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Entrelaços – Por Felipe de Carolis

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(Foto: Divulgação)

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Escrevo em conexão. Saio de uma Uberlândia esfuziante com apresentações de “Incêndios” e agora espero em Congonhas a hora de embarcar para o Rio de Janeiro, dar início a uma nova semana produzindo, estudando o desenho de produção de uma nova peça, começando a entender uma personagem nova, e filmando as últimas diárias de outra personagem que eu não queria me despedir tão cedo. Entretanto, elas sempre acabam indo.

Quando o editor desta coluna me fez o convite para escrever livremente, mas “se possível conte um pouco sobre o processo de “Incêndios” (peça que idealizei e venho apresentando desde 2013), estava sem tempo algum para me colocar em ponto morto, engrenar a primeira, e ser suficientemente interessante, como colunista convidado. Tenho tentado me esvaziar, em todo tempo livre, para rapidamente dar espaço ao outro personagem que chegará, no dia seguinte. Parar, e escrever com prazo, no meio deste tornado, me parecia impossível. Vim tentar.

Tiro proveito de uma entrevista que acabo de conceder (neste instante) a um jornal local, por telefone, e começo a digitar, aqui no aeroporto, reflexões a partir de uma pergunta específica que me fez pensar o que escolhi, e maneiras de conduzir minha vida como artista.

Alguns laços podem virar grandes nós irremediáveis, ou de fita, presentes impagáveis (não há aí uma rima intencional). Como de praxe, em um determinado momento a jornalista perguntara se a produção, equipe e elenco da peça que levantei durante quatro anos, reconhecia todo o esforço hercúleo que tive para este grande encontro existir. Ela ainda estava curiosa em saber quem eram os gratos, e os não gratos – tudo certo, pensei, é a função dela, a de tentar cavar alguma polêmica. A minha minha, ser cortês.

Me ative àquele tópico, sem esquivas, mas prevaleci aquilo de que muito me orgulho: a manutenção das conexões. A profundidade, aprofundamento, a amizade, admiração, e sobretudo o tempo dos seres humanos que chamei para trabalhar comigo. O tempo deles, com eles, com suas vidas, suas pesquisas e a dedicação àqueles que amam. É tão mágico (sim, mágico!) conviver com artistas que você admira e aprender com o cotidiano. Me propus a responder sobre a minha felicidade em assistir a estas pessoas, estes artistas, todos os dias.

“Que mundo é este onde os objetos tem mais esperança do que cada um de nós?” é uma pergunta que Sawda, personagem de “Incêndios”, faz a si mesma, em meio a guerra do Líbano. Ela aponta uma tendência, infelizmente, ascendente atualmente: o prevalecer do efêmero nas relações humanas. Me junto à Sawda para lutar contra.

Proporcionar encontros admiráveis, me faz sentir grato à minha própria tenacidade sim, não nego, mas enormemente mais grato a eles: estes loucos artistas que aceitaram a proposta de um garoto de 20 anos (àquela época) e vieram voar comigo.

“Eu vim para ser amigo, talvez isso tenha me tornado artista. E propor mudanças requer carinho, compreensão e algum talento. Parece utópico ou é compreensível o que eu falo?” perguntei à repórter, talvez nestas exatas palavras. Talvez noutras parecidas. Este tempo de espera, não o da conexão, mas o da transição do início, e o estabelecimento da vida adulta, me fizeram ter certeza desta vocação, da beleza de querer ser eterno aprendiz. E não me queixo por ter sido picado pelo bicho da insatisfação, sobretudo, e principalmente, comigo mesmo. Me mantém vivo e disposto a propor mudanças e realizar encontros, por mais inatingíveis que pareçam.

A vontade de envelhecer é iminente. Não me considero Rodriguiano, muito embora admirador convicto da obra, sou daqueles que tenta seguir o famoso conselho “jovens, envelheçam”. Também posso afirmar: Não sou um homem de sorte, talvez de guerras, e algumas batalhas vencidas. Outras, nem tanto. Uma grande virtude, tento acreditar. “Incêndios” surge por uma questão de sobrevivência artística e pessoal. Foram 4 anos de solidão e enfrentamento até ganhar o abraço daquela que hoje me chama de filho, do maestro dos maestros e de minha sócia produtora.

Vivi muito pouco tempo. Num quarto de século não deu para fazer tantas coisas como eu gostaria, mas as poucas bastantes, foram marcantes. Para mim e para grandes, quando não gigantes, plateias. Quero entender e aproveitar a plenitude dos instantes, embora seja assumidamente ansioso. A cada encontro profissional quero formar laços, e famílias novas, verdadeiramente.

Depois de tantas peças, dentro e fora do país, amadoras e profissionais, tantos elencos e plateias em alvoroço, depois de tanta euforia, como ir para casa sem eles? Já tenho certeza de que nunca fui pra casa sem eles. Nunca. Estão em mim. Cada um deles. Não falo só de “Incêndios”, mas de “Beatles”, “Despertar”, “A visita”, “Romeu”, “Incontratos”, e tantas outras, que me laçaram, me transformaram e fizeram de mim o homem que hoje sou. Um homem grato, insatisfeito, disponível e que busca pequenas metamorfoses diárias.

Sou eu que faço questão de agradecer, por ter tanta gente que admiro, fazendo projetos que eu inventei, acreditando em mim, e formando laços entre si. Se algum dia receberei um troco? Eu sou o maior troco. Eu sou perene. Digo, eterno enquanto durar. Eu recebo milhões de aplausos, abraços, aulas de profissionalismo, vida, amor ao ofício, e o sorriso dos meus colegas. Isso é muito mais do que a tal gratidão que a repórter queria bisbilhotar. Mais do que minha formação acadêmica, esta é minha vida. a convivência com cada um deles, me fez apreender sozinho, aquilo que eu nunca aprenderia sozinho, sem eles.

A esperança (convicta) é seguir com a sabedoria e maturidade espontâneas que eles me proporcionam, inconscientemente. A amizade e a troca de cada artista que passou por mim, que deixou em mim uma memória, um cheiro, uma dor, um laço. Cada conexão estabelecida a partir do que construímos, se torna um patrimônio pessoal onde objetos nunca terão mais importância do que cada um de nós.

Vamos para nossas casas, assim que o avião pousar no Santos Dumont. Vejo de longe, todo o elenco e equipe na fila de embarque enquanto digito na velocidade de uma criança empolgada, que joga esses modernos joguinhos de iPad, e se reconhece neles.

Mesmo separados, por outros compromissos, o tempo juntos, a cumplicidade natural de uns com os outros, a dependência, para vida e para a cena, para o existir, que felizmente a profissão de ator nos obriga, nos dá, nos presenteia, nos farão interligados para sempre. “Não há nada mais lindo do que estar juntos” estas são as ultimas palavras de Nawal Marwan, personagem interpretada por Marieta Severo, a mãe que minha linda profissão me deu, nesta atual tragédia que venho fazendo nos últimos anos.

Felipe de Carolis é ator e produtor.

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