Mariana Lima, o Cérebro_Coração no palco – Teatro em Cena
Entrevista

Mariana Lima, o Cérebro_Coração no palco

“Estamos vivendo um período muito grave, sombrio e perigoso no Brasil”, diz.

Quando Mariana Lima estreou o espetáculo “Cérebro_Coração” em maio, professores eram um pouco mais respeitados. Artistas, já não. Mas professores, sim. No palco, ela encarnava uma palestrante em uma aula-performance cheia de questionamentos e exposição de pensamentos, fragilidades e verdades ambíguas. O trabalho rendeu a ela duas indicações ao Prêmio Shell – tanto como atriz quanto como dramaturga. O espetáculo também foi nomeado a melhor cenografia e iluminação. Seis meses depois, o contexto sociopolítico é outro. “Estamos vivendo um período muito grave, sombrio e perigoso no Brasil”, diz a artista, voltando aos palcos com esse solo, desta vez no Teatro Poeira, em Botafogo. Reestreia nesta sexta (9/11) para uma temporada até 16 de dezembro, com sessões de quinta a domingo.

(Foto: Divulgação)

Durante a recente campanha eleitoral para Presidência da República, universidades de todo o país foram “fiscalizadas” para averiguação de propaganda eleitoral irregular. A Justiça Eleitoral ordenou, por exemplo, a retirada de uma bandeira com a mensagem “antifascista” na fachada do prédio da Faculdade de Direito da UFF. No lugar, alunos colocaram uma faixa escrita “censurado”. Além disso, a deputada estadual eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL), de Santa Catarina, pediu nas redes sociais que estudantes filmassem e denunciassem professores que fizessem queixas sobre a vitória de Jair Bolsonaro (PSL). Questionado, o presidente eleito disse que “não vê problema nenhum” na convocação da colega de partido. No ambiente acadêmico, contudo, as atitudes são vistas como ameaças ao pensamento crítico e à liberdade de expressão e questionamento. Mariana não vê de outra forma.

– Eu vejo com horror, com medo, com total apreensão. – desabafa em entrevista ao Teatro em Cena – A “escola sem partido” é mais um projeto autoritário, de profundo conservadorismo, perigoso e macabro. Regular o que se pode pensar, falar, discutir é querer dominar, controlar a livre expressão dos jovens, é boicotar o pensamento crítico, a investigação científica, a filosofia, a história, a língua, o pensamento. Não existe isso, escola sem partido. Temos que estudar todas as correntes de pensamento, temos que estudar a escravidão, o fascismo, as ditaduras, as correntes filosóficas religiosas. O conhecimento é expansivo, sem limites.

(Foto: Leo Aversa)

O horror, que pode paralisar muitas pessoas, colocou Mariana em movimento. Durante a campanha eleitoral, ela chegou a ir para a rua com o marido e diretor Enrique Diaz (de “In On It”) para conversar com a população, como parte do movimento #viravoto, em prol do candidato derrotado Fernando Haddad (PT). Levava uma placa pendurada no pescoço: “Ainda na dúvida? Vamos conversar?”. A experiência também a afetou. Ela volta ao palco diferente.

– Com certeza. Esse é um trabalho afetado por todas esses acontecimentos que mexem com a nossa sensibilidade. Embora não fale sobre política, é sobre a política, a política que afeta nossa vida cotidiana, a construção de pensamentos, memória, nossas ações no dia a dia. Quando levamos o trabalho para escolas, o diálogo com alunos do Ensino Médio já redimensionou e transformou o trabalho. Quando fomos para rua, a conversa também mexeu muito comigo, com a gente. Falar com o coração angustiado das pessoas, descontentes com o governo do PT nos últimos anos, mas ainda assim resistindo em votar em um candidato que está abertamente ameaçando os nossos direitos mais básicos, foi perturbador e me mobilizou muito e tem transformado a peça em vários sentido.

