.Papo de Artista

Eu tenho um projeto – Por Eber Inácio

(Foto: Divulgação)

Eu tenho um projeto. De montar esta peça. Vamos fazer uma leitura lá em casa? A leitura foi desmarcada zilhões de vezes. Uma vez a atriz não tinha com quem deixar o filho. Numa outra, o ator foi fazer um teste para uma web série. Numa outra oportunidade, todos ficaram ilhados em casa por causa de um vasto tiroteio pela cidade toda. Enfim conseguimos nos reunir para a leitura da peça. Só havia uma cópia do texto. Uns leram no celular, outros nem celular tinham pois havia sido roubado.

No final da leitura, todos muito animados: vamos montar esta peça. Onde? Como? E porquê?

Onde?
Conseguimos uma pauta e não foi furo de pauta, foi pauta mesmo de pauta, num teatro incrível. Teríamos um mês e pouco para levantar a peça.

Onde ensaiar? Conseguimos um local para os ensaios no Facebook. Os horários, nós inventamos um novo tipo de relógio. Recriamos os minutos e como medir e fracionar os dias. Enfim, o primeiro dia de ensaio na sala de ensaio. O problema de todas as salas de ensaio é sempre a chave da porta da sala de ensaio. Ela é mais importante que o ensaio, que o elenco, que a peça, ela é a abertura para que tudo aconteça. A chave de uma sala de ensaio sempre some, quebra, entorta. Pensei em colocar na ficha técnica o nome da chave.

Como?
Esta pergunta será respondida na ficção. A ficção sempre nos resgata. Conseguimos uma grana, um suporte financeiro legal de legalizado. Uma estrutura que dava para bancar tudo: cachê, técnicos, transporte, aluguel de equipamento, figurino, produção, e lanche para a produção no árabe da SAARA. Menos o ECAD, pois a peça não tem música nem letra de música nem citação de música. E a laranjada da SAARA tem que virar rubrica.

Porquê?
Justifique seu projeto. Qual a relevância dele? Qual a expectativa de público? Estratégia de marketing.

Acredito que todo espetáculo que está agora neste momento em cartaz tem um motivo para estar ali. Uma inspiração, um arranque, um tema. Entreter ou investigar a cena. Humor ou drama. Teatro para a infância e juventude. Teatro é para alguém. É um ato de se ver. Um acontecimento. E foi a gente que criou o teatro. Sim, foi uma invenção nossa.

Mas se tem gente que não quer se ver. Que não está a fim de refletir. De achar graça. Que acha feio se excitar. Que afasta o poder da instigação. Eu desconfio desta gente. Eu acredito que deve ter algo atrás disso. Alguma admiração por um passado. Onde todos só quebravam pedra. Pedra lascada. Pedra quadrada. Eu tenho certeza que, no dia que um antepassado criou a roda, um invejoso ficou passado. Ficou dando chilique, pois o negócio todo ia andar pra frente como numa dramaturgia.

Deixa a gente aqui com nossa roda pois chegou o dia da estreia. Foi linda a estreia. Seguimos em temporada. A lista amiga, fulano ainda não viu, fulana, o que fulana achou? Acho que sicrano amou mas a sicrana estava com uma cara de poucos amigos. Se eu fosse fazer teatro só para amigos, eu não iria gastar o papel da bilheteria, eu iria gastar o papel da comanda de chopp.

Saiu a crítica? E os jurados? O curador do festival veio? Tem que divulgar mais? Quantos curtiram a foto do evento? Vamos fazer uma parada aqui no Instagram. Impulsionar no Face. Choveu e a casa estava lotada. Placa de lotação esgotada é pra se tirar foto.

Fim da temporada. Início da segunda. Vai rolar o festival. No intervalo chamo os atores e digo:
Tenho outro projeto. Vamos fazer? Sim. Sim. Sim. A gente não fica parado falando do outro, a gente se mexe para falar com o outro. Pra frente, nós gostamos de mexer, de nos movimentar, a gente estala a coluna para estarmos de pé e caminhar.

Éber Inácio é ator, autor e diretor.

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