Entrevista

Felipe de Carolis comemora sucesso de sua primeira produção: Incêndios

O ator – e agora produtor – Felipe de Carolis recebe o Teatro em Cena para uma conversa no Teatro Poeira, em Botafogo, sete meses depois de fazer de “Incêndios” um sucesso. É a segunda temporada do espetáculo no local, depois de ter percorrido várias cidades e se apresentado para plateias com mais de mil pagantes, atraídos principalmente pela presença da Marieta Severo (de “As Centenárias”) no elenco. Além disso, a peça rendeu o Prêmio Shell ao diretor Aderbal Freire-Filho (de “Deixa Que Eu Te Ame”) e o Prêmio Questão de Crítica para o ator Marcio Vito (de “Cozinha e Dependências”). Fora as dez indicações ao APTR, que acontece na quarta (8/4). Tudo isso foi possível graças à iniciativa do Felipe, que idealizou o projeto e, por que não dizer, teve cara de pau.

(Foto: Léo Ladeira / Divulgação)

(Foto: Léo Ladeira / Divulgação)

Ele decidiu montar “Incêndios” quando assistiu à adaptação cinematográfica do filme, indicada ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Nunca tinha produzido nada. Sua experiência era apenas como ator, em musicais famosos, como “O Despertar da Primavera” e “Beatles Num Céu de Diamantes”, da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Nada parecido com a tragédia contemporânea que é a história escrita pelo libanês Wajdi Mouawad. Mas ele ficou impressionado com a qualidade dramatúrgica, e uniu a oportunidade ao desejo de trabalhar com Aderbal e Marieta. “Eu não sabia como, aos 20 anos, ia me infiltrar em um lugar que é estabelecido. Como eu trabalharia com meus ídolos? Só oferecendo a eles uma história incrível, com personagens irrecusáveis”, explica. Mais do que isso: para liberar os direitos, Wadji exigia um nome forte no elenco e um teatro definido para a estreia. Sem que ninguém soubesse, Felipe mandou os nomes do Aderbal, da Marieta e do Poeira para o escritório do dramaturgo na França. Ou seja, mentiu. Mas conseguiu o sinal verde, assim, falou de verdade com a dupla – que aceitou o convite imediatamente. “Não teve um momento em que decidi me tornar produtor, mas escolher a peça que você vai fazer diz muito sobre a carreira que você vai construir. A Marieta é um exemplo disso, porque escolhe o que vai fazer desde 1970. Esse, inclusive, é o primeiro que ela não escolheu desde então”. Ela também se tornou produtora da peça. Foi sua condição. O time ficou formado por ela, Felipe, Pablo Sanábio e Maria Siman.

Felipe em cena com Marieta Severo. (Foto: Divulgação)

Felipe em cena com Marieta Severo. (Foto: Divulgação)

Todos sabiam que tinham um texto de impacto em mãos, mas talvez não imaginassem a repercussão que alcançariam com o público e a crítica. Estreado em setembro de 2013, a trajetória do espetáculo durará pelo menos até o ano que vem. Fica no Rio até julho, vai para São Paulo em setembro, e retoma a turnê por outras cidades em 2015. Nada mal para um estreante, que até já pensa em montar outra peça do mesmo autor. Ele não revela qual, porque ainda não adquiriu os direitos, mas dá pistas. “Tenho vontade de fazer uma outra dele, sim. Se eu puder dançar e cantar, melhor ainda. Todos os espetáculos dele têm personagens que cantam, então quero juntar o útil ao agradável”.

Em “Incêndios”, Felipe de Carolis vive Simon, filho da protagonista Nawal Marwan (Marieta), e irmão gêmeo de Jeanne (vivida por Keli Freitas, de “Mente Mentira”). Ele é um lutador de boxe pouco educado e revoltado com sua condição de vida. “Não foi amado por ninguém, nem pela mãe”. Na história, os gêmeos redescobrem quem é essa mãe a partir da morte dela, que deixa um testamento pedindo que entreguem cartas a um pai e um irmão que não sabiam que existiam. A trama vai e volta no tempo, ambientada principalmente na guerra civil do Líbano – embora o país não seja especificado. Para imergir nesse universo, Felipe e Marieta montaram uma biblioteca no teatro e faziam leituras coletivas durante os ensaios. Também convidaram vários especialistas para workshops com o elenco. Houve muito estudo e pesquisa. “A gente veio com uma base muito sólida e isso é fundamental nesse estilo de espetáculo”, observa. “Na peça, não falamos nome de guerra, de facção ou de país, mas sabemos exatamente o que estamos dizendo. A gente estudou muito e acredito que isso faz diferença. Pra mim, faz”.

É uma experiência completamente diferente de um musical, por exemplo. Felipe faz questão de ressaltar que não acha que um seja melhor do que o outro, mas “Incêndios” lhe proporcionou uma criação coletiva, algo que não conhecia antes. “Musical é um quadro pintado, com um lugar para te encaixar”. No espetáculo do Wajdi Mouawad, ele tem uma participação inédita, principalmente por seu trabalho de produtor, e diz que Aderbal Freire-Filho não desperdiçou nada. “Eu e ele temos uma diferença de 50 anos, e tudo o que queria era ouvi-lo falar e ver o quanto eu era ignorante perto dele. Ele é genial e estava muito apaixonado pelo espetáculo”, fala. “Eu só queria estar com eles. É impressionante como o Aderbal foi generoso com minhas propostas”.

Aderbal Freire-Filho e Felipe de Carolis após o fim de uma sessão. (Foto: Reprodução / Internet)

Aderbal Freire-Filho e Felipe de Carolis após o fim de uma sessão. (Foto: Reprodução / Internet)

Foi ideia do Felipe, por exemplo, que a atriz Fabianna de Mello e Souza (de “Instantâneos”) fizesse cinco personagens seguidas sem sair de cena. “Em momento algum Aderbal achou que não ia dar. Ele amou a proposta e a fez crescer”. O jovem também sugeriu que Marieta interpretasse as três fases da história dessa mãe sofrida, que tem o filho arrancado do ventre e passa a vida tentando reencontrá-lo, é presa, torturada, estuprada e passa os últimos anos da vida calada, em uma espécie de choque. Em todas as outras montagens da peça, Nawal é interpretada por três atrizes. “Incêndios”, vale ressaltar, foi encenada em 15 países até o momento, e foi premiado no Canadá, na Bélgica e na França, onde recebeu o Molière.

É uma história de impacto universal. “Acho que todo mundo se identifica com a história de amor dessa mãe em busca do filho, e com a história de violência também”, analisa Felipe, que divide o palco ainda com Julio Machado (de “As Meninas”), Isaac Bernat (de “Besta do Marido”) e Kelzy Ecard (de “As Confissões de Leontina”). “Todos os personagens são muito bons e têm virada – começam de um jeito e terminam de outro”. O ator – e agora produtor – define “Incêndios” como um presente que se deu, com a oportunidade de realizar um trabalho diferente. “Com a Marieta, aprendi que nossa vida de ator é basicamente isso: fazer coisas que não imaginam a gente fazendo. Espero que, em outros momentos, as pessoas vejam em mim algo que nem eu vejo”.

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