Entrevista

Fabi Bang, Myra Ruiz e o efeito popstar pós-“Wicked”

Em seminário no Rio, dupla fala sobre a carreira, bastidores do musical e perspectivas para futuro

(Foto: Marcos Mesquita)

Ao protagonizarem “Wicked” no Brasil, as atrizes Fabi Bang (Glinda) e Myra Ruiz (Elphaba) tornaram-se uma espécie de popstars do teatro musical brasileiro. Esse é o musical favorito de muita gente e é cultuado com certa dose de fanatismo. As duas realmente ganharam fã-clubes e milhares de seguidores nas redes sociais. Dadas as devidas dimensões, elas são capazes de causar o mesmo frisson que qualquer ídolo pop teen quando decidem fazer uma “live” nas redes sociais. Ingressos para shows – sim, elas têm um show próprio – esgotam rapidamente. Qualquer foto que elas postam é amplamente curtida. E seus vídeos no Youtube são aguardados com expectativa, e bastante cobrados, pelo público. Para falar sobre essa ascensão no mercado, a dupla participou do 5º Seminário Carioca de Teatro Musical, realizado no Theatro Net Rio, em Copacabana, na segunda (27/8). Myra e Fabi têm ficado bastante no Rio, por conta dos ensaios de seu novo espetáculo, “Bossa Nova In Concert”, que na verdade fará temporada em São Paulo.

– Minha primeira referência no teatro musical foi a Claudia Raia. Não sabia que existia uma pessoa que fizesse tantas coisas ao mesmo tempo. – conta Fabi – Ela é uma empresa, não é só uma artista. Isso virou uma referência para mim: ser um produto na minha lojinha. Eu entendi ao longo dos anos que ela era um produto da lojinha dela. Eu vivo disso. O pessoal do teatrão já vai falar: “ai, que mercenária”. Mas não é. A minha subsistência vem disso, então você tem que ser empresário de si, ter uma visão de negócios. Ela é uma artista e tem essa visão de negócios.

Fabi fala literalmente: ela abriu uma lojinha virtual no Facebook, com camisas e canecas estilizadas entre R$ 25 e R$ 35. Depois de “Wicked”, que ficou praticamente um ano em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo, ela também estreou na TV, com um papel pequeno em “Rock Story”, e lançou um single, um clipe e um site ofical. Mas seus principais empreendimentos são com Myra, que ela considera “seu complemento”. Dar continuidade à parceria iniciada em “Wicked” parece a maior sacada da dupla. As duas têm o canal “Apenas Existindo” no Youtube e fazem juntas um show dirigido por Miguel Falabella, “Desafiando a Amizade”. Amigas de verdade, elas acreditam que se equilibram – pessoalmente e profissionalmente. Fabi conta que Myra é mais pé no chão do que ela.

Myra Ruiz e Fabi Bang: anunciadas de última hora para seminário, encheram o local numa manhã de segunda-feira (Foto: Leonardo Rocha)

– Eu sou muito ansiosa. Eu fiz a Elphava com 23 anos. Se eu for achar que a vida vai ser sempre assim, eu vou pirar. Não é isso. – diz Myra, que começou a carreira aos 17 e já estudou em Nova York – Agora eu tô fazendo um musical de bossa nova, com um universo muito diferente do meu… Na boa, não ouço bossa nova. Mas estou descobrindo que é tão rico quanto “Wicked”. Está sendo totalmente rico descobrir um universo, uma voz. Tão rico quanto. Quero estar sempre alimentada de coisas que me deixam feliz como artista. Quero fazer coisas que me inspirem, mas não necessariamente o papel mais importante do mundo.

Vencedora do Prêmio Bibi Ferreira pelo papel de Glinda, Fabi é um pouco mais velha – embora o corpinho, a carinha e o jeito espivitado enganem. Já com mais de 30 anos, ela não teme que os trabalhos fiquem escassos com o amadurecimento, ou que perca papéis importantes. Ela vê a profissão como uma oportunidade constante para se reiventar – hoje se faz a mocinha, amanhã a mãe, no futuro a avó. Ou ainda escreve, dirige, produz. “É uma percepção que parte do princípio de humildade, que falta em muita gente. Porém, você vai amadurecendo e ficando apto a fazer papéis que há dez anos você não podia. Se você é comprometido, tem paixão pelo que faz, os trabalhos não vao acabar, eles vão mudar. Você vai estar apto a fazer papéis diferentes, papéis maduros, papéis que exigem um repertório de vida que até então você não tinha”, ela discursa, em resposta a uma pergunta no seminário, “o que vai acontecer é que minha carreira vai se transformando. Isso é uma coisa que a gente tem que desapegar. O ‘Wicked’ foi muito fascinante para mim. A gente estava fazendo duas protagonistas de peso, mas minha vida não vai ser sempre essa. Não vou poder sempre fazer a Glinda, a Bela, mas daqui a pouco vou poder fazer a Madre Superiora, sabe? É você aceitar essa transformação de uma forma saudável”. Antecipando-se, ela já adicionou ao leque de opções youtuber e cantora. Resta aguardar o que o futuro reserva. Myra, por exemplo, quer tentar também teatro não musical: “eu tenho muita vontade de fazer uma peça, mas ainda não surgiu oportunidade”.

