Entrevista

Johnny Massaro constrói sua carreira longe do estigma de jovem nerd

É dia de estreia de “Cara de Fogo” no CCBB. Johnny Massaro é o último do elenco a deixar o camarim após a apresentação. Também, pudera: ele termina o espetáculo todo molhado, com lantejoulas coladas no rosto e no peitoral. Ele recebe os cumprimentos dos amigos e familiares, posa para fotos e lamenta: “esqueci que hoje era estreia e vim com qualquer roupa”. Johnny veste uma calça xadrez e uma camisa de malha cinza. O cabelo está molhado. Pergunta se ficou bem nas fotos. 20 minutos mais tarde, quando ninguém lembrar mais disso, ele pedirá para ver as fotos, para se certificar que não ficou estranho. Visual à parte, a pergunta é: satisfeito com a estreia? “Como diria o Kurt, não existe mais isso de satisfação”, responde. Kurt é seu personagem na peça: um jovem piromaníaco que incendeia diversos lugares por puro prazer, se envolve sexualmente com a irmã, a manipula, e tem dificuldade de comunicação com os pais. Um louquinho.

(Foto: Renato Mangolin)

(Foto: Renato Mangolin)

É um papel bem diferente para o ator, coroando uma boa safra de trabalhos diversificados. Por muito tempo, ele ficou limitado aos nerds tímidos e/ou desengonçados na TV. Foi assim em “Floribella” (2005-2006), sua estreia, na Band, “Malhação” (2007-2010), seu primeiro trabalho na Globo, “Divã” (2011) e “Guerra dos Sexos” (2012). “A gente fica um pouco à mercê – os atores, enfim – de alguém olhar pra gente e falar ‘bom, eu acho que você pode fazer isso’. Nesse caso, o ponto de virada foi dado pelo [diretor] Luiz Fernando Carvalho com ‘Meu Pedacinho de Chão’, que olhou para mim, e pensou que eu poderia fazer outra coisa”, diz, em entrevista ao Teatro em Cena. A novela, exibida no ano passado e diferente por si só, foi seu primeiro papel livre dos óculos, e o colocou pela primeira vez no centro da história, como um galã exótico. Johnny caiu no gosto popular e ganhou o Prêmio Quem, concorrendo contra Ailton Graça, Júlio Andrade, Lázaro Ramos, Luís Miranda e Pedro Cardoso. Na sequência veio “Amorteamo”, série de mortos-vivos com ares de cinema exibida neste ano, protagonizada pelo ator, e a novela “A Regra do Jogo”, atualmente no ar, sua estreia no chamado horário nobre. Na trama, ele é Cesário, jovem de esquerda, criado para suceder o avô conservador no comando das empresas. Filho da personagem bipolar da Bárbara Paz. Johnny, por fim, se desvencilhou do papel de nerd.

Em cena de "Meu Pedacinho de Chão", com Juliana Paes (Foto: Reprodução)

Em cena de “Meu Pedacinho de Chão”, com Juliana Paes (Foto: Reprodução)

Com Marina Ruy Barbosa em "Amorteamo" (Foto: Divulgação)

Com Marina Ruy Barbosa em “Amorteamo” (Foto: Divulgação)

Seu perfil, no entanto, merece atenção. Não é à toa que, por tantos anos, ele foi chamado para fazer os mesmos papéis. Johnny Massaro gagueja ao responder as perguntas e não termina frases ou raciocínios, como se sua boca não acompanhasse a velocidade do seu cérebro. Não conta para ninguém, mas isso é tipicamente nerd. Isso é um problema, aliás? Johnny é mesmo inteligente, culto, pode-se dizer, e informado. Dos seus cinco últimos posts no Instagram, um foi para divulgar “Cara de Fogo” e os outros trataram de temas políticos – dois, mais precisamente, com fotos do presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Posicionando-se contra o político, é bom dizer. Johnny não faz o tipo de artista que publica selfies com frequência. Elas aparecem quase nunca, na verdade.

– É muito fácil a gente rotular. Na verdade, a gente está o tempo inteiro fazendo isso com todo mundo. Eu super entendo: “esse cara aqui tem cara disso, então o público vai se identificar com ele por conta disso, então ele vai ser sempre isso”. E é um horror, né? Sem sorte, você não consegue se desvencilhar disso. Com sorte, você consegue ter a oportunidade, fazer valer a pena e as outras coisas irem acontecendo.

O teatro sempre lhe deu oportunidade de passear por universos distintos. Seu último trabalho nos palcos foi “R&J de Shakespeare – Juventude Interrompida” (2013), com direção de João Fonseca. Era uma releitura de “Romeu e Julieta” encenada só por homens. Foi lá que contracenou com Pablo Sanábio, idealizador de “Cara de Fogo”, peça premiada do alemão Marius von Mayenburg. Há cinco anos, Pablo chamou a atriz Julia Bernat para uma leitura e ela, que atuava com Johnny em “Malhação”, o convidou também… assim se deu a parceria. Os pais dela, Soraya Ravenle e Isaac Bernat, também em cena, logo se juntaram. Unidos, os cinco artistas compraram os direitos e a ala jovem escreveu o projeto. Era a oportunidade de ser dirigido por Georgette Fadel, desde o início associada ao espetáculo.

