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Fantasma da censura no Castelinho do Flamengo causa desapontamento geral

(Foto: Julie Brasil)

É grave o cancelamento da programação do “outubro da diversidade” no Castelinho do Flamengo. Os artistas já estão usando a palavra censura para se referir ao ocorrido. O ator Hugo (não usa sobrenome), do espetáculo “Bicha Oca”, postou no Facebook: “censura?”. A artista Julie Brasil, que faria parte da exposição coletiva de fotografia e artes visuais “Curto-circuito”, também se posicionou, em entrevista ao jornal O Globo: “que diversidade é essa que está sujeita a uma censura moral?”. Todos estão assustados e indignados. Uma fonte do Teatro em Cena dentro do Castelinho do Flamengo afirmou, em condição de anonimato, que realmente se trata de uma censura ao evento – que contaria com espetáculos, performances e exposição de conteúdo LGBTQ. Muita nudez e erotismo estava prevista ser exposta.

No dia marcado para a estreia da programação, o local fechou suas portas com um aviso colocado na porta: “devido a pane elétrica, o Castelinho do Flamengo está com visitação suspensa”. Aos artistas previstos para se apresentarem, foi enviado um e-mail informando que o centro cultural estava interditado por tempo indeterminado. Uma posição seria dada após um laudo técnico. Os artistas que foram ao Castelinho, no entanto, viram luzes acesas, Wi-Fi ligado, computadores funcionando. A única diferença era o portão fechado.

Cena de “Bicha Oca” (Foto: Gabryel Sampaio)

– A gente deu de cara com uma certa má vontade por parte da administradora do espaço. – conta Hugo, que viajou de São Paulo para o Rio de Janeiro especialmente para apresentar “Bicha Oca”, a convite da Secretaria de Cultura do Rio – A gente falou que era de responsabilidade deles encontrar uma solução, nem que fosse encontrar outro espaço para a gente se apresentar, e a postura dela era de quem não estava ligando muito para isso. Já existia uma postura de preocupação com o teor do nosso trabalho, sim, bem como o teor da exposição que seria inaugurada no mesmo dia. Quando a gente chega lá e é alegada uma pane que não existe para cancelar a apresentação, não tem como a gente não ficar ressabiado e vincular isso a um censura pelo teor do trabalho. A própria administradora do espaço disse para gente que havia “vazado” o teor da exposição, que estava sendo montada, e também do que ia rolar na peça.

Pelo WhatsApp, circula o vídeo de um homem mostrando fotografias e quadros da exposição em tom de reprovação ao conteúdo. Ele se dirige ao prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. O remetente não aparece no vídeo e apenas recrimina as fotos expostas, que mostram homens nus e casais homoafetivos. Coincidência ou não, depois disso se deu a “pane elétrica”. Nos bastidores da administração do Castelinho do Flamengo, já se comentava a possibilidade de retirar algumas peças da exposição, ou barrá-la por completo, para “evitar problemas”. Nesta semana, o prefeito vetou a ida de “Queermuseu”, outra exposição, para o Museu de Arte do Rio (MAR), alegando que “a população não está interessada em exposição de pedofilia e zoofilia”. Ensaios técnicos do Carnaval também foram cancelados. A Prefeitura é acusada de governar sob preceitos religiosos.

À produção de “Bicha Oca”, já havia sido pedida a retirada de uma cena de masturbação. O espetáculo, já apresentado 130 vezes em 18 cidades, é ousado e tem apoio do aplicativo de pegação Hornet. A peça se inspira em contos homoeróticos de Marcelino Freire para contar a história de um homossexual envelhecido, que revisita seu passado. Seria a primeira vez que seria apresentada o Rio. A equipe, na verdade, ainda espera uma posição definitiva da Secretaria de Cultura sobre seu destino.

“Nascituros” (Foto: Danillo Sabino)

Outro espetáculo previsto para a programação do outubro da diversidade do Castelinho do Flamengo era “Nascituros”, do Tríptico Coletivo. Em uma das reuniões, os artistas também foram sondados pela administração do local sobre o conteúdo da história. A trama acompanha um casal dez anos após sua separação: uma das partes quer escrever uma peça sobre o passado e a outra quer impedir a exposição da história. Irônico. O espetáculo nasceu em ambiente universitário e começaria sua primeira temporada profissional na quinta (5/10). John Marcatto, autor do texto e ator do elenco, está profundamente desapontado.

– Nesse momento, me sinto anestesiado diante de tudo que aconteceu. Depois de meses escrevendo, ensaiando, produzindo, para acabar assim?! Parece-me no mínimo injusto. Injusto para com as pessoas envolvidas. E por quê? Porque alguém acha que pode dizer como o outro tem que pensar, como tem que agir e o que tem que usar.

Por enquanto, todos aguardam uma posição da Secretaria de Cultura e do Castelinho do Flamengo para saber como prosseguir. Curiosamente, o mesmo locou sediou a estreia da “Ocupação Rio Diversidade” no ano passado, com enorme sucesso de crítica.

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