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Espetáculos com temática LGBTQ estreiam no Rio

(Foto: Dalton Valerio)

Uma semana após a população LGBT ser retirada das diretrizes de políticas públicas do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos por medida provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, o teatro responde. Nos próximos dias, estreiam três espetáculos no Rio de Janeiro que tratam de sexualidade e discriminação. “Aqui Jaz Henry”, “40 Anos Esta Noite” e “Pra Chuva” são, além disso, peças de autores LGBTs. Daniel MacIvor (o mesmo de “In On It”) e Felipe Cabral (roteirista do “Vai Que Cola”), dramaturgos das duas primeiras respectivamente, são gays. Já o ator Ivan Vellame (de “Ayrton Senna – O Musical”), que escreveu a terceira, dispensa rótulos: “se fosse uma pergunta do ENEM, eu marcaria letra E: todas as respostas acima são verdadeiras (risos)”.

Ivan escreveu um monólogo para ele mesmo interpretar depois de ser discriminado no próprio mundo artístico. Certa vez, depois de fazer um teste de elenco, o diretor se desculpou dizendo que, apesar de ter sido o melhor candidato, ele não poderia ficar com o papel, pois era difícil aliar sua figura ao projeto: “você é um ator que beija homem. Um ator que beija homem na boca em público”. O episódio poderia desestimulá-lo, mas Ivan criou dois personagens de “Pra Chuva” naquele mesmo dia. No espetáculo, ele interpreta cinco pessoas que vivem questões com relação à sexualidade. Tem Oscar, preso por “homossexualismo” no século XIX, e Otília, pastora que vê sua autoridade religiosa questionada quando sua filha descobre ser homossexual, por exemplo. A trama investiga a relação entre vivência da sexualidade e preconceito ao longo do tempo.

Ivan Vellame escreveu e protagoniza “Pra Chuva” (Foto: Lorena Lima)

– A minha conclusão é infeliz: o preconceito existe incrustado, de uma forma velada e sórdida. Isso faz com que muita gente se esconda e, mesmo se reconhecendo como LGBT, seja homofóbica. Os que dizem “tenho até um amigo que é” me dão náuseas. É triste, dilacerante essa conclusão. – o ator compartilha com o Teatro em Cena – Todos os personagens tem um pouco de mim, ou de algo que vivi ou vi ou ouvi. O entendimento de como vivo a minha liberdade sexual sem dúvida contribui/contribuiu para a criação do espetáculo.

É o mesmo caso de Felipe Cabral, que tem um canal de literatura LGBTQI+ com 3,4 mil inscritos no Youtube. “40 Anos Esta Noite”, sua peça, direciona a discussão para as novas formações familiares. Na história, um casal de lésbicas convida um casal de gay para uma festinha de aniversário e faz uma proposta: que um dos homens se torne pai do bebê que elas querem ter. “Considerando que grande parte do país considera família apenas como um núcleo composto por um homem e uma mulher heterossexuais, encenar uma história de amor em que personagens desejam formar uma família homoafetiva é tentar dar um sopro de esperança e resistência. Tentar, através do teatro, criar um espaço de afeto. Nossas famílias existem e merecem respeito e direitos”, diz o ator, que também já estrelou o curta-metragem de temática gay “Aceito” (2014), visto 809 mil vezes no Youtube. Seu desafio agora é que as narrativas LGBTQI+ cheguem também à população heterossexual. O motivo é simples.

“40 Anos Esta Noite” traz Felipe Cabral, Gabriel Albuquerque, Gisela de Castro e Karina Ramil no elenco (Foto: Dalton Valerio)

– Acredito que estamos vivendo uma transição em termos de visibilidade desta temática. Eu acho sensacional que tenhamos mais peças assim, até para que o público não seja somente de espectadores LGBTI+. – ele diz – É evidente que eu espero que o maior público seja da comunidade LGBTI+, mas eu também consumo histórias, literatura, cinema e peças com protagonistas heterossexuais e consigo me identificar plenamente com os conflitos apresentados, mesmo sendo um jovem gay. No fundo, é a história e os sentimentos que importam. No “40 Anos Esta Noite”, os personagens querem ser pais e mães, querem construir uma família e esse debate é universal.

A defesa da chamada “família tradicional” foi uma das bandeiras do novo presidente durante sua campanha eleitoral. Assumidamente homofóbico, Jair Bolsonaro também ignora os assassinatos motivados por homofobia. Levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado no início do ano passado, registrou 445 mortes criminosas de pessoas LGBTs no Brasil. Isso significa uma a cada 19 horas. Os dados de 2018 ainda não foram divulgados. Mas sair na rua, para alguém LGBT, significa um perigo maior.

Em “Aqui Jaz Henry”, o personagem está livre desse medo. Já está morto. O ator Renato Wiemer (de “Catraca”) é quem interpreta o monólogo, que busca explicar a existência humana em meio a um monte de mentiras. “A homossexualidade aparece na peça como mais um questionamento sobre o que é mentira e o que é verdade”, adianta Wiemer, “o personagem diz no final que não tem problema em ser gay, mas que tem problema com as pessoas que tem problema com o fato de ele não ter problema em ser gay. Tipo: ‘o que é que você tem com isso?'”. Para ele, a reestreia do espetáculo é um importante ato de existência e resistência nesta etapa do Brasil. “Dizendo mais uma vez que essa questão não deveria ser uma questão”, pontua o ator, “e que, apesar desse momento político horrível que estamos vivendo, esse governo vai ter que nos engolir!”.

“Aqui Jaz Henry”, com Renato Wiemer (Foto: Wiliam Aguiar)

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40 ANOS ESTA NOITE: sáb, 21h; dom e seg, 20h. R$ 50. 90 min. Classificação: 16 anos. De 12 de janeiro até 25 de fevereiro. Tearo Ipanema – Rua Prudent de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.

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AQUI JAZ HENRY: qua e qui, 20h. R$ 50. 65 min. Classificação: 16 anos. De 9 de janeiro até 28 de fevereiro. Teatro Candido Mendes – Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema. Tel: 2525-1000.

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PRA CHUVA: seg a qua, 21h. R$ 30. 60 min. Classificação: 14 anos. De 7 de janeiro até 27 de fevereiro. Casa Rio – Rua São João Batista, 105 – Botafogo. Tel: 2148-6999.

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