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Efeito The Book of Mormon: universitários dão passo maior do que a perna

Há um ano, o musical universitário “The Book of Mormon” fazia sua segunda temporada na Cidade das Artes, com capacidade para 1.200 pessoas por sessão – um fato inédito e ainda único para um trabalho acadêmico. Dirigido pelo professor da UNIRIO Rubens Lima Jr., o espetáculo ganhou a mídia, o público, virou frisson na cidade e recebeu convite até para sair do estado. Da montagem, despontaram nomes como Leo Bahia (de “Chacrinha – O Musical”), respeitado pela crítica e indicado a prêmios. Resultado: todo mundo quer ser “The Book of Mormon” hoje em dia. Na sede de repetir seus feitos, o que se vê um ano depois é toda e qualquer montagem acadêmica se propondo a ser maior do que pode – ou do que deveria. São espetáculos universitários que já nascem pretensiosos.

A comédia dos missionários mórmons Elder Price e Elder Cunningham na Uganda teve temporadas na UERJ, na UFF, na Cidade das Artes e no Teatro João Caetano, além de apresentações no Espaço Tom Jobim, como parte do Festival de Teatro Universitário - FESTU. (Foto: Reprodução / Cidade das Artes)

A comédia dos missionários mórmons Elder Price e Elder Cunningham na Uganda teve temporadas na UERJ, na UFF, na Cidade das Artes e no Teatro João Caetano, além de apresentações no Espaço Tom Jobim, como parte do Festival de Teatro Universitário – FESTU. (Foto: Reprodução / Cidade das Artes)

O que é e para que serve uma montagem acadêmica? É um trabalho prático de faculdade, como qualquer graduação tem a sua. Às vezes vinculado a um projeto ou a uma disciplina, e às vezes, quase sempre, independente, como manifestação do desejo dos alunos se expressarem artisticamente. Essas montagens servem, então, para que experimentem, testem e, principalmente, errem, errem muito, porque a universidade é o lugar disso. Mas como você vai explorar essas possibilidades se dá um passo maior do que a perna e convoca a imprensa e o grande público para avaliação? Alunos de direção e produção, coordenadores, estudantes escalados para tais elencos, todos buscam a mídia para divulgar seus trabalhos – porque a imprensa abriu espaço para “The Book of Mormon”, não é mesmo? Então, de repente, trabalhos universitários, predispostos a todo tipo de equívoco, ultrapassam os portões da faculdade e ganham críticas em veículos especializados e reportagens na grande imprensa. Se vai tudo bem, ótimo. Se não… maus lençóis.

Está em cartaz na UNIRIO, por exemplo, “A Very Potter Musical”, do aluno de direção Julio Angelo, com supervisão artística do Rubens Lima Jr. Com recursos escassos, a produção estreou neste mês, com bastante burburinho. Ganhou espaço na mídia e, com ampla divulgação, acumulou cinco mil confirmações no evento aberto no Facebook – um público que nunca poderá ser atendido, porque o número de sessões e a capacidade do teatro não comportam mais do que 1080 espectadores na temporada. É um equívoco claro. Identificar o tamanho do projeto que se tem em mãos para estabelecer a divulgação proporcional faz parte do trabalho. Uma temporada para menos de mil espectadores não deveria recorrer às mesmas estratégias de marketing que um musical profissional com temporada para 20 mil espectadores por mês. É matematicamente lógico. Há montagens para filipetas na comunidade ao redor do teatro e montagens para comerciais na TV.

A Very Potter Musical: má produção comete gafes e gera insatisfação em público potencial

A Very Potter Musical: má produção comete gafes e gera insatisfação em público potencial

Com tanto alarde, o que acontece é o aumento de erros e insatisfações. A peça já teve problemas em sua estreia, que foi adiada por motivos mal explicados, e os alunos-produtores cometem uma série de equívocos no dia-a-dia – algo natural do aprendizado. A sessão de quarta (29/7), por exemplo, teve seu horário alterado para meia hora mais cedo um dia antes, mas só começou de fato meia hora depois (oi?). Os deslizes vão desde pré-senhas que, mal organizadas, em vez de ajudar, atrapalham e estressam, até convidados da produção e do elenco que chegam na hora e ficam de fora. É uma falta de respeito e jogo de cintura generalizada. Acontece até o cúmulo de jornalistas convidados, para gerar ainda mais buzz, ouvirem que seus convites foram repassados para outros espectadores em cima da hora. Há uma má gerência de questões práticas. Sim, são universitários, óbvio, então para quê atrair tanta atenção se não têm capacidade de lidar com tamanha proporção? “Exercícios cênicos” mais discretos e bem organizados gerariam um boca a boca natural e mais positivo.

O invejável e almejável “The Book of Mormon” não nasceu grande – como as montagens atuais se propõem. Os frequentadores da universidade foram, assistiram, gostaram, contaram para outras pessoas, que foram, assistiram e também gostaram. O burburinho chegou aos ouvidos da crítica Bárbara Heliodora (1923-2015), e o resultado foi a capa do Segundo Caderno do O Globo. Não havia essa pretensão exibicionista – e talvez por isso todos os envolvidos possam ter se empenhado no que realmente importava: fazer o melhor trabalho possível. Deve-se destacar, também, que o musical fez parte de um projeto de pesquisa que existe desde 1995. O mesmo projeto também já montou, entre outros, “Cambaio” (2009), “Rocky Horror Show” (2010), “Tommy” (2011) e “Spamalot” (2012), mas você dificilmente ouviu falar deles. Foram trabalhos limitados ao ambiente acadêmico. O projeto não nasceu midiático e fenomenal da noite para o dia. Mas as montagens atuais, coordenadas por iniciantes, querem nascer explosivas – e acabam sendo, para o bem ou para o mal.

Projeto UNIRIO Teatro Musicado tem padrão acima da média das montagens universitárias habituais (Foto: Divulgação)

Projeto UNIRIO Teatro Musicado tem padrão acima da média das montagens universitárias habituais (Foto: Divulgação)

Se o que “acontece em Vegas fica em Vegas”, muito do que acontece na universidade deveria ficar na universidade. Muito, muito mesmo. Se “The Book of Mormon” tinha toda pinta de profissional, outras montagens são amadoras da recepção na fila até o aplauso final, e isso faz parte. Cabe aos alunos identificarem o que têm em mãos para não queimarem o próprio filme. Uma coisa é um professor dar nota baixa, outra é um espectador ou um crítico. O reconhecimento vem com o tempo, e geralmente depois do profissionalismo. Os mórmons foram exceção, mas desde então são tratados como regra. É hora de rever conceitos e reavaliar tamanhos de projetos acadêmicos.

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