Entrevista

“É uma grande responsabilidade fazer teatro no Rio”, fala Ícaro Silva

(Foto: Flávio Pereira)

Ícaro Silva caracterizado como Sherlock Holmes (Foto: Flávio Pereira)

Foi na pele de Jair Rodrigues, em “Elis, a Musical”, que o ator Ícaro Silva foi visto pela última vez nos palcos cariocas. Nesta semana, ele retorna com um trabalho novo, encarnando outro personagem famoso – esse fictício: Sherlock Holmes. É o espetáculo “Baker Street 221b”, resultado de um trabalho acadêmico originado há dois anos. A temporada ocorrerá no Centro Cultural Justiça Federal, no Centro, de 8 de agosto a 14 de setembro, com sessões de sexta a domingo às 19h.

Entre “Elis, a Musical” e “Baker Street 221b”, há uma enorme distância, muito além dos seis meses entre o término e o início de uma e outra temporada. O musical tinha orçamento milionário e linguagem bastante televisiva (a direção era de Dennis Carvalho, famoso diretor de novelas). Já “Baker Street 221” trabalha com o chamado teatro físico, pouco conhecido no Brasil, e seu orçamento é bem mais humilde. São R$ 6.415 arrecadados via financiamento coletivo, com 49 apoiadores até o fechamento desta matéria. É como se Ícaro Silva tivesse ido de 8 a 80, ou de 80 a 8, como preferir. “Independentemente do tamanho da produção ou da plataforma usada, corro sempre para os personagens mais exploráveis, ricos, tortos. Preciso do novo e do incerto, porque é isso o que me move”, ele analisa, em entrevista ao Teatro em Cena. “O que mais me atrai no meu trabalho é a possibilidade de experimentar, inventar, descobrir. Sou do tipo que não faz bem quando não está apaixonado pelo projeto”.

A peça do Sherlock Holmes certamente é uma paixão. O espetáculo, escrito pelo Imaginário Coletivo, acompanha o detetive e seu ajudante Watson no desafio de capturar um serial killer e impedir que faça mais vítimas pelas ruas de Londres. O projeto existe desde 2012, quando foi apresentada a primeira montagem, de caráter universitário. “Tivemos pouco mais de um mês para finalizar a montagem e fizemos muito sucesso entre os espectadores da faculdade”. O grupo de alunos se apresentou na Mostra Estudantil do CCBB, recebeu dois prêmios, e decidiu dar continuidade ao projeto de maneira profissional. “O desafio agora passa muito mais pelo processo de produção do que de criação. Fazer teatro independente é sempre um processo complexo e muitas vezes árduo. É importante manter firme na cabeça o propósito do que se está apresentando: no nosso caso, um estudo sério, ainda que irreverente, da comédia física”.

Outros trabalhos marcantes de Ícaro Silva: "Elis, a Musical" no teatro (na foto, com Laila Garin) e "Malhação" na TV (na foto, com Fernanda Vasconcelos e Sérgio Hondjakoff) (Fotos: Divulgação Robert Schwenckok / Divulgação Kiko Cabral)

Outros trabalhos marcantes de Ícaro Silva: “Elis, a Musical” no teatro (na foto, com Laila Garin) e “Malhação” na TV (na foto, com Fernanda Vasconcelos e Sérgio Hondjakoff) (Fotos: Divulgação Robert Schwenckok / Divulgação Kiko Cabral)

O teatro físico nada mais é do que uma valorização maior da linguagem corporal em cena, em detrimento do texto, que pode ser mínimo ou inexitente. Em outras palavras, é a mímica contemporânea. “Depende basicamente da entrega dos atores e da imaginação do público. É como se disséssemos ‘vamos fazer um monte de coisas absurdas aqui e vocês acreditam aí’”, sintetiza Ícaro Silva, conhecido do grande público por trabalhos na TV, como “Malhação” e “Joia Rara”. “É o tipo de peça onde não se pode desgrudar os olhos. Quando conseguimos ‘pescar’ a imaginação do público, o jogo fica estabelecido e aí é só diversão”. No teatro físico, é possível trabalhar com diversas locações de maneira lúdica. Esse foi um dos primeiros aprendizados do Ícaro com o professor e diretor André Paes Leme (de “1958 – A Bossa do Mundo É Nossa”), que assina as duas montagens da peça. Ele mostrou para o elenco os trens, cabarés, precipícios e outros ambientes que pareciam impossíveis sem cenários. “Já trabalhamos juntos anteriormente e minha impressão é sempre a mesma: André consegue fazer da mais simples cena algo grandioso”.

Para construir seu Sherlock Holmes físico, o ator usou pouco as referências audiovisuais – embora existam filmes e séries recentes, estreladas por Robert Downey Jr. e Benedict Cumberbatch. Ele se ateve principalmente aos livros do escocês Arthur Conan Doyle. “A partir deles, exploramos os lados pouco conhecidos de Holmes, como o gosto pelo boxe e o uso de cocaína”, diz Ícaro, que já era fã do personagem. “Gosto de histórias de suspense e de detetives. Sou fã de Batman, de Agatha Christie e seu [Hercule] Poirot e de ação no geral. A personalidade de Sherlock está presente em todas essas histórias”.

Além do Ícaro, o elenco conta com outros sete nomes: Fábio Cardoso (de “Querida Helena Serguêievna”), Hannah Jacques (de “Your Song”), Julia Morales (de “Futuro Por Metade”), Lorena Medeiros, Luísa Pinheiro (de “A Marca do Zorro”), Mariah Viamonte (de “O Despertar da Primavera”) e LuCa Ayres (de “Capivara na Luz Trava”). O número grande de atores também facilitou a arrecadação no Catarse, site de financiamento coletivo, que viabilizou a temporada. O produtor Rafael Fleury (de “Festa de Família” e “O Funeral”) conta que a ideia de abrir um projeto nesses moldes surgiu, em parte, pela certeza de muitos compartilhamentos nas redes sociais e o impacto em um número maior de amigos e parentes. “Trabalhar em um processo independente é, na maioria dos casos, ter um grupo com unidade, com motivação verídica de realização da arte. Todos dão o melhor de si e funcionam afinados em acordes perfeitos”, ressalta.

Ícaro faz coro. Na entrevista, faz questão de elogiar os colegas de elenco: “Tenho muito orgulho de cada um desses atores”. Ele está especialmente satisfeito por apresentar um trabalho que começou com o aprendizado na faculdade, com essas mesmas pessoas. “Isso me enche de satisfação e, claro, de dúvidas. É uma grande responsabilidade fazer teatro no Rio, onde há uma classe artística ativa e um público ávido por novidade”, aponta. “Nosso espetáculo, em sua maneira peculiar de ser, é um convite a experimentar o teatro de uma maneira mais lúdica, mais presente. É isso que queremos entregar ao público e esperamos vê-los prontos para ‘brincar’ de Sherlock Holmes”.

Elenco de "Baker Street 221b" (Foto: Rael Barja)

Elenco de “Baker Street 221b” (Foto: Rael Barja)

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