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Em tempos de crise, youtubers são aposta certa para lotar teatros

Felipe Neto em apresentação do seu stand up (Foto: Divulgação)

Felipe Neto em apresentação do seu stand up (Foto: Divulgação)

Crises exigem adaptações, e é o que está acontecendo. Produtoras e salas de teatro estão abrindo espaço na programação para apresentações de vlogueiros (ou youtubers, como você preferir), que são garantia de público. Só neste fim de semana, a cidade recebe dois: Felipe Neto leva seu stand up para o Vivo Rio, no Flamengo, e Bianca Andrade estreia “Boca Rosa – A Peça” no Theatro Net Rio, em Copacabana, antes de seguir em turnê. Os ingressos para o Felipe estão esgotados, segundo a assessoria da casa. Já Bianca teve que marcar uma sessão extra após vender mais de mil bilhetes antecipados para as quatro datas previstas. Comercialmente, não há dúvidas: são um sucesso.

O release – material enviado à imprensa – do Felipe Neto se gaba de que seus números de seguidores no Twitter e no Youtube, somados, se equiparam à população da Grécia. O pior é que é quase isso mesmo: são mais de nove milhões de usuários recebendo seus posts. Os gregos são 11 milhões. Com Bianca, a “Boca Rosa” que começou dando dicas de maquiagem a baixo custo, não é diferente: juntando Facebook, Instagram e Youtube, são 7,2 milhões de seguidores. Por que não capitalizar isso com uma turnê nacional? A ideia foi da sócia Luizi Costa, e logo os diretores Afra Gomes e Leandro Goulart (de #Meninos e Meninas”) se associaram ao projeto, sempre atentos ao que bomba com o público jovem. No fim do ano passado, ela tornou pública a novidade, com um vídeo dizendo “vou virar atriz”. A notícia causou controvérsia entre os artistas. Virar atriz?

Veja a partir de 1:48:

Querendo ou não, é uma realidade: vários vlogueiros estão migrando para os palcos, de olho no potencial lucrativo. Geralmente, são produções independentes, de baixo custo, e com grande arrecadação de bilheteria. Kéfera Buchmann, que já lançou livro e linha de batom e esmalte, faz sucesso com a turnê da peça “Deixa Eu Te Contar”. Victor Meyniel, que começou no Vine e migrou para o Youtube, circula com duas peças: o stand up teen “Meu Queridoooo” e o monólogo cômico “Robertassa”. É basicamente como fazer no palco o que se faz diante da câmera no quarto: contar histórias pessoais e provocar o riso.

– Acho que é fundamental que os youtubers estudem. Se você pegar toda a lista dos youtubers com mais assinantes do Brasil, apenas eu e a Kéfera viemos da interpretação. Muitos youtubers são apenas pessoas carismáticas que arriscaram com uma câmera e deram certo, por isso é muito importante que levem isso a sério e se dediquem ao estudo da função que exercem. – se posiciona Felipe Neto, em entrevista ao Teatro em Cena.

Kéfera: 7,8 milhões de seguidores em seu canal no Youtube (Foto: Divulgação)

Kéfera: 7,8 milhões de seguidores em seu canal no Youtube (Foto: Divulgação)

Kéfera concorda. Ela começou a fazer teatro na adolescência, e sabe que esse não é o caso de todos vlogueiros. No entanto, não julga. Questionada pelo site, ela opina que a ida dos youtubers para o teatro “é para fazer um espetáculo sobre o universo deles, nos quais já convivem, não é um novo personagem”. Ela, que recentemente filmou também um longa-metragem, acredita que a migração do virtual para o real tem um lado positivo muito claro: a formação de plateia. “Já ouvi de muitos jovens que, graças à minha peça, começaram a frequentar e se interessar por teatro. Como amo teatro e sou completamente apaixonada por arte, acho muito legal expandir esse amor para que os seguidores me entendam cada vez mais”, destaca.

