Entrevista

Marco Nanini comemora 50 anos de carreira no palco

(Foto: Reprodução)

Marco Nanini estreou seu novo trabalho no teatro, a peça “Ubu Rei”, de Alfred Jarry (1873-1907), e parte da estratégia de divulgação diz: são os 50 anos de carreira do ator. Mas, quando você aborda o assunto com ele, vê uma risadinha debochada estampada em seu rosto simpático. “Eu fiz 50 anos de carreira há dois anos”, explica, “mas demorei a comemorar”. Agora, ri com tudo, já com a verdade na mesa.

Ele está sentado confortavelmente ao lado do sócio Fernando Libonati em um sofá do Golden Room do Copacabana Palace, onde ocorre a 29ª edição do Prêmio Shell – troféu que ele já tem, e concorre novamente, na categoria inovação, pela administração do Galpão Gamboa. Além de ator e produtor, é diretor artístico de um teatro popular. O prêmio, ele não leva. Mas fica feliz pela vitória do projeto Baixada em Cena: “na nossa categoria, concorriam gente incrível da periferia, então é muito estimulante estar junto com essas pessoas num prêmio”. De prêmios, ele não pode reclamar, mesmo. Só nesta década, recebeu três APTR (melhor ator em 2011 e 2015, e homenagem do ano em 2016) e um Shell (melhor ator em 2011), só para citar os mais importantes. Em casa, tem também troféus do Molière, Mambembe, APCA, Qualidade Brasil, Melhores do Ano, entre outros. Resultado de 50 anos de carreira. Ops, 52. Só de TV Globo, são 48 anos: começou como figurante.

Questionado se para pra pensar nesse número significativo, Marco Nanini faz um silêncio, dá um sorriso e admite: não. “É tão natural. Aconteceu. Não penso, não”. Quando recebeu a homenagem do APTR no ano passado, brincou em seu discurso que virou ator porque “era inapto para tudo”. No teatro, se encontrou. Pisou no palco pela primeira vez em um infantil, ao lado de Pedro Paulo Rangel: “O Bruxo e a Rainha”. Tinha 17 anos. Ainda com Rangel, cursou o Conservatório Nacional de Teatro, que hoje é a faculdade da UNIRIO. O sucesso na TV – com “TV Pirata” (1988), “A Comédia da Vida Privada” (1995-1997), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1998), “Andando Nas Nuvens” (1999) e 14 anos de “A Grande Família” (2011-2014), na pele do fiscal sanitário Lineu Silva – nunca o afastou do palco.

Caracterizado para “Ubu Rei”, seu mais novo espetáculo (Foto: Divulgação)

No teatro, ficou onze anos em cartaz com Ney Latorraca na comédia “O Mistério de Irma Vap”, dirigida por Marília Pêra (1943-2015). Certamente, um dos maiores sucessos dos palcos nacionais. Também interpretou textos de Molière (“O Burguês Ridículo”), Edward Albee (“Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”), Dias Gomes (“O Bem Amado”), Arthur Miller (“A Morte do Caixeiro Viajante”), Nicky Silver (“Os Solitários”, “Pterodátilos”), João Falcão (“Uma Noite na Lua”), Jô Bilac (“Beije Minha Lápide”), Gerald Thomas (“Um Circo de Rins e Fígados”), Oduvaldo Vianna Filho (“Mão na Luva”), Augusto Boal (“O Corsário do Rei”), Mauro Rasi (“Doce Deleite”) e Flávio Márcio (“Tiro ao Alvo”). Não consegue apontar um que tenha sido mais especial.

– É estranho, porque a gente se apega a esses trabalhos como se fossem filhos. Cada personagem desses custou muito tempo de atenção, então é difícil escolher. Tenho impressão que a somatória de experiências que foi importante para mim. O que trouxe para minhas descobertas, ou me induziu para esse ou aquele caminho. Isso não foi um trabalho específico, foi o conjunto. – aponta ao Teatro em Cena.

Se existe algum papel que gostaria de fazer de novo? A resposta é não. Nem mesmo Lineu, que encantou gerações semanalmente, e voltou ao ar recentemente em um especial da Globo com melhores momentos do seriado. “Quando eu faço um personagem, eu me entrego muito, então quando acaba eu até tenho uma saudade, mas nada de sofrimento”. Na TV, o último papel foi Pancrácio, da novela “Êta Mundo Bom”: o personagem foi escolhido pelo público como o melhor de 2016 na premiação do “Domingão do Faustão”. Foi a primeira novela de Nanini em 17 anos. Contracenou com Rosi Campos, e a convidou para fazer “Ubu Rei” com ele: “Ela já tinha feito a Mãe Ubu e não foi à toa. Rosi tem todo o tipo para fazer a Mãe Ubu, e um talento enorme. Foi uma escolha óbvia para a gente”.

Mãe Ubu é a esposa de Pai Ubu, papel do ator: na história, incentivado pela mulher, ele arma um plano covarde para assassinar o rei e usurpar o trono da Polônia. Inspirada em “Macbeth”, mas carregada no grotesco, a peça chocou a plateia francesa quando estreou, no fim do século XIX, e só foi reconhecida como um marco do teatro vanguardista após a morte de seu autor. No Brasil, a montagem tem adaptação de Leandro Soares (de “A Importância de Ser Perfeito”) e direção de Daniel Herz, da Cia. Atores de Laura. O espetáculo é uma parceria de Nanini e a companhia – da mesma forma que ele fez com a Cia. Teatro Independente em “Beije Minha Lápide”. O ator diz que uma das maravilhas da profissão são os encontros.

Marco Nanini e Rosi Campos: Pai e Mãe Ubu (Foto: Divulgação)

– Esse texto estava sempre na minha pauta, e na pauta de todo mundo, porque é um texto importante. Mas eu me reuni com a Cia. Atores de Laura e fizemos leituras de várias peças até optar por essa. O Daniel focou mais e pediu mais para a gente uma coisa que nós todos estávamos com vontade de fazer: dar veracidade aos personagens. O humor da peça é explícito. Então, a direção foi para não usar os personagens para fazer graça, e integrá-los dentro do enredo. – conta o ator, que aparece em cena com maquiagem meio clown e peruca desgrenhada.

Na estreia da temporada, no Oi Casa Grande, no Leblon, foi prestigiado por nomes como Renata Sorrah (de “Krum”), Edson Celulari (de “Hairspray”) e Fátima Bernardes. “A recepção tem sido muito boa. Fizemos as primeiras apresentações, e o público está indo cada vez mais. Cresceu todos os dias”. O teatro tem capacidade para mais de 900 espectadores. Um pouco desse feedback ele já tinha antes mesmo do início da temporada: Nanini fez leituras abertas ao público na Cidade das Artes e no Galpão Gamboa. “Foi muito proveitoso, a primeira vez que fiz isso e gostei muito. É bom, porque a gente começa a ter uma medida do estágio de trabalho em que está. É bom para fazer autocrítica e rever coisas”, aponta o artista.

A temporada está só no início, mas Nanini já consegue falar sobre seu próximo projeto. Os 70 anos de vida também serão trabalhando. Ele quer montar “As Cadeiras”, de Eugène Ionesco (1909-1994). “Não está totalmente fechado. Estou pensando… Queria trabalhar com a Camilla Amado, com direção do Daniel. Vou ver se sai ou não”.

(Foto: Reprodução / Felipe Panfili)

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50 a R$ 100 (qui e sex) ou R$ 50 a R$ 120 (sáb e dom). Classificação: 14 anos. Até 30 de abril. Teatro Oi Casa Grande – Rua Afrânio de Melo Franco 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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