.Plantão

Teatro na cozinha? Entenda!

Diretor fala sobre montar e apresentar espetáculo em uma cozinha de verdade

(Foto: Zé Coqueiro)

Você só recebe o endereço para assistir ao espetáculo após fazer a reserva por e-mail ou por telefone. Instigante, não? Mas tem mais: a encenação se dá inteiramente em uma cozinha. Não o cenário de uma cozinha, mas uma cozinha de verdade. São só 17 espectadores por sessão, o que dá um ar de intimidade mas também de exclusividade. Essa é a proposta de “A Cozinha”, peça do ator Felipe Haiut (de “Vende-se uma Geladeira Azul”), dirigida por Gunnar Borges (de “Santa”), com apresentações em um local chamado Cazebre, no Humaitá, até o dia 11 de dezembro.

– Queríamos que o projeto acontecesse independente de pautas de teatro e editais. O contexto cultural da cidade do Rio de Janeiro está bem caótico e as produções que ocupam as grandes pautas não estavam nos interessando. Resolvemos apostar em algo pequeno, fora da caixa cênica, que nos permitisse experimentar outros modos de fazer e pensar teatro. – Gunnar diz ao Teatro em Cena – A relação com o público é bem próxima e íntima, todos os detalhes são possíveis de serem vistos. Os espectadores estão quase ou totalmente dentro da cena. Construí a relação cena e público a partir de duas imaginações: uma plateia de cinema assistindo a um filme dentro da própria locação e uma visitante de museu sendo tragada para dentro do quadro que ela observa. Essas proposições direcionaram o trabalho sobre a mímese cotidiana da vida e a ficção, a fim de construir cenas de teatro com a qualificação do gesto cinematográfico e da presença performativa.

(Foto: Zé Coqueiro)

Inspirada em uma experiência real, “A Cozinha” conta a história de dois casais que se encontram para jantar amigavelmente, mas têm a noite sacudida pela revelação de um segredo, que traz à tona preconceitos e desejos reprimidos. Desde o início, a ideia era montar a peça como um site-specific, ou seja, um espetáculo criado especificamente para uma locação, de acordo com as condições próprias de sua arquitetura, temperatura, luz, enfim. Era a primeira vez que Gunnar dirigia algo nesse formato e teve que se confrontar com uma série de novos desafios, entre eles, o evidente fato de não contar com o aparato que um teatro oferece.

– Mas é um desafio estimulante, uma vez que você não tem um grande suporte para criar um grande evento, ou um efeito cênico, você precisa achar outras formas de concretizar as ideias. E, quase sempre, elas resultam em algo menos previsível, menos fácil. Não se trata de adaptar uma cena para um espaço não convencional, mas, sim, criar sobre ele a partir das condições que ele oferece. Isto me parece suscitar soluções mais vivas e vibrantes para a peça e, consequentemente, para quem vê. – comenta o diretor.

(Foto: Zé Coqueiro)

Segundo ele, o processo criativo durou dois meses e meio de ensaios. Sua meta era ser fiel à história, sem que a direção sobrepusesse ao acontecimento da própria narrativa, e deixar a novidade surgir pela ambientação na cozinha. “Isso era o suficiente para propor uma experiência fora das convenções da caixa cênica”. Antes de irem para o Cazebre, os quatro atores do elenco – Catharina Caiado (de “Vem, Meteoro!”), Julia Stockler (de “Branca”), Saulo Arcoverde (de “TãoTão”) e o próprio autor – passaram por uma etapa de improvisos na sala de suas casas, com intuito de gerar outra forma de pensar o ensaio, o corpo e a presença dos atores.

– A minha busca neste momento era que os atores estivessem implicados nos conflitos que a história os convocavam. A cada vez que eles experienciavam com muito pathos as palavras e o jogo cênico proposto por mim, sentia confiança que a história poderia acontecer em qualquer lugar e circunstância. – lembra o diretor – Montar a peça numa locação implica que a arquitetura, mais especificamente o local onde se passa a peça, não serve de apoio, fundo ou paisagem para a cena. O local é mais um agente para contar a história, ele não está em plano de subserviência ou suporte para o jogo cênico, pelo contrário, ele é um fator determinante e fundamental para a ação artística. O cenário pode querer remeter ao espectador um local fabular, um ambiente irreal, pode criar metáforas sobre o palco. O trabalho sobre site-specific, no caso desta peça, opera com o espaço no plano imanente, cru. O site-specific atua por mostrar exatamente como o espaço é, sem artificialidades.

_____
SERVIÇO: dom e seg, 20h. Preço: colaboração consciente. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 11 de dezembro. Cazebre – Humaitá. Para reservar ingressos e receber o endereço das apresentações, basta entrar em contato com a produção pelo e-mail para vouacozinha@gmail.com ou pelo telefone (21) 96923-1600.

Comentários

comments