Para sua estreia, Bianca Andrade seguiu a cartilha e correu atrás. Desde que o projeto de “ter sua própria peça” se concretizou, passou a ter aulas de teatro – verdadeiros intensivões com o preparador de voz Jorge Maia e a preparadora de corpo Anna Magdalena. “Já fui logo dizendo para eles que queria explorar tudo ao máximo: expressão corporal, projeção de voz, respiração. Estudei bastante. Se fosse preciso, eu nem dormiria: me joguei de corpo e alma”. Os diretores também a testaram com participações especiais na peça “#Meninos e Meninas”, para que a vlogueira pegasse a manha do ao vivo. “Foi um grande aprendizado. A partir dali, os diretores puderam me avaliar melhor e me dar dicas para que eu pudesse melhorar em alguns pontos. Foi fundamental e ainda senti o carinho das minhas leitoras goxtosas” (o x é dela, em resposta por e-mail). No caso da Boca Rosa, ela terá um reforço em cena: a atriz veterana Bia Guedes, que já fez “Surto”, “Terapia do Riso”, “Pequenos Poderes” e “Assim Como Nós”.

Sozinho em cena, Felipe Neto diz que começou a ter aulas de teatro aos 12 anos de idade. Na divulgação do seu stand up, chama de personagem aquele que aparece em seus vídeos de óculos escuros, maldizendo “Crepúsculo”, “Cinquenta Tons de Cinza”, Fiuk, Justin Bieber, Wesley Safadão e tantos outros. O personagem popular, claro, está no palco: é o que o público mais quer dele.

Bianca Andrade: estreante nos palcos (Foto: Divulgação)

Bianca Andrade: estreante nos palcos (Foto: Divulgação)

– O teatro é a minha casa, é o local onde eu fico mais confortável na vida. Desde que o [canal] “Não Faz Sentido” deu certo, sempre soube que meu principal objetivo era poder voltar ao teatro. Foi um caminho árduo, tive que me dedicar muito aos meus projetos e às minhas empresas e, no momento em que atingi minha estabilidade financeira, decidi voltar ao que mais amo, os palcos.

Na mesma linha, Bianca Andrade declara amor ao teatro, antes mesmo de sua estreia oficial. A carreira de atriz, ela revela, sempre foi um sonho, guardado em seu íntimo. “Quando tive a primeira reunião com meus diretores, eles disseram ‘olha, o bichinho do teatro vai te morder e você vai ficar viciada’ e realmente fiquei”. Depois do Rio de Janeiro, a vlogueira já tem apresentações marcadas em pelo menos mais 12 estados.

Há quem torça o nariz e diga que projetos assim tomam lugar do “verdadeiro teatro” – um conceito questionável. Kéfera entende a revolta. “Muitas peças acabam por falta de público. Sei que deve ser difícil ver pessoas que não têm ‘tempo de palco’ lotando teatros”, analisa. “Mas, através de influenciadores, o público que frequenta teatro pode aumentar, fazendo com que peças não acabem mais por falta de público. Mas sinto que existe uma disputa bem grande, assim como muita pressão”. Felipe Neto, por sua vez, garante que nunca ouviu nenhuma crítica por sua ida para os palcos. No mês de março, ele é a única atração teatral do Vivo Rio. Às possíveis críticas, ele tem a resposta na ponta da língua de antemão:

– Se algum ator se sentir incomodado com minha venda de ingressos, saiba que eu já fiz muita apresentação pra 15 pessoas no passado e ralei muito para estar na posição em que estou hoje. Preocupe-se menos com o que os outros estão fazendo e mais com o que você está fazendo.

VEJA TAMBÉM:
Atores migram para web de olho nas oportunidades. Kéfera dá sua opinião.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

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MINHA VIDA NÃO FAZ SENTIDO (FELIPE NETO): dom, 20h. R$ 50 a R$ 120. 120 min. Classificação: 16 anos. Dia 20 de março. Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique, 85 – Flamengo. Tel: 2531-1227.

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BOCA ROSA – A PEÇA (BIANCA ANDRADE): sáb, 17h; dom, 16h. R$ 70 (balcão) e R$ 90 (plateia). 60 min. Classificação: livre. Até 27 de março. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2547-8060.

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