“Cérebro_Coração” é resultado de um processo criativo de sete anos, iniciado após a leitura dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. Mariana se debruçou sobre três pilares – memória, linguagem e neurociência. Durante o período de ensaios, decidiu testar o que tinha em apresentações em escolas públicas de São João de Meriti e Nova Iguaçu. “Não me interessa fazer espetáculo para uma bolha de gente, feita de pares e algoritmos”, a atriz se posiciona, “como fazer para que a massa fora da bolha vá ao teatro e se interesse? Penso que ir até eles pode ajudar a responder essa pergunta”. Os diálogos que sucederam as apresentações embrionárias para estudantes foram fundamentais para a versão final da peça.

(Foto: Leo Aversa)

– O espetáculo não é sobre Proust. Tem Proust mas tem muitas outras leituras ali. Tem Hilda, Clarice, tem textos meus, do Renato, do Kike, de varias colaboradores. É feito e pensado pra não ser fechado numa bolha e sim aberto a perguntas, questionamentos. Fizemos pra alunos de 16 anos e pra todo tipo de gente, de idades. A ideia é que ele seja assim, aberto, uma conversa simples, franca, poética. – explica.

Natural de São Paulo, Mariana Lima se tornou conhecida do público ao fazer par romântico com Fábio Assunção (de “Dogville”) na novela “O Rei do Gado” em 1996. De lá para cá, passaram-se mais alguns trabalhos na TV e muitos no cinema e, principalmente, no teatro. Durante dez anos, ela integrou o grupo Teatro de Vertigem e atuou em espetáculos memoráveis, tais como “Apocalypse 1,11” e “O Livro de Jó”. O Prêmio Shell, o mais desejado pelos artistas de teatro, ela já ganhou em 2011, com sua atuação em “Pterodátilos”, ao lado de Marco Nanini (de “Ubu Rei”). Questionada sobre as novas indicações, ela demonstra comedimento:

– Estamos muito felizes com as indicações, mas sinceramente não acredito que uma indicação valide um espetáculo. Nunca me pauto por isso na hora de assistir ou fazer uma peça. Acho que o prêmio é mais um estímulo à continuidade do trabalho e estamos honrados com ele nesse sentido. – pondera.

(Foto: Leo Aversa)

Ela está sozinha no palco, mas fala no plural porque o trabalho é coletivo. Sua dramaturgia foi desenvolvida em sala de ensaio com Enrique Diaz e Renato Linhares, que dividem a direção. São parceiros de longa data. Mariana já contracenou com Renato em “A Mulher Que Matou os Peixes… E Outros Bichos” (2009)” e foi dirigida pelo marido “A Primeira Vista” (2012), “A Paixão Segundo G.H.” (2002) e “Gaivota – Tema para um Conto Curto” (2006). Aliás, a lista de diretores com quem Mariana já trabalhou é invejável: Antônio Araújo, Márcio Abreu, Jorge Furtado, Jayme Monjardim, Cláudio Torres, Amora Mautner, Ricardo Waddington, Arnaldo Jabor, Daniela Thomas e Guilherme Weber. Fora os grandes nomes com quem contracenou. Hoje em dia, ela vê companheiros serem desrespeitados e insultados na Internet, reflexo também do descaso governamental com a cultura.

– A democracia está ameaçada, a educação, o direito dos trabalhadores, o meio ambiente, a saúde pública, a cultura estão sofrendo, penando, e correm sério risco de vida! – ela alerta – Temos que nos mobilizar, resistir e lutar pra que ainda possamos viver com instituições que garantam a cidadania, a liberdade de vida e de expressão. Pra isso, nós, trabalhadores da cultura precisamos continuar trabalhando pra que o teatro, o cinema, as artes em geral cheguem nas pessoas, pra fora das salas, das bolhas. Temos que ir pras ruas, praças, universidades, escolas, sensibilizando o maior número de pessoas.

(Foto: Mauricio Fidalgo)

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 70. 70 min. Classificação: 14 anos. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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