Papo de Artista

Eu Vou Morrer – Por Gustavo Vaz


(Foto: Jorge Bispo)

É isso. E você também, que me lê. Alguém precisava lhe contar. Os outros, claro, morrerão. Na era das fakes news, da terra plana, dos boatos, da desvirtuação do real, essa é a única verdade que nenhuma mensagem de Whatsapp ou notícia falsa pode confrontar.

A finitude deveria ser assumida. Debatida. Vivenciada. Diariamente. Essa noção estapafúrdia de que somos invencíveis, nos faz agir como deuses-do-pau-oco que acreditam poderem absolutamente tudo. Nos agarramos em celulares, roupas e objetos achando que umas coisas mortas nos manterão aqui. Quando o caminho parece ser tão, tão outro. É nas memórias que criamos com os que ainda respiram, nos encontros sentidos com a pele, com os olhos. É a partir do reconhecimento de que todos, sem exceção, terminaremos igualmente decompostos que então, começamos a permanecer.

O Teatro. Um dos lugares para se estar vivo. Espaço imenso na criação de memórias. Mesmo morrendo para cada novo personagem, nós, atores, ao nos esquecermos na coxia e entregarmos aos sobreviventes na platéia uma parte nossa e deles próprios, alargamos o tempo nosso e deles próprios. Tempo esse que alguns vem, ultimamente, tentando nos roubar. Esses alguns que são aqueles que não sabem o tempo, os silêncios, as entrelinhas. Esses que vêem a morte como uma ferramenta de aniquilação do que não entendem, do que tem medo. Esses que tem medo do amor, que se assustam com os sorrisos, que refutam a empatia; esses, já morreram e não sabem. Os poderosos mortos-vivos com seus ternos engomados, os abutres que criam factoides e alimentam confusões à frente de computadores e smartphones, esses, marcham ignorantes em direção à sarjeta da história, ao submundo da existência humana.

Se eles soubessem. Ah, se eles soubessem. Não se mata a poesia. Eu, morro. Você, morre. Mas o artista, a arte, os bonitos instantes que criamos, eu e você, ficam. Os encontros, ficam. São acontecimentos. Impossíveis de cortar-lhes o tronco, de jogá-los numa cela, de prendê-los numa caixa. Acontecimentos não se podem calar. Eles acontecem, para além das vontades, dos ódios. Ainda que sem apoio ou concordância. Os artistas, esses malditos, estão acostumados com a morte. Olham ela de frente. Hoje não, dizem. A cada folha em branco, a cada abrir e fechar de cortinas, a cada negativa, eles morrem e ressurgem, revivem mais fortes, brilhantes, criativos. Só eles sabem. Talvez você saiba. É, você mesmo, que depois dessas linhas se aproxima um pouco mais do fim, tanto quanto eu. Você, que morrerá, mas que já esbarrou no inexplicável. Confesse. Você sabe que a vida não é o que nos dizem ser. Ela está no que não parece. No cheiro bom do café pela manhã, nas primeiras vezes, no sorriso do filho, no peito apertado diante de um quadro, na última nota do violino que some no vazio.

Como explicar então a morte, a arte, para os que já morreram em vida? Seria como explicar a sensação de se abraçar quem estava longe. Explicar o gosto daquele bolo de fubá na infância. É racionalizar a beleza de se tocar o desconhecido. Então, sigo, de que forma explicar o teatro, a dança, a pintura e a música para quem tem os sentidos encobertos pela ignorância? Trabalham, os artistas, sobre o impalpável, o subjetivo, a utopia. Por que lutarmos pela existência e permanência do indefinível?

Tentar matar o teatro, os artistas, é tentar matar você, que me lê, antes da hora. É ceifar o seu direito à saudade. Aniquilar o subjetivo é dizimar o seu direito à alegria profunda quando diante do pôr do sol. A morte que querem nos infligir é a mesma que desejam jogar sobre você, arrancando seu direito às experiências lindas que não se definem. Querem que você morra agora. Defender a poesia é defender o pôr-do-sol, o seu bolo de fubá, o nosso direito ao amor. É defender o direito à própria existência a partir da existência do outro.

Eu vou morrer. Você também. Lembremo-nos disso, sempre. Mas, por enquanto, senta aqui e toma um café comigo. Me abrace. Abrace os seus. Se arrependa. Peça desculpas. Diga eu te amo. Logo. Muitas vezes. Sinta o vento. Vá assistir nossas peças, aquela exposição que está acabando.

A arte, ficará. O Teatro, sobreviverá. Os afetos, memórias e os encontros que criarmos, serão o que restará de nós mesmo depois de nós. E então, morreremos.

Mas não antes. Mesmo que eles queiram.

Antes, nunca.

Gustavo Vaz é ator, locutor, diretor, dramaturgo e artista transmídia.

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