Entrevista

Fernanda Souza estreita relação com público em monólogo autobiográfico

A atriz Fernanda Souza está rodando o país há sete meses com uma peça diferente de tudo que fez antes. Trata-se de “Meu Passado Não Me Condena”, monólogo autobiográfico que recria a história de sua carreira. Assim, ela fica ocupada de segunda a sexta com as gravações de “Malhação” no Rio de Janeiro e viaja com o espetáculo para diferentes cidades nos fins de semana. Nas horas vagas – quando existem – ela cuida dos preparativos para o casamento com o cantor Thiaguinho, previsto para o ano que vem, em São Paulo. Com a agenda tão cheia, não foi exatamente uma surpresa quando sua assessoria pediu que a entrevista para o Teatro em Cena fosse realizada por e-mail. Atolada, ela respondeu 12 dias depois. Neste período, ela ainda posou para um ensaio fotográfico, além de todos os compromissos de praxe.

Pôster de divulgação de "Meu Passado Não Me Condena".

Pôster de divulgação de “Meu Passado Não Me Condena”.

A turnê da peça – que nunca teve uma temporada fixa por mais de dois fins de semana em nenhum teatro – vai se estender por mais este ano. Fernanda viaja com três pessoas (produtora, iluminador e diretor de áudio e vídeo) para os mais diversos cantos do Brasil. Já se apresentou no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste e no Nordeste (e até os EUA estão em seus planos), em teatros para mais de mil cabeças. Os perrengues, claro, fazem parte do percurso. “Já perdi voo presa do trânsito que estava parado por causa de uma obra…”, lembra a atriz, que ainda tem que lidar com o assédio dos paparazzi quando passa pelos aeroportos do eixo Rio-São Paulo. Mas ela tira isso de letra.

Os perrengues não são novidade para ela. Na peça, que tem ares de stand up comedy, Fernanda fala muito sobre os percalços pelos quais passou para se tornar uma atriz bem sucedida, com a garantia de um contrato firmado com a TV Globo. Ela lembra do primeiro dia de aula na Argentina, quando se mudou aos 12 anos, sem falar espanhol, para gravar a novela “Chiquititas” (1997); de quando fez uma peça do Oswaldo Montenegro e, no fim das sessões, recebia apenas R$ 30 pelo trabalho; e quando se dopou para encarar uma viagem na estrada, durante a turnê de outra peça, “Beijos de Verão” (2004), e caiu na frente do contratante ao descer do carro. Como dá para imaginar, ela provoca muitas risