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Em tempos de g0ys e gouines, peças discutem rótulos e sexualidade

Já faz tempo que GLS virou LGBT. E que as redes sociais abriram espaço para os status “relacionamento aberto” e “enrolado”. Mas essas nomenclaturas não esgotaram as possibilidades, pelo contrário. Cada vez mais diversas, expressões como gouines e g0ys também ganharam a mídia. Recentemente, assexuais – aqueles que amam, mas não se interessam por sexo – foram tema de uma reportagem de página inteira do jornal O Globo. A discussão sobre sexualidade e identidade de gênero está em voga, mas não dá para culpar quem não entende a multiplicidade de termos. Nesta semana, o ator Felipe Lima (de “Fonchito e a Lua”) estreia sua peça nova, chamada “Cock – Briga de Galo”, na qual interpreta um homossexual que se apaixona por uma mulher (Débora Lamm, de “Os Mamutes”). Como definir esse personagem? Bi? Ex-gay? Hetero? “Ele é um homossexual que se apaixona por uma mulher”, seu intérprete simplifica em entrevista ao Teatro em Cena. “Parece-me que a tendência das pessoas é criar mais rótulos ainda. Como classificar essa gente toda? Simplesmente não pode passar pela cabeça de alguém que alguma coisa não tem explicação. Tem que se encaixar em algum lugar, por mais específico e seletivo que seja. Se não é gay, é hetero. Se não é gay e não é hetero, então é bi. Se não é gay, hetero nem bi, então é g0y. Na verdade, não”.

(Foto: André Nicolau)

Débora Lamm, Felipe Lima e Marcio Machado formam o triângulo amoroso de “Cock – Briga de Galo”. (Foto: André Nicolau)

Aparentemente, os termos não dão mais conta da sociedade contemporânea, com maior abertura à exploração de novas experiências. Autor do livro “Sexualidade Sem Fronteiras”, o psicoterapeuta Flávio Gikovate defende a dissolução dos rótulos em prol do que chama de caráter lúdico do erotismo. Basicamente, significa separar as relações sexuais do compromisso social – ou seja, permitir-se. “Cock” – obra premiada do inglês Mike Bartlett (de “King Charles III”), que será encenada pela primeira vez no Brasil no Teatro Poeira, em Botafogo, com direção da Inez Viana (de “Nem Mesmo Todo o Oceano”) – se propõe a levantar essa questão. John, o personagem do Felipe, é casado com outro homem há sete anos e de repente se vê dividido entre o parceiro e um novo amor, que por acaso é uma mulher. “Acredito, sim, que existam pessoas com essa capacidade de gostar de alguém independente do sexo. O John não é bissexual”, explica o ator. “E daí que ele é gay e se apaixonou por uma mulher? Se ela está disposta a bancar isso, é uma questão deles dois. Ninguém tem nada a ver com isso. A sociedade tem essa coisa de querer entender e se posicionar com relação à vida alheia, né?”.

Entrevista: Felipe Lima dá mais detalhes de sua peça nova.

É claro: é uma situação complexa. O próprio personagem fica confuso – porque nunca tinha feito sexo com uma mulher – então é natural que os outros também fiquem, e o preconceito surja. Neste caso, é um preconceito invertido e subvertido. “O próprio parceiro dele debocha o tempo todo: ‘Como você pode estar apaixonado por uma mulher? Você é gay! Não é possível!’”, adianta Felipe. “Na verdade, as coisas podem ser muito mais simples. A gente muda o tempo todo. Você tem que saber o que funciona para você, e fazer isso. É o que meu personagem fala: ‘o que importa não é o que as pessoas são, mas quem elas são’”. A expectativa do ator é que a peça mexa com os espectadores e incite a reflexão.

Identidade de gênero

Amanda Vides Veras em cena com Julianne Trevisol: drama de transexual em "Uma Vida Boa". (Foto: Divulgação)

Amanda Vides Veras em cena com Julianne Trevisol: drama de transexual em “Uma Vida Boa”. (Foto: Divulgação)

Não é a única assim. O Rio de Janeiro é palco de outros espetáculos que tem a sexualidade como catalisador das tramas. “Uma Vida Boa”, do Rafael Primot (de “Um Sonho Para Dois”) com direção do Diogo Liberano (de “Vermelho Amargo”), encerra sua temporada no Oi Futuro Flamengo nesta semana, mas não pode ser esquecido. Inspirado em uma história real, que também deu origem ao filme “Meninos Não Choram”, o texto acompanha o drama de um homem aprisionado ao corpo de uma mulher. Um transexual – outro tema nebuloso para a maior parte das pessoas – que se apaixona por uma mulher (Julianne Trevisol, de “Tropicanália”) e esconde sua condição no primeiro momento. “A transexualidade está ligada ao gênero e não à sexualidade. O [personagem] B. não tem dúvidas de que é homem. O problema dele é com o corpo e não com a cabeça”, explica a atriz Amanda Vides Veras (de “SIM – Senhoritas Interessadas em Matrimônio”), que dá vida ao papel. “Há uma grande ignorância, pois ao conhecer de fato o problema que aflige os transexuais se torna natural aceitá-los como são. Sinto-me muito feliz por perceber que aqueles que assistem à peça me dizem na saída que foram tocados por tudo que foi dito, e que aquela história não vai passar mais em branco”. Para ela, a arte é uma ferramenta para esclarecer questões, desmistificar temas e deixar que o preconceito dê vez à tolerância.

Por isso, se interessou tanto por montar esta peça, idealizada por Pablo Sanábio (de “R&J de Shakespeare – Juventude Interrompida”). Quando começou a estudar a transexualidade, ficou claro para a atriz que precisava apresentar a história para o público. Seria uma maneira sensível de apresentar o assunto para a plateia. “Quando tratamos de um tema como identidade de gênero, a discussão naturalmente fica mais agitada, pois contamos com uma falta de conhecimento muito grande da população a respeito do assunto”, aponta a atriz, que não esconde os obstáculos enfrentados durante o projeto. “Não foi fácil e continua sendo um trabalho diário a ser feito, porque vivemos em uma sociedade que tem dificuldade em aceitar o diferente”.

Felipe Lima atesta. Ele explica que espetáculos alternativos, com questões polêmicas na pauta, tem mais dificuldade para levantar patrocínio. “Mas não é impossível. Também tem seu lugar nos editais”. O ator e produtor sabe que, mal ou bem, o teatro tem uma abertura muito maior do que a televisão para se aprofundar nessas questões. Os palcos são historicamente de vanguarda, enquanto a TV ainda mantém um caráter conservador. “Foi um parto para a Globo colocar o beijo gay do Mateus Solano com o Tiago Fragoso, né?”, comenta. “Claro que a gente não vai conseguir mudar o mundo com uma peça, mas, como artista, temos que buscar projetos, meter a mão, se sujar, para movimentar a sociedade de várias formas. É meu papel como artista”.

"Como artista, temos que buscar projetos para movimentar a sociedade", afirma Felipe Lima. (Foto: André Nicolau)

“Como artista, temos que buscar projetos para movimentar a sociedade”, afirma Felipe Lima. (Foto: André Nicolau)

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