O convite, as duas dizem, é difícil, porque existe uma série de preconceitos envolvidos. O teatro musical ainda é discriminado dentro do chamado “teatrão”. O que elas fizeram em “Wicked”, então, ainda mais: uma franquia internacional – algo que faria Zé Celso vomitar. Esse tipo de trabalho é considerado engessado, enlatado americano. O ator Gabriel Leone, que fez Fyero em algumas sessões do espetáculo, depois disse: “desculpa a galera que faz, mas eu acho ruim franquia. Eu acho que vai de encontro ao ator-criador, o cara que vai receber um texto, um personagem, e vai criar, vai contribuir”. Myra e Fabi garantem que não foi o caso delas. O início do processo de “Wicked” se deu com uma semana de leitura e estudos dos personagens, com a diretora internacional ouvindo suas interpretações e contribuições. “Tudo que a gente pensava, a diretora acatou. O que as pessoas falam sobre franquia… eu nunca passei por isso. Eu tive total liberdade”, afirma Myra. A questão de marcações pré-estabelecidas tem a ver com a segurança do elenco, do maestro e do espetáculo em si. Dentro dessa estrutura rígida, porém, elas podiam fazer o que quisessem. Ao longo da temporada, acreditam que muito mudou.

– A diretora [gringa] é de uma generosidade absurda. O que ela traz com ela é o fato de estar há 14 anos fazendo “Wicked” no mundo e já ter visto todas as Glindas e Elphabas. Mas a gente foi muito privilegiada de poder fazer o que quisesse, claro, sem enlouquecer. A gente teve o privilégio de poder carimbar a nossa identidade. A gente ia propondo até o momento que ela mandasse parar. Não teve esse lance de engessar. Pelo contrário, tinha uma liberdade absurda. Eu fui descobrindo coisas e mudando coisas a temporada inteira. Humor você não faz sozinho, você faz com o público. – pontua Fabi.

Uma curiosidade revelada é que o “beijinho no ombro” que a Glinda fazia no musical foi tema de várias discussões internas. A direção americana não conhecia o gesto usado no Brasil, consagrado em clipe de Valesca Popozuda, e não entendia a graça. “Ela dizia ‘isso não vai funcionar, não entendo isso, por que você fez isso?’. Aí ela veio pro Carnaval e piorou: achou que tinha a ver com Carnaval. Ela falou: ‘não vi ninguém fazendo isso, lá no Rio ninguém faz isso, acho que isso não vai funcionar'”, lembra. De tanto insistir, Fabi acabou conseguindo uma concessão para testar o gesto em cena. Caso não funcionasse, era para tirar. Mas, na primeira vez que ela fez com o teatro cheio, o público gargalhou. A americana gostou.

Em 2016: dupla no palco como Elphaba e Glinda (Foto: Marcos Mesquita)

“Wicked” coroou a carreira das duas atrizes, que já tinham currículos bastante interessantes. Fabi Bang estreou no teatro musical em 2005 com “O Fantasma da Ópera”, trabalhando apenas como bailarina. Adorou e decidiu investir no segmento, fazendo aulas diárias para compensar seu déficit. Depois disso, fez carreira no ensemble (coro) de musicais como “Evita” (2011) e “Cabaret” (2011) ou como substituta eventual em “A Bela a Fera” (2009) e “A Família Addams” (2013). Enquanto audicionava para “Wicked”, ela já despontada na cena carioca como coadjuvante de “Kiss Me Kate – O Beijo da Megera”. O caminho de Myra até Elphaba foi parecido – com a diferença que ela começou a investir cedo no teatro musical. Fez cursos na adolescência e foi morar em Nova York antes de completar 18 anos para se preparar da melhor maneira. De volta ao Brasil, fez parte do coro de “Mamma Mia!” (2010), “Fame” (2012) e “Shrek, o Musical” (2012) até que conseguiu um papel de destaque em “Nas Alturas” (2014), que não teve sucesso de público. Depois, brilhou como Saraghina em “Nine – Um Musical Felliniano”. Coincidentemente, os últimos trabalhos das duas antes de se tornarem as bruxas de Oz foram com Charles Möeller e Claudio Botelho – bambambans do teatro musical brasileiro.

