormon e adianta futuro da peça após Cidade das Artes

Não há quem não tenha ouvido falar da montagem de “The Book of Mormon” da UNIRIO. Parte do projeto de pesquisa sobre teatro musicado do professor Rubens Lima Jr., a peça se tornou um fenômeno carioca, com horas de filas, pessoas disputando senhas e muitas voltando para casa sem conseguir assistir. O espetáculo fez temporadas na Sala Paschoal Carlos Magno (na própria UNIRIO), que acomoda 100 pessoas, e no Teatro Odylo Costa, filho (da UERJ), onde viu a plateia crescer para 1.106 espectadores por sessão. No sábado (24/5), vai iniciar uma série de seis apresentações na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, pela primeira vez fora de uma universidade. A chamada Grande Sala tem 1222 lugares. O esquema para preenchê-los será o mesmo: distribuição de senhas uma hora antes da sessão. Por ser um projeto acadêmico e uma montagem amadora, é proibida a venda de ingressos. São muitos lugares, sim, mas a recomendação é para chegar cedo.

Leo Bahia e Hugo Keith são missionários mórmons na África na trama. (Foto: Reprodução / Alexandre Farias - Black Flash)

Leo Bahia e Hugo Keith são missionários mórmons na África na trama. (Foto: Reprodução / Alexandre Farias – Black Flash)

Em entrevista telefônica ao Teatro em Cena, o diretor Rubens Lima Jr. comemora o sucesso do espetáculo. “Não imaginava essa longevidade. A gente faz esse projeto há muitos anos e sempre teve uma repercussão boa na classe teatral. Mas agora a imprensa descobriu. As matérias na mídia geraram mais curiosidade no público”, comenta o professor, que já organizou montagens de “Cambaio”, com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, e “Spamalot”, do grupo Monty Python. Mas foi “The Book of Mormon”, adaptação do musical da Broadway dos mesmos criadores de “South Park” (Trey Parker, Robert Lopez, Matt Stone), que virou todas as atenções para ele. Agora, sente a pressão para repetir o sucesso na Cidade das Artes. “A gente está ficando gente grande”, brinca. “Estamos tentando fazer uma divulgação bem grande, chamando estudantes do entorno da Barra da Tijuca, para ver se lota aquele teatro, porque lá é imenso”.

Na verdade, a diferença é só de 116 lugares para o teatro da UERJ – onde o frisson e o burburinho permaneceram, com lotação máxima. A Cidade das Artes, aliás, dificilmente será a última parada da peça. Há convites para um festival universitário no Espaço Tom Jobim e para apresentações na rede de teatros do Sesc, no Teatro do Jockey e no Teatro Ipanema depois da Copa do Mundo. Até para o Teatro Tuca, em São Paulo, há propostas. Todas são analisadas basicamente sob dois critérios: estrutura que comporte a produção e condições de mobilidade, pois a equipe conta com 50 pessoas, entre elenco, banda e técnicos – todos estudantes universitários. Para a Cidade das Artes, conseguiram um ônibus para transporte da equipe e um caminhão para a parafernália. “A gente não pode receber cachê, pois é um trabalho acadêmico. Mas se esse dinheiro for revertido para aluguel de ônibus, de luz, algo assim, pode. A gente tenta viabilizar os convites, mas os locais têm que oferecer as condições para irmos. Não temos produtor”, explica Lima Jr. Na Cidade das Artes, a fundação ofereceu a iluminação e, além disso, a banda fará sua estreia no fosso da orquestra. Nos outros teatros, não havia isso.

Rubens Lima Jr., diretor do espetáculo. (Foto: Reprodução / Facebook)

Rubens Lima Jr., diretor do espetáculo. (Foto: Reprodução / Facebook)

Muita gente não entende por que “The Book of Mormon” não pode arrecadar com bilheteria. Mas é isso mesmo: apesar do sucesso, o saldo é zero – e tem que ser assim. Trata-se de uma montagem amadora, sem aquisição dos direitos da peça. Só é permitida por ser acadêmica, justamente sem lucratividade. “O pessoal de Nova York tem noção que a gente está montando, mas sabe que é amadoramente. Não estão vendendo os direitos para ninguém no mundo”, conta o diretor. O motivo é uma comentada adaptação da história para o cinema, o que só permitirá que montagens internacionais iniciem suas produções entre 2016 e 2017. “Não temos nem como sonhar com isso agora. O professor Carlos Alberto Serpa, da Fundação Cesgranrio, se interessou em comprar e é o primeiro brasileiro da fila dos interessados. Por enquanto, temos que fazer esse trabalho amador mesmo”.

Só que reconhecimento também é uma forma de retorno. Além de colocar o diretor em destaque, a peça popularizou os nomes dos atores Hugo Kerth e Leo Bahia (de “Vida, o Musical”) e arrancou elogios de ícones como Charles Möeller (de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”) e Bárbara Heliodora. A famosa crítica, na verdade, tem responsabilidade neste fenômeno. Ex-professora da UNIRIO, assistiu à peça no campus e gostou tanto que escreveu uma crítica para O Globo. Foi quando estourou o boom. “No dia, a levei até o carro e ela me elogiou demais. Falou baixinho: ‘é o melhor musical em cartaz’. Três ou quatro dias depois, me ligaram para falar da crítica, mas duvidei que ia sair”, lembra o professor. “As pessoas ficaram curiosas: ‘Que peça é essa que tem uma página inteira no Globo com crítica da Bárbara Heliodora?’”.

(Foto: Reprodução / Clarissa Ribeiro)

(Foto: Reprodução / Clarissa Ribeiro)

A peça é essa. Premiada em Nova York com nove Tony Awards, “The Book of Mormon” conta a história de dois missionários mórmons em viagem de evangelização pela África. Apesar do pano de fundo religioso, a trama aposta na comicidade. A escolha do Rubens Lima Jr. foi acertada, e ele admite que o projeto não tem previsão para terminar. Por isso, não sabe qual será o próximo passo na sua pesquisa. “’Mormon’ se estendeu mais do que esperávamos. A princípio teria ‘Jovem Frankenstein’, mas não sei se vou montar. A gente está com algumas coisas para serem vistas”. O público ainda quer “The Book of Mormon”.

*As sessões na Cidade das Artes (Avenida das Américas, nº 5300) ocorrerão nos dias 24 às 21h; 25 às 19h; 28 às 21h; 29 às 21h; 30 às 21h30 e 31 às 21h.

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