(Foto: Renato Mangolin)

(Foto: Renato Mangolin)

– Era um desejo imenso trabalhar com a Georgette, porque ela é uma atriz monstra. Uma atriz maravilhosa, que você vê e fica pensando como é que ela faz o que ela faz. A maneira como ela guia sem impor absolutamente nada é maravilhosa. Tudo parte da gente, e até eu entender isso, eu perdi muito… perdi não, “perdi”, é, gastei muito tempo, porque a gente fica sempre achando que o caminho é do diretor para a gente. Mas não é assim que funciona com ela, e não é assim que eu acho que deva ser mesmo. É colaboração, vias de mão dupla sempre. Se for da direção para mim, vai ser uma coisa absolutamente imposta, e é muito mais trabalhoso tornar orgânico, tornar meu, porque é uma coisa de outra pessoa que talvez eu nem consiga. Então, a Georgette é muito linda assim.

Quando Johnny gosta de algo ou alguém diz que é lindo. Julinha (Julia Bernat) é linda. A trilha sonora da peça, criada por Davi Guilhermme, também é linda. Cunha, sorry, não é lindo não. Ensaiar uma peça por apenas dois meses… nada lindo, tampouco. “Foram só dois meses. É muito pouco! Já que é um site especializado em teatro, põe aí: é um absurdo dois meses de ensaio para estrear qualquer coisa!” (risos). Mas e esses grandes musicais que são ensaiados em 30 dias? “É, cara. Bem, eu acho… Bem… cada um é cada um”, desconversa. Para os ensaios de Kurt, o ator tinha que cruzar a cidade, dividindo-se entre o CCBB, no Centro, e o Projac, em Jacarepaguá. Para criar um clima diferente para cada personagem, ele marca “pequenas coisinhas”: uma maneira diferente de sublinhar o texto, algo que leva para o camarim, uma comida que come em um lugar e no outro não. “Mas naturalmente as diferenças existem também: aqui é completamente diferente de estar na novela. Outras pessoas, outra dinâmica, outra história, outro tudo. Mas, além de tudo isso, é respirar, né? (risos) O mais importante é tentar ter calma para qualquer coisa. Aí com calma você consegue colocar as coisas nos lugares certinhos. Ou não. Nem sempre”. Em poucos minutos de conversa, dá para constatar que ele sempre pesa o “ou não”. Não gosta de dizer verdades absolutas – nem suas verdades absolutas. Quando ouve que “Cara de Fogo” não é um espetáculo fácil de se fazer, por exemplo, vira uma deixa para que divague:

Em cena com Julia Bernat em: personagem fissurado por fogo (Foto: Renato Mangolin)

Em cena com Julia Bernat em: personagem fissurado por fogo (Foto: Renato Mangolin)

– Eu fico achando que essa coisa da simplicidade e da dificuldade, da complexidade, é tudo uma maneira como você encara as coisas, na verdade, né? Se você encarar de uma maneira simplista, pode ficar superficial. Qualquer coisa pode ser encarada dessa maneira. Mas, a partir do momento que você para na frente de alguma coisa e pensa “o que isso aqui significa de fato? O quão fundo isso pode ser? Ou não, né… O quão superficial isso é?” Mas, a partir do momento que você para diante de uma coisa, e olha, e se dedica, eu acho que a coisa se complexifica. É o caso aqui da peça, eu fico achando.

Johnny está cheio de textos nas mãos, uma mochila e uma sacola. Carregado de objetos. Do outro lado do 2º andar do CCBB, uma turma o espera para a confraternização da estreia. Estão lá amigos como Ícaro Silva, com quem fez “R&J de Shakespeare”, e Mariana Molina, de “Malhação”. Toda a equipe já foi para lá, e apenas as assessoras do espetáculo acompanham, de longe, a entrevista. Os funcionários do teatro passam com chaves na mão, demonstrando que querem fechar o local. Johnny não parece notar, porque se empolga com cada resposta. Mas é hora de terminar. Uma pergunta simples, então: qual a expectativa para a temporada?

– Nenhuma.

– Nenhuma? Como assim?

– Nenhuma! (risos) Aquela coisa da calma que eu falei acho que tem a ver com aquietar essas vozes que ficam dizendo coisas “ah, eu quero isso”, “ah, eu espero isso”, “tomara que isso”, tomara que…”. É calar a boca dessas vozes e não ter expectativas, porque expectativas… né? Eu acho que, enfim…

(Foto: Renato Mangolin)

(Foto: Renato Mangolin)

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SERVIÇO: sex a do, 19h30. R$ 10. 90 min. Classificação: 18 anos. De 3 até 20 de dezembro e de 7 até 24 de janeiro. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Teatro III – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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