Entrevista

Prazer, Giulia Bertolli

Filha de Lilia Cabral estreia na carreira de atriz

(Foto: Divulgação)

Giulia Bertolli estreia sua carreira de atriz com os benefícios, as cobranças e a busca por autonomia típicos de quem segue a mesma profissão do pai ou da mãe. A jovem de 22 anos recém-completados, em cartaz com a peça “E Se Mudássemos de Assunto?” no Parque das Ruínas, não se incomoda com o aposto de “filha de Lilia Cabral” que acompanha as primeiras notícias sobre seu trabalho. Mas também não se prende a isso. O espetáculo é uma iniciativa própria de Giulia, com o grupo de teatro que formou na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde se formou em artes cênicas. Ela gosta de sublinhar que o projeto não tem patrocínio (nem mãetrocínio) e foi arcado graças a uma vaquinha virtual. “Corremos atrás do diretor, do texto, do teatro, das pautas, passando pelas mesmas dificuldades que qualquer um começando a carreira”, ela diz ao Teatro em Cena, “e aquela ansiedade de ‘será que alguém virá ver a gente?’ A gente não é ninguém. Lá está meu nome, não está o nome da minha mãe. Digamos assim, ser filha da Lilia Cabral nessas horas não adianta de nada (risos), porque se a peça não for boa ninguém vai ver”.

Ela também não usa o sobrenome famoso da mãe, então não é todo mundo que sabe do parentesco. “O meu nome não tem Cabral. É Giulia Bertolli Figueiredo. Minha mãe que é Lilia Cabral Bertolli, mas o meu não tem”, explica. Se quisesse pegar carona, teria que incluir o sobrenome no nome artístico. Não quis. “Pelo menos para mim, Giulia Bertolli soa muito mais bonito do que Giulia Cabral. Combina mais. Mas é proposital também porque Lilia Cabral já tem uma, Giulia Bertolli não tem, então… (risos)”, pontua a atriz, que também está pronta para decolar na TV. Depois de uma participação em “O Sétimo Guardião” interpretando a versão jovem da personagem da mãe, Giulia está confirmada no elenco da próxima temporada de “Malhação”, celeiro de novos atores da TV Globo. Para ela, que cresceu nos estúdios do canal e nas coxias de teatros pelo Brasil, o caminho é natural. Ela conta que, antes de nascer, já estava no palco, porque sua mãe fez peça grávida.

(Foto: Instagram)

– Minha lembrança mais antiga no teatro é de eu andando pelas escadas enquanto minha mãe estava na temporada fazendo “Divã”, porque eu sempre vou quando ela está em temporada, principalmente porque acho que ela estreou no Teatro das Artes ou dos Quatro, e a gente mora perto. Eu tinha o costume de sempre ir nos finais de semana. Eu lembro de ir ao camarim vê-la se preparar, depois sentar na plateia, vendo, revendo, 30 mil vezes, com público diferente, vendo as reações, as risadas, descendo as escadas, entrando na cabine de luz… Também lembro de “Unha e Carne”, uma peça que ela fez com a Denise Del Vecchio, mas é uma lembrança muito longe de eu vendo elas atuarem em um teatro que não era nem no Rio, era em outro lugar. – resgata.

Agora inverteu. Na estreia de “E Se Mudássemos de Assunto?”, era a mãe que estava na plateia e a filha no palco. O espetáculo, escrito por Renata Mizrahi (de “Galápagos”) e dirigido por Marcos França (professor da CAL), é uma reunião de esquetes que tratam da comunicação na contemporaneidade, a partir de encontros e desencontros. Giulia tem alguns personagens. Faz uma mulher em processo de divórcio, uma menina no primeiro encontro com o futuro namorado, uma comemorando aniversário de namoro, e uma cega cujo namorado descreve as cenas de um filme para ela.

– Muitas vezes as pessoas não se escutam, a gente vê cenas de intolerância, de pouquíssimo respeito, agressões físicas ou verbais… basicamente a gente gostaria de falar sobre o básico de uma sociedade, que são os sentimentos esquecidos e desvalorizados nessa correria da sociedade contemporânea. A gente pensou em fazer algo no estilo de “A Reunificação das Duas Coreias” [que Marcos dirigiu no curso], que também eram vários esquetes que falavam sobre vários assuntos, mas sempre girando em torno dessa questão humana. – ela conta sobre o processo de escolha do texto, que pode ser conferido até o dia 27 de janeiro em Santa Teresa.

Daniel de Mello,  Giulia Bertolli, Lucas Figueiredo, Ricardo Cuba e Tercianne Melo formam o elenco do espetáculo (Foto: Marcos França)

TEATRO EM CENA – Como tem sido a experiência com a temporada no Parque das Ruínas?
GIULIA BERTOLLI –
Incrível. Lá é um lugar lindo, muito bonito, tem uma vista incrível, é uma atmosfera muito boa. O teatro tem capacidade para 83 pessoas, incluindo cadeiras extras, o que é um tamanho perfeito para nossa primeira temporada. A gente está conseguindo botar um público bom. Está sendo muito prazeroso fazer lá. É um lugar que super combina com o espetáculo – um lugar jovial, contemporâneo, mas que ao mesmo tempo tem aquelas pedras, as ruínas, então dá um contraste bem bacana.

