CríticaOpinião

Dois atores interpretam antes e depois de transex em Sexo Neutro

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Márcia e Cleber são o antes e o depois de uma mesma pessoa – duas identidades de um mesmo corpo em tempos diferentes da história – mas interligados por uma única alma, feminina, masculina, neutra, híbrida, humana. Lado a lado, eles costuram a própria trajetória. Essa é uma sinopse pessoal do espetáculo “Sexo Neutro”, escrito e dirigido por João Cícero (de “Menininha”) de maneira impactante, inteligente e bem estruturada. É uma brisa de ar fresco sobre o tema das pessoas trans, algo ainda discutido muito superficialmente e brevemente em nossa sociedade, estagnada em questões referentes ao estágio “homo” do debate.

(Foto: Flor Brazil)

(Foto: Flor Brazil)

O que diferencia um travesti de um transexual? O que identifica um transgênero? E um gênero? Transex é quem recorre à mudança de sexo? Antes da operação, essa pessoa é o quê, então? Isso é uma doença? Uma opção? Antes da sessão começar, o espectador pode achar que o espetáculo ajudará a responder essas questões. Mas não se trata de uma peça didática, até porque ela conta a história de um único personagem, sem generalizações. Felizmente, antes de entrar na sala do teatro, todos são recebidos pela exibição de um minidocumentário (“Sexo Neutro .Doc”), com pessoas trans contando suas histórias de autoidentificação, preconceito e tabus. É um filme que serve de “esquenta”, pré-encenação, e colabora para que o espectador não se sente tão cru para ver o espetáculo. É um bom anfitrião.

A encenação em si é muito subversiva. São apenas dois atores em cena – Cristina Flores (de “As Horas Entre Nós”) e Marcelo Olinto (de “Conselho de Classe”) – o que pode indicar uma síntese rasa e simplificada da dicotomia mulher/homem. De fato, ela interpreta Márcia, a trans antes da operação, e ele vive Cleber, o trans após a cirurgia. Mas os dois estão em cena o tempo todo, em um formato que perambula entre o monólogo e o diálogo, contando para a plateia a história dessa pessoa, que no fim das contas é uma só. Com auxílio de pouquíssimos elementos cênicos, mas com uma iluminação brilhante que dá o tom da peça (de Tomás Ribas), os dois atores dão um show de atuação, em uma licença poética que coloca o antes x depois juntos, porque o foco é justamente o durante: os medos, as inquietações, as dores, as surpresas, os hábitos. É como se a plateia tivesse acesso à cabeça desse ser confuso com suas próprias escolhas e situações. Márcia, antes de se identificar como homem e fazer a cirurgia, foi casada e teve um filho, que morreu. Após a operação, ela, agora ele, continuou morando com o marido, Claudio, que ainda a/o ama. Márcia virou um homem homossexual? É um dos pontos que a dramaturgia explora.

(Foto: Flor Brazil)

(Foto: Flor Brazil)

Como a mudança física é uma grande questão para o trans, mesmo que não opte pela cirurgia, Cristina e Marcelo aparecem muito expostos em cena. A atriz já abre o espetáculo com os seios de fora, e passa grande parte da encenação assim, mas não há nada de sensual ou sexual ali: são seios que ela não gosta de ter. Marcelo, sem camisa, por vezes mostra os pelos pubianos, como se o personagem tivesse orgulho de ter deixado as mamas para trás e ter ganhado um falo. É interessante a escolha da direção, que entrega de uma vez a parte mais simples do tema, a visual, para permitir um mergulho profundo em todas as demais complicações, da alma. A opção pela nudez não é, de forma alguma, para chocar ou causar desconforto. A cena mais explícita é justamente uma nada visual – na qual os atores interpretam, quase que apenas pela voz, um episódio de pedofilia. O espectador é impactado e incomodado apenas pela audição. Como o próprio personagem diz, o abuso sexual não foi um escândalo na família, porque não foi exposto. A escolha pela mudança de gênero incomoda, porque é algo que está na cara, escancarado, exposto para quem quiser ver. É algo a se pensar. “Sexo Neutro” não deixa você sair do teatro da mesma maneira que entrou.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 10. 70 min. Classificação: 18 anos. Até 2 de agosto. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro III – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2000.

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