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Fernanda Montenegro dá dica para jovens atores

(Foto: Divulgação)

“Sempre me perguntam ‘como posso chegar a ser ator?'” – conta Fernanda Montenegro. A resposta, ela tem na ponta da língua: “primeiro vê se pode viver sem isso. Se pode viver sem isso, não venha pra isso. Agora, se morrer porque não está nisso, não tem saída. Mas tem que pesquisar o seu vital, compreende? Não venha por acaso para ficar um tempo, para ver ‘se eu dou pra isso’. Se disser ‘quero ver se eu dou pra isso’, em arte em geral… não vai dar pra isso, não. Eu acho que você, com talento, mas sem vocação, você não é nada. O primordial é a vocação, é o chamamento. Esse chamamento, se for absoluto, você vai chegar ao talento”. O discurso foi feito em entrevista à produção do Prêmio Cesgranrio e exibido em cerimônia fechada para convidados no Copacabana Palace no mês passado. O Teatro em Cena traz o vídeo logo abaixo.

A vocação é algo que Fernanda admite que seu marido Fernando Torres (1927-2008) tinha ainda mais do que ela. Mesmo no fim da vida, quando não estava mais trabalhando, de vez em quando ele falava “vamos ensaiar”, porque era o que tinha feito em toda sua trajetória. Ela valoriza muito o trabalho árduo. “Dou como exemplo Sérgio Britto, meu amigo, companheiro, meu irmão de vida. Era absolutamente incapacitado, mas tinha uma vocação astronômica, jupiteriana! Dou ele como exemplo. Na minha vivência, nunca vi alguém tão destituído de possibilidade cênica. Claro, longos anos, dando conta dessa chamada”, disse a atriz, “não me vejo em outra vida. Nada foi fácil. Quando a gente vai sobrevivendo em qualquer ramo, parece que você já nasceu ali. Não. A gente não pode deixar de fazer essa profissão, gente. É uma condenação. É uma profissão vital. Você existe com aquele personagem”.

Sobre o teatro, Fernanda Montenegro aposta em sua sobrevivência apesar da crise no universo das artes no Brasil. “O ator vai continuar. Ah, mas isso não tem dúvida. Ele é pré-Homero! Tá aí a ciência e a tecnologia dominando tudo, mas vai se encontrar a linguagem dessa nova era através do ator, porque é indispensável a presença carnificada do outro ser humano diante de você. É isso. Não tem como acabar o teatro. Ele vai descobrir nova linguagem, sem dúvida nenhuma. Isso já aconteceu nesses milênios todos, desde o mais arcaico. Por que vai parar? Não vai parar. Tem que encontrar a linguagem do seu tempo… e vai encontrar”, conclui.

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