Sua mãe já foi ver? O que te disse?
Ela foi ver logo na estreia (risos). Ela adorou. Gostou muito. Acho que ela gostou mais ainda de ter visto o resultado desses três anos que passei na CAL, que foi ter montado esse grupo e esse grupo ter estreado sua primeira peça, de estar tudo caminhando no seu tempo. Ela se divertiu, se emocionou, ficou feliz com a direção, adorou o texto. Ela não conhecia. Nas férias, eu só tinha passado pra ela as minhas cenas, então ela nunca tinha visto a peça inteira pronta. Ela ficou feliz como mãe e como plateia. Disse que era uma peça leve e que as pessoas podiam se identificar.

Como você lida com o aposto “filha de Lilia Cabral”, que inevitavelmente vai te acompanhar por algum tempo?
Bom, como eu lido… (risos) Lido de uma forma tranquila. Estou lidando com esse aposto há 22 anos. Minha mãe sempre conversou muito comigo: estamos escolhendo a mesma carreira, mas somos pessoas diferentes, seremos atrizes diferentes, profissionais diferentes, sempre obviamente com o respeito à profissão, o profissionalismo, o comportamento exemplar, trabalhando duro, fazendo o melhor para contar as mais diversas histórias da melhor forma possível. Mas o aposto, digamos assim, existe e acho que, no início, é inevitável. Mas cabe lidar de uma forma tranquila. A partir do momento que gente se incomoda com isso, afeta a gente e não é nada que eu tenha que me incomodar. Ela é simplesmente minha mãe, e tudo bem. É a mesma coisa que falar “filha do Ivan”. A única diferença é que o Ivan não é tão conhecido. (risos) As comparações e referências vão existir. A medida que eu eu for trabalhando, talvez essas referências e esses apostos diminuam.

(Foto: Divulgação)

Ser filha de uma atriz famosa tem prós e contras. Obviamente abre portas, mas também gera preconceito. Como está sendo esse início de carreira, que é diferente para a maioria dos atores?
Olha, esse início de carreira está sendo bem produtivo. Considero meu início de carreira profissional mesmo com essa peça que estou fazendo, que independe da minha mãe. A gente não tem patrocínio nenhum, então precisou fazer uma vaquinha online e recebeu contribuição de nossos amigos e familiares, até mesmo de pessoas desconhecidas. Eu acho que começar no teatro, pra mim, me dá uma noção bem boa do que é a profissão, do tanto que a gente rala e trabalha, e ao mesmo tempo do quão bom e grandioso você fica subindo no palco e fazendo uma peça.

Que artistas você admira e tem como referência?
São tantos. Obviamente, minha mãe, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Lima Duarte, Tarcísio Meira, Gloria Menezes, Nicette Bruno, Eva Wilma, Nathalia Timberg… Nossa, tantos! Lá fora, a Meryl Streep, amo de paixão, Daniel Day-Lewis, Tom Hanks, são tantos, acho que eu podia ficar aqui falando horas e horas. Jessica Lange, Lucille Ball… Além obviamente de diretores, autores … mas vamos deixar pra lá porque senão eu vou passar a noite listando.

E tem algum espetáculo, novela ou filme que tenha te marcado muito?
Muitos, mas vou falar os dois primeiros que vieram à cabeça. Em termos de novela, “Páginas da Vida”, porque amo muito o Maneco, a maneira como ele escreve, os diálogos, e foi a Marta, né, um personagem muito importante da minha mãe. Foi uma das primeiras novelas que realmente acompanhei muito, então digo por tudo que significou e por todo contexto da obra dramática. E filme vou falar “A Forma da Água”, do Oscar mesmo, porque sou apaixonada por aquele filme! (risos) Amei a direção, o roteiro. Eu tenho a frase final do filme, que é “unable to perceive the shape of water, I find myself all around you”, anotada no meu caderninho. Gosto muito desse realismo fantástico e dessas histórias que ao mesmo tempo são absurdas e ao mesmo tempo você se encanta. E são lindas esteticamente e nos diálogos, e tudo o mais. Eu poderia falar um monte aqui. A própria “I Love Lucy” é uma série que eu via desde pequenininha e me divertia de matar de gargalhada. Foram minhas primeiras referências de comédia, e vejo até hoje. E peça vou falar “E Se Mudássemos de Assunto?”, porque vai marcar minha vida inteira como primeira peça.

Você escreveu vários textos teatrais para o projeto “Fazendo Cena” aqui no Teatro em Cena. Tem vontade de montar algo autoral?
Tenho muita vontade, sim. Tenho alguns esquetes já prontos, principalmente os que a gente manda para os festivais universitários. Tenho algumas ideias encaminhadas. Eu me formei agora em Letras e, no meu projeto final, escrevi o roteiro de um filme. Projetos encaminhados, eu tenho, mas por enquanto nada concreto. Tenho vontade sim, mas acho que talvez não no futuro imediato, mas em um futuro próximo. Tenho muita vontade de descrever.

(Foto: Divulgação)
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SERVIÇO: sáb e dom, 19h30. R$ 40. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 27 de janeiro. Parque das Ruínas – Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa. Tel: 2215-0621 / 2224-3922.

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