Plantão

Fabiana Cozza renuncia papel de Dona Ivone Lara em musical

Depois da polêmica sobre o clareamento de Dona Ivone Lara, a cantora Fabiana Cozza tomou a decisão de abandonar o papel protagonista do musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”. Desde o anúncio de sua escalação, as redes sociais da artista e do espetáculo vinham recebendo críticas, em geral, pelo tom de sua pele. Fabiana Cozza foi considerada “branca demais” para viver a sambista, que era uma negra retinta, ou seja, de pele escura. Em comunicado oficial, a cantora listou várias razões para sua renúncia ao trabalho, apontando: “a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu”. Ela, no entanto, afirma ser negra, filha de mãe branca e pai negro. Na certidão de nascimento, está como “parda”.

(Fotos: Kriz Knack / Wilton Montenegro)

Fabiana Cozza, querida pela família de Dona Ivone Lara, foi indicada para vivê-la no teatro pela nora da homenageada. O convite partiu da produção, que engloba o idealizador Jô Santana, o diretor Elísio Lopes Jr. (de “A Volta de Tia Má Com a Língua Solta”) e o diretor musical Rildo Hora (de “Andança – Beth Carvalho, o Musical”). Ninguém achou que o tom claro de sua pele era um problema. A equipe criativa deu mais atenção às suas credenciais, como o Prêmio da Música Brasileira de melhor cantora de samba e sua parceria com Dona Ivone Lara. Elas já gravaram e se apresentaram juntas.

As críticas vieram por conta de uma tendência da indústria cultural de “clarear” narrativas, algo que acontece há séculos, desde que se consolidou a imagem de Jesus Cristo como um homem branco de olhos azuis. Na TV e no cinema, até hoje escalam-se atores brancos para personagens que, originalmente, não os eram. Existe um nome para isso: “whitewashing”. É diferente de “blackface”, quando um branco pinta a pele para interpretar um negro. No “whitewashing”, o próprio personagem – existente – é “clareado”. Muitos vieram a escalação de Fabiana Cozza como mais um caso disso. Outros, no entanto, identificam colorismo em quem não vê a cantora como negra somente por conta da quantidade de melanina em sua pele. De acordo com o colorismo, não é só a cor da pele que define a etnia – embora os negros retintos, os mais escuros, sejam os que mais sofram preconceito, indiscutivelmente. Quanto mais claros mais socialmente aceitos.

(Foto: Facebook Dona Ivone Lara – O Musical)

– Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renunio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oco por dentro. E virar pensamento por horas. – escreveu a cantora.

O musical estreia em 22 de março de 2019 no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e segue para o Rio de Janeiro depois. Na última semana, aconteceram audições para seleção do elenco. Atrizes como Adriana Lessa (de “Musical Popular Brasileiro”), Isabel Fillardis (de “Lapinha”), Maria Ceiça (da novela “Os Dez Mandamentos”) e Ludmillah Anjos (de “Ghost”) fizeram os testes.

Leia o comunicado de Fabiana Cozza na íntegra:

Fabiana Cozza dos Santos, brasileira

Nascimento: 16 de janeiro de 1976

Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca

Pai: Oswaldo dos Santos, negro

Cor (na certidão de nascimento): parda

“Aos irmãos:

O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres – que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.

Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.

Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.

Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.

Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.

Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas…

Ao lado de vocês, irmãos.

Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.

Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.

Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.

Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.

Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.

Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.

Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.

Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.

Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.

Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.”

Fabiana Cozza

Comentários

comments