Para fazerem Elphaba e Glinda, o processo de audições e ensaios foi árduo. Myra admite que saía “todo dia chorando”, porque a diretora era muito intensa. “Ela tirou de mim o que eu nem imaginava”, conta. Na época dos testes, ela e Fabi estavam cumprindo temporadas no Rio e tinham que ir para São Paulo para cada etapa das audições. Às vezes, era pegar avião, desambarcar e ir direto do aeroporto para a frente da banca. “Foi muito pesado”, diz Myra, “ela malhava muito a gente, muito. Os últimos testes foram terríveis: 40 minutos cantando umas 70 vezes. Acho que ela estava testando nossa resistência vocal e nossa habilidade de pegar o que ela estava pedindo”. Myra nem achava que realmente pegaria o papel, por ser jovem demais. Só começou a botar fé quando uma diretora a abraçou, acompanhou até a porta e lhe falou para acreditar nela mesma. “Acho que ela falou isso para todo mundo, mas eu me senti bem e aquilo me deu uma força muito grande”.

Myra Ruiz (Foto: Reprodução / Instagram)

No caso de Fabi, os testes eram sempre mais rápidos. Para se preparar, ela assistiu tudo que existia de “Wicked” no Youtube, viu todas as Glindas do mundo, e acabou chegando muito montada para o que devia ser só um teste de canto. Ela já fazia trejeitos e cacoetes da personagem. Não agradou, mas ganhou uma chance.

– Isso foi muito ruim para mim. Ela falou para mim “não é nada disso, vai pra casa pensar. Quero que você volte semana que vem zerada, quero que você cante, eu só queria ouvir você cantar, você mascarou seu canto com um monte de outras coisas que não fazem sentido pra mim”. Eu saí chorando, mas segui a risca o conselho dela. Entendi que ela queria me dirigir. Foi muito importante entender que não é tão bom você chegar muito preparado. Você tem que estar disponível para ser dirigida. A disponibilidade é mais importante. Uma coisa que eu entendi é que, independente de quem estiver na minha frente [na banca], a magia tem que acontecer de algum jeito. Todo mundo que chegou em determinada fase de audição comigo canta o suficiente, tem a altura necessária, o perfil necessário. O que vai fazer com que alguém se destaque? A magia acontecer. – pondera. – No último dia, a banca chorou de rir, e eu saí muito otimista do teste. Morreram de rir, e eu queria isso.

Fabi Bang (Foto: Gustavo Arrais)

O que foi choro durante testes e ensaios depois foi só risada. Fazer “Wicked”, para elas, era a realização de um sonho. Elas tiveram as primeiras protagonistas da carreira com teatro lotado e público apaixonado – o que significava também uma responsabilidade até então não carregada. “A gente tinha um padrão de exigência absurdamente muito alto. Se a gente não alcançasse o objetivo que a gente queria alcançar, era uma frustração, como se a gente tivesse de cara com a derrota”, lembra Fabi. Para ela, uma grande lição foi aceitar que cada dia é um dia, e que nem sempre ela vai estar em seu 100%. Ainda mais com cinco sessões semanais. “A emoção existia, a magia acontecia, mas era uma empresa. Como toda empresa, tem dias que a gente não quer estar lá trabalhando, mas o show vai ter que acontecer. Então, faça o show acontecer, realize o show de uma forma saudável, e amanhã venha melhor. Amanhã vai ser um novo dia e você vai fazer um show melhor. Hoje você não está conseguindo brilhar? Cumpra”, diz a atriz. Myra também fala com sinceridade sobre o lado “não mágico” de fazer um espetáculo desse porte. Quando a temporada acabou, ela sentiu que realmente “precisava” daquilo. Em vídeo postado no Youtube, ela confidenciou: “é uma rotina muito, muito pesada: todos os dias, de quinta a domingo, às vezes quarta-feira, sem parar o ano inteiro. Não tinha uma semana que parava, a não ser que ficasse doente. Eu fazia com todo prazer do mundo, mas estava exausta. Estava desesperada por uma pausa. Poder respirar um pouco, poder entrar em um restaurante e não me preocupar se o ar condicionado ia me deixar doente, sem voz”. No mesmo vídeo, porém, ela sintetiza essa magia que tanto falam e que criou uma conexão com os fãs: “eu sei o quanto esse show tocou muitas pessoas, e vou sentir muita falta de contar essa história. (…) Não vai ter nada igual”.

(Foto: Reprodução / Marcos Ribas / Brazil News)

*Redação: Leonardo Torres.
*Colaboração: Paulo Fernando Góes.

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