E não é que esse dia chegou… – Por Kacau Gomes – Teatro em Cena
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E não é que esse dia chegou… – Por Kacau Gomes

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(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Venho de uma família pequena: pai, mãe e dois irmãos. Não tive avós. Em compensação, formei uma família enorme de agregados – os vizinhos do condomínio onde morava! Sou insulana sim, da Ilha do Governador!! E foi nessa ilha, que não era a da fantasia, que comecei a desenvolver a minha veia artística. Sempre, em todos os momentos festivos do condomínio, lá estava eu à frente de tudo, claro!

Desde pequena nunca tive dúvidas de que seria artista. Na escola, sentava lá no fundão e tocava o maior terror! Já no recreio, era certa a cantoria pelos pátios interpretando, especialmente, Marisa Monte. E não é que o sonho virou realidade? Por quatro anos eu tive a honra de viajar o Brasil e o mundo ao lado dessa diva! Depois do trabalho com ela, cantei e viajei com inúmeros cantores como Ivete Sangalo (três anos), Carlinhos Brown, Ed Motta, Marcelo D2, Fernanda Abreu, Claudia Leitte, e por aí vai… E tudo isso só serviu para aumentar ainda mais o meu amor pela música.

Como cantora, fiz carreira solo com o nome “Claudja”, pela Spotlight Records, e estourei em todas as rádios com meu single com eles, com título “Brand New Day”! Foi meu primeiro hit! Em 1999, assinei com a EMI, e adotei definitivamente o nome de Kacau Gomes. Com eles, lancei um novo sucesso, chamado “Diga”, música de minha autoria, que foi tema de “Malhação”, novela da TV Globo.

Porém, como nem tudo são flores, tive, também, que lidar muito cedo com as frustrações da nossa carreira e tive de perceber que nem tudo acontece no tempo em que você quer, mas no tempo que tem de ser. E tive de aceitar todas as mudanças que a vida foi me apresentando. Graças a Deus, foram mudanças boas.

Um primeiro novo rumo, que também aconteceu muito por acaso, foi a minha história com a dublagem. Na época, eu fazia uma peça infantil, onde um dos atores era “por acaso” (para aqueles que acreditam no acaso), o diretor da Disney. Daí surgiu o convite para fazer uma audição para o personagem da Esmeralda, no filme “O Corcunda de Notre Dame”, mas minha voz era muito jovem para o papel e eu não passei. Felizmente, logo depois, pintaram outros trabalhos que me dão muito orgulho: “Mulan”, “Hércules”, “O Rei Leão”, “A Dama e o Vagabundo” e a encantadora “Tiana”. Eu fui muito feliz emprestando a minha voz para esses trabalhos.

Acredito, de verdade, que nesse nosso ofício (e talvez em qualquer outro ofício) temos que ter um conjunto de coisas: uma pitada de sorte, estar na hora certa, no lugar certo, com as pessoas certas, talento e, por fim, o famoso pó de pirlimpimpim nos dias de audições (estar na vibe que a banca está buscando e mostrar que você é aquela personagem que eles estão buscando)!! Audições?? Eu falei audições?? Sim!!! Na minha carreira, nada caiu do céu. Sempre tive que audicionar e ir em busca de tudo que conquistei! Estudo muito, me dedico e vou continuar fazendo isso sempre. Não é fácil e, agora sendo mãe, tenho que me equilibrar entre esse mundo de sonhos e realidade e ir em busca dos meus sonhos, mas sempre com os pés fincados no chão!

Falando da maternidade, foi maravilhoso experimentar a gravidez no palco. Tive a sorte de poder nesse momento da minha vida, tão único e especial, fazer o que mais gosto: estar no palco e, melhor ainda, cantando Beatles.

Depois que o meu filho nasceu, recebi um telefonema do Tadeu Aguiar me convidando para fazer o musical “Ou Tudo Ou Nada”. Foi maravilhoso conseguir conciliar tudo, entre estadias de hotel, coxia e muitas pontes aéreas com o meu filho. Uma experiência incrível! E eu precisei me dedicar muito para que tudo desse certo.

Pelos camarins de “Ou Tudo Ou Nada”, ouvi um papo de “Love Story”. Pesquisei e logo de cara fiquei apaixonada pelo projeto. Porém, soube que o papel era para uma personagem jovem. Este, de cara, já era o meu primeiro obstáculo: tinha que convencer o Tadeu de que seria capaz de fazer essa jovem. Em seguida, veio a notícia de que ele gostaria muito de montar um elenco apenas com negros! Mais uma vez eu havia sido colocada em xeque. Pois essa dúvida sempre me acompanhou em todos os trabalhos. Afinal, o que eu sou? Filha de mãe mulata com pai branco. Eu poderia ter nascido negra ou branca, mas nasci no meio do caminho e nunca soube muito bem como preencher os formulários com essa questão. Costumo brincar e dizer que sou Afro bege! Que tal? Brincadeiras à parte, sei que este é um assunto sério. Porém, não gosto de levar tanto peso para essa questão! Enfim, não é que o meu dia chegou? A minha primeira protagonista: JENNIFER CAVILLERI. Deu tudo certo. Fui lá, audicionei como todos os outros e consegui provar que seria capaz – não apenas para a banca julgadora, mas, também, para mim mesma!

Dúvidas, todos nós temos. E não é sempre que o resultado chega rápido. Escrevendo aqui pra vocês, me dei conta de que, em 25 anos de carreira, eu já fiz 23 musicais e somente agora fui protagonista! Então, minha conclusão é aquele velho ditado: a gente sempre colhe o que planta. Não deixem de plantar e de acreditar. Nossa profissão é de muitos “nãos”. Mas, volta e meia, escutamos alguns “sins”!!!

Para mim, o mais curioso dessa história toda, como protagonista, é ouvir os comentários das pessoas. Volta e meia escuto “nossa, não sabia que você era atriz e das boas”, ou “Kacau, como você está cantando diferente e sem beltar” e mais, “por que só agora que você está mais atriz?”. Vejo com certo humor, mas vamos lá: primeiramente, só agora tive a oportunidade de mostrar que sou capaz de segurar um papel mais denso e importante dentro do enredo (tudo são oportunidades e quando elas aparecem temos que agarrá-las com unhas e dentes) depois, como vou beltar, se a partitura não me permite utilizar dessa técnica? Não consigo imaginar minha personagem morrendo e eu beltando. Afinal… estou morrendo! rs

Comentários e brincadeiras à parte, de fato, Jennifer Cavilleri foi um presente na minha vida. É muito gratificante olhar pra trás e ver que tudo que eu fiz valeu a pena e foi importante para eu estar plena, fortalecida e madura nesse momento tão especial. Só tenho a agradecer ao meu marido, companheiro eterno dos palcos e da vida, que está sempre ao meu lado e, claro, a minha estrela maior, que me fez estar viva e preparada para este desafio: o meu filho, que eu amo. Que venham as próximas protagonistas da minha vida!!

Kacau Gomes é cantora, atriz e dubladora.

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