Comportamento

Espetáculo recebe quatro pessoas por sessão em apartamento

(Foto: Joselia Frasao)

Um apartamento em Botafogo vem servindo de cenário para uma experiência teatral diferente para atores e espectadores. Trata-se do espetáculo “Futuro do Pretérito”, montado para acontecer dentro de uma kitnet, com plateia limitada ao máximo de quatro pessoas por sessão. Muito íntimo. As reservas são feitas com semanas de antecedência e tem funcionado bem. Terças, quartas e quintas, o elenco formado por Laura Sarpa (de “Ave de Areia”), Moisés Salazar (de “Urucuia Grande Sertão”) e João Saraiva (de “Festa no Interior”) dá vida a três personagens cercados de uma plateia voyeur, que está próxima demais para sentir seu hálito. Note que o número de atores só perde para o número de espectadores por uma pessoa.

– Intimidade, exposição e aprofundamento. Essas são as palavras que definem bem o que essa proposta propicia. – o diretor e dramaturgo Thor Vaz (de “O Homem Sol”) conta ao Teatro em Cena – O trabalho com os atores foi enriquecedor e quase claustrofóbico. Imagina estar rodeado de cenário e instalações (da artista Laura Fragoso) por todos os lados? Praticamente sem coxias. Os espectadores estão dentro do cenário e, a depender da cena, praticamente participam como interlocutores. Eu costumo dizer que todos participamos de uma ciranda energética em que os atores são os proponentes e nós outros agentes passivos, mais que meros voyers. É possível sentir os cheiros, ouvir os sussurros… E para os atores é uma caminhada na corda bamba por um precipício. Se a atuação não estiver muito afinada fica fácil perceber tão de perto. É um desafio que revela tesouros.

(Foto: Joselia Frasao)

A peça mostra um dia atípico na rotina de três jovens amigos, que expõe suas tragédias corriqueiras enquanto sorriem e cantam ao redor de piscas-piscas. A experiência começa com o ato da reserva, quando é informado o ponto de encontro para o público. Ao chegar ao local, a mini plateia é recebida por um guia, que carrega o livro “O Mundo Como Vontade e Representação”. Ele explica a diferença entre os teatros e como os espectadores podem se portar e o que podem esperar deste que estão prestes a vivenciar. “Até este ponto, o espetáculo tem um caráter muito misterioso pra as pessoas, e quase todos chegam muito curiosos e sem saber o que esperar. A maioria não tem nenhuma familiaridade com a proposta”, conta o diretor. Contudo, a experiência é dita como tão íntima e intensa que, no fim da apresentação, já teve espectador revelando crush por um dos personagens. O alcance da obra, para Thor, é compensado pela potencialidade do que cada espectador vive.

– Cada obra tem a sua especificidade. O teatro, enquanto mídia, já tem um alcance muito restrito atualmente. – pondera o diretor – Nós propomos uma vivência artística peculiar, individualizamos o espectador, sabemos o nome de todos e conversamos com todos após o espetáculo, isso acaba potencializando a experiência teatral. Além do mais, como não estamos subjugados a um espaço de terceiros, podemos fazer quantas temporadas, sessões e ensaios que quisermos. Esta liberdade é importantíssima para o trabalho criativo. Como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo.

(Foto: Joselia Frasao)

TEATRO EM CENA – Qual a inspiração para a história?

THOR VAZ – O texto foi escrito há sete anos atrás. Na ocasião, eu morava em São Paulo. Recebi uma encomenda para escrever sobre o cantor americano Jeff Buckley, morto prematuramente afogado em um rio enquanto cantava “Whole lotta love”. Ele era um artista intenso, visceral, ao mesmo tempo que emanava algo de angelical, divino. A verdade é que o que foi construído dramaturgicamente seguiu um caminho completamente diferente do que eu imaginava, outros personagens surgiram, mas o texto manteve a essência das qualidades de Jeff. No inicio do segundo semestre do ano passado, o ator João Saraiva me convidou para dirigir um espetáculo que acontecesse no apartamento dele. Ele queria transformar o apartamento dele em um espaço cultural, construir algo autoral, e de imediato eu me recordei desse texto.

O que motivou a concepção de um espetáculo para apenas quatro espectadores por sessão?
Todo o espetáculo foi construído a partir da relação dos artistas com o espaço. Tivemos dois meses e meio de processo de montagem, e quem trabalha com teatro sabe o quão raro é você poder ensaiar com luz e cenário desde o inicio do processo. Como optamos por trabalhar em um cenário ultrarrealista, uma kitnet na Orla de Botafogo, tivemos que adaptar a encenação e o público a este contexto. Tivemos um ganho artístico interessantíssimo, misturamos o poético e coloquial a todo momento neste trabalho, e aprofundamos o intimismo e o diálogo com o espectador. Tem cenas que é olho no olho. Acaba sendo uma experiência bem especial para os artistas e para quem assiste.

Qual tem sido o feedback dos espectadores?

Após o espetáculo, geralmente fazemos conversas com o elenco, e a sensação que temos tido é que fazemos amigos na duração do espetáculo. Ouvimos de uma das espectadoras que a peça é “estranha, moderna e primitiva ao mesmo tempo”. Já ouvimos que o espetáculo é “cinema em 4D”, e alguns gostariam de ter um bloco de anotações para transcrever frases da peça. Um dos espectadores confessou ter saído da peça com um crush por um dos personagens. Abraçamos todos, chamamos cada um pelo nome e vice-versa, e esse carinho, o brilho nos olhos, é provavelmente o feedback que mais nos orgulhamos.

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SERVIÇO: ter a qui, 19h45. Pague quanto puder: colaboração consciente ao fim do espetáculo. 70 min. Classificação: 12 anos. Até 28 de fevereiro. Ponto de encontro em Botafogo a ser divulgado após confirmação. Reserve por @ciateatroimediato.

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