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Domingos Oliveira para público teen: esse é Conto de Verão

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Maria Mariana entrou para a história do teatro brasileiro com o espetáculo “Confissões de Adolescente”, estreado há mais de 20 anos no porão do Teatro Laura Alvim, em Ipanema. A peça, baseada em seu diário pessoal, preencheu uma lacuna que muitos pareciam não enxergar: que existe o público adolescente entre o infantil e o adulto. Nas últimas décadas, várias peças pegaram carona nesse bonde, quase todas inspiradas por “Confissões”, que virou livro, série de TV, filme e ícone de adoração. Nesse grupo de espetáculos teen, destaca-se “Conto de Verão”, que não é nada menos que uma criação do pai de Maria Mariana – o aclamado Domingos Oliveira.

(Foto: Cynthia Silveira)

(Foto: Cynthia Silveira)

A dramaturgia é muito simples e eficiente: dois garotos vão passar as férias do verão de 1996 na serra e descobrem duas garotas na mesma condição na casa ao lado. Não há muito para se fazer por lá e, com os hormônios a flor da pele, não demora muito para começar o clima de azaração. O nerd inexperiente Angelo (Felipe Simas, de “O Corcunda de Notre Dame”) passa a sair com a moderninha Bárbara (Ana Vitória Bastos, de “Beijos, Escolhas e Bolhas de Sabão”), que diz já ter ficado com muitos caras; e o descolado e metido a garanhão Narciso (João Vithor Oliveira, da novela “Boogie Oogie”)) se envolve com a romântica e recatada Clara (Julia Oristanio, da novela “Boogie Oogie”). O texto é atemporal por tratar de temas como primeiro amor, primeira vez, dilemas profissionais, amizade e traição, que são questões que perpassam gerações. A ausência de artifícios tecnológicos como celular e Internet é justificada pela data da história. Em vez de mensagens no Whatsapp ou no Facebook, a romântica escreve uma carta de amor, e isso não compromete a comunicação com a plateia – tão online.

A montagem da diretora Bia Oliveira (de “Sexo Grátis, Amor a Combinar”) está em cartaz no Teatro Miguel Falabella, onde, há exatos dez anos, ocorreu a temporada da montagem de Eduardo Wotzik (de “Emily”), com o título “Beijos de Verão”. As comparações, então, são inevitáveis. Cenários, figurinos e iluminação de 2005 eram mais teatrais e elaborados que os de 2015. A montagem de Wotzik tinha uma direção de movimento formidável com duas escadas, e a cena de sexo acontecia nela, com a subida de cada degrau representando a proximidade do orgasmo. Desta vez, a mesma cena acontece na escuridão de um blackout, que é uma saída eficaz, mas menos criativa. A montagem atual preza por uma encenação mais “realista”, pode-se dizer assim. A trilha sonora é boa, e o elenco é equilibrado, só poderia falar mais alto, porque não tem microfones e a sala é de médio porte. Destaques são Felipe Simas, com um papel completamente diferente de “Malhação”, e Ana Vitoria Bastos, que tem momentos muito bons, embora Fernanda Souza (de “Meu Passado Não Me Condena”), no mesmo papel, fosse imbatível na década passada.

(Fotos Cynthia Silveira)

(Fotos Cynthia Silveira)

O espetáculo peca pelo ritmo. Se o verão é de 1996, a encenação é de 2015, e mais velocidade seria bem vinda. O texto já é bastante longo para o jovens de hoje em dia, e há alguns momentos arrastados. No caso do público adolescente, isso pode ser um convite à distração e desatenção. O release aponta 75 minutos de duração, o que é razoável, mas a peça parece durar mais tempo. De qualquer forma, é Domingos Oliveira, e Domingos para pessoas em formação, o que é uma maravilha de estar em cartaz de novo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sex, 21h; dom, 20h. R$ 60. 75 min. Classificação: 14 anos. De 5 de março até 29 de março. Teatro Miguel Falabella – Norte Shopping – Av. Dom Helder Câmara, 5.332 – Caxambi. Tel: 2592-8245.

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