Papo de Artista

E se fosse o teatro nossa paixão nacional? – Por Jorge Ritchie


(Foto: Andrea Rocha)

Acontece várias vezes comigo. Eu saio de casa para ir à padaria, por exemplo, e ao passar diante de um botequim ou de um ponto de bicho, lá estão eles num burburinho só. Se estou em um cinema esperando para assistir uma sessão, ou ainda no metrô a caminho de um trabalho, calha de eu topar com um grupo dessas criaturas: os aficionados torcedores de futebol. Testemunhar duas ou mais pessoas travando um papo sobre seus times é algo corriqueiro para todos nós, afinal vivemos no país da bola rolando; pois foi exatamente ao presenciar, por acaso, uma alheia e entusiasmada discussão sobre futebol que me veio ao coração uma ideia, um desejo utópico.

Discussões futebolísticas são super comuns, e quem aprecia muito esse esporte provavelmente também já participou de um bate-boca sobre times, campeonatos, partidas e jogadores. Lógico que quando as discussões passam de acaloradas, descambando para agressões é algo temerário, coisa que definitivamente deve ser combatida. Às vezes, a bravata se dá no campo da zoação, da galhofa sem intenções de ferir o torcedor adversário – isso é legal –, mas, por vezes, certos doentes por seus clubes partem para um ataque descontrolado. Lamentável. O que os move, os inofensivos zombeteiros e os fanáticos perigosos, é a paixão, o amor pelo seu time.

Pois foi aí, a partir da percepção de que todos esses comportamentos se originam do “amor”, que viajei na minha utopia: já pensou se os brasileiros fossem fissurados por teatro como são por futebol? Imaginem as consequências para uma nação cujo maior entretenimento fosse assistir encenações de textos de Tchekhov, Brecht, Ibsen, Beckett, Plínio Marcos…! E os clássicos? Aí, sim, com propriedade encheríamos a boca e diríamos: “Vou ver um clássico!”. Já imaginou? O teatro na boca do povo! Nos bares, nas rodinhas discutiríamos as montagens teatrais, os textos inéditos, as concepções artísticas das peças, os cenários, a atuação do elenco… Elenco de verdade, porque “elenco” é coletivo de atores e não de jogador de futebol. Seria, a meu ver, uma maravilha se vivêssemos o Teatro Paixão Nacional.

Nessa minha ilusão, adultos e crianças vestiriam a camisa dos seus times, ou melhor, das suas companhias prediletas. Em vez de clubes, o que arrebataria multidões seriam os grupos de teatro. E o culto a esses grupos seria igual ao exercido hoje pelas torcidas; haveria as lojas vendendo camisas dos “Atores de Laura”, do “Satyros”, do “Ói nóis aqui traveiz”… “Ah, eu sou torcedor do Lume! Lá em casa, eu, minha esposa, todo mundo é Lume!”. “Pois eu sou Grupo Galpão roxo! Não perco uma peça do Galpão!”. E as provocações continuariam. “Ah esse teu grupeco é fraco demais, o meu Oficina não, o Cina é foda, nunca desceu de divisão! Ciiiinaaa! Ciiiinaaa!”. Sim, certamente existiriam as séries A, B, C, tudo nos moldes mesmo do futebol.

Os campeonatos seriam os festivais, onde dezenas de companhias se “enfrentariam” num circuito de apresentações e daí, após a contagem de pontos adquiridos através de júri e de votos de espectadores, teríamos um grupo ganhador – na verdade quem ganharia sempre seria o público que sairia dessas rodadas de disputa enriquecido de conhecimentos, sairia transformado. Já pensou? E em casa, em vez de discutir se foi escanteio ou tiro de meta, se discutiria sobre afetamentos shakespearianos, conceitos de Sartre, provocações de Nelson Rodrigues!

Os jogadores seriam os atores – aliás, teatro já é jogo, no inglês o verbo to play tanto pode se referir ao desempenho numa partida esportiva quanto ao ato de interpretar no palco, portanto jogar é um termo bem adequado. E grandes jogadores e jogadoras (não há divisão de categorias por gênero! Eba!) poderiam ser disputadíssimos pelas companhias… “Você viu, o Bando de Teatro Olodum contratou o Lázaro Ramos!” – a propósito, que jogador valoroso! Esse sim é cheio de dignidade e tem talento de sobra para ser o rei do futebol, digo, do Teatro Paixão Nacional. Os diretores equivaleriam-se aos técnicos, e também causariam rumores ao serem demitidos ou contratados: “O Aderbal Freire Filho caiu fora, quem vai tocar a companhia agora é o Amir Haddad”. É um sonho mesmo, mas se tem uma coisa que combina com artista é sonho!

Em se tratando de entretenimento, boa parte dos brasileiros consome futebol. Então, proponho/sonho que consuma também, mas principalmente, teatro. Em vez de partidas (num gramado) que mexem com o emocional, espetáculos (num palco) que mexam com o emocional, mas também com o pensamento, estimulando-o, favorecendo um olhar crítico, propiciando uma busca por respostas e compreensões de nossas realidades, de nosso entorno social. Em vez de partidas que nada acrescentam – nesse sentido de crescimento interior –, o envolver-se com obras densas, profundas, e também com peças leves, que provoquem o riso, mas que podem igualmente promover uma ampliação intelectual e uma libertação pessoal. Se as pessoas acorressem ao teatro como acorrem ao futebol, se esse país adotasse o teatro como “Paixão Nacional”, ele seria bem mais desenvolvido, rico de saber, menos injusto, mais agradável, mais humano, assombrosamente melhor.

Jorge Ritchie é ator e dramaturgo.

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