CríticaOpinião

Estúpido Cupido, com Françoise Forton, põe os anos 60 em cena

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Após anos com “Nós Sempre Teremos Paris”, a atriz Françoise Forton retorna ao universo musical com o inédito “Estúpido Cupido” – outra produção do marido Eduardo Barata. A peça trata do reencontro “da turma do colégio” em uma festa com temática dos anos 60, época em que eles estudavam juntos. A partir daí, todos voltam a se comportar como adolescentes, apesar de coroas, o que inclui provocações, flertes, competições, reconquistas e até bullying. A trilha, previsível, explora os sucessos da época, como “Biquíni de Bolinha Amarelinha” e “Banho de Lua”, proporcionando certa nostalgia para os espectadores que viveram a década de 1960.

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É uma comédia musical – mais comédia do que musical. As canções permeiam a história através de brechas frágeis e, na verdade, se todos os números musicais fossem retirados, a trama se manteria íntegra. Definições de segmento à parte, é importante ressaltar também a desconexão com a novela homônima de 1976. O protagonismo de Françoise Forton, o nome de sua personagem (Tetê) e o título da peça garantem a referência com o folhetim da TV Globo como estratégia para atrair público, mas não passa disso. O texto, escrito por Flavio Marinho (de “Sim! Eu Aceito! – O Musical do Casamento”), não tem qualquer relação com a teledramaturgia. Aqui, Tetê é uma atriz famosa que vai parar nesta festa de sua turma do colégio, com figurino dos anos 60, convencida pela amiga Aninha (Clarisse Derzié Luz, de “À Beira do Abismo Me Cresceram Asas”), que organizou tudo pelo Facebook. Lá, ela reencontra a rival Wanda (Sheila Matos, de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), o ex-marido Francisco (Aloisio de Abreu, de “Nós Sempre Teremos Paris”) e uma paixonite mal resolvida, Tadeu (Carlos Bonow, de “E Aí, Comeu?”), que aparece com a namorada décadas mais nova, Danielly (Carla Diaz, de “Confissões de Adolescente”). A presença desse ser estranho – a juventude contemporânea, ignorante de tudo que eles viveram – atua como ponto crítico da música, moda e comportamento dos anos 60, além de evidenciar a regressão mental dos convidados na festa a partir do reencontro.

O que marca a encenação é inocência de tudo. Aparentemente, essa foi a principal característica dos anos 60 pincelada por Flavio Marinho, e explorada pelo diretor Gilberto Gawronski (de “Ato de Comunhão”). As partes musicais, com direção de movimento de Mabel Tude e direção musical de Liliane Secco (de “Sim! Eu Aceito! – O Musical do Casamento”), também imprimem esse aspecto, com passinhos bobos e zero sofisticação. Não são muito atrativos, na verdade. Talvez seja mais interessante para quem revive, e não exatamente para quem vê. Um momento bom é Aloisio de Abreu cantando Frank Sinatra: o ator tem o melhor vocal do elenco principal. Na interpretação, estão particularmente bem o casal cômico Carlos Bonow, como o senhor garotão, e Carla Diaz, como a garota dos anos 2000. Carla proporciona os momentos mais engraçados na pele de uma piriguete sem noção.

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A produção é humilde, como o próprio material de divulgação frisa, mas digna. Não é um musical de grande proporção, com cenários impactantes e figurinos de grandes estilistas como o público carioca está se acostumando. É tudo bem singelo, elaborado por Clívia Cohen, que assina tanto cenografia quanto figurino (neste caso, com Clara Cohen). A iluminação (de Paulo César Medeiros), por sua vez, é colorida, um tanto trash, como pede o conceito implicitamente cafona. Quem passou pelos anos 60 tende a se identificar. A classificação é de 12 anos, mas me atrevo a indicar especialmente para a terceira idade. A boa forma de Françoise, aos 58 anos, impressiona todas as senhorinhas: é o elogio mais escutado durante a sessão.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50 (qui e sex) e R$ 60 (sáb e dom). 90 min. Classificação: 12 anos. Até 29 de novembro. Sala Baden Powell – Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360 – Copacabana. Tel: 2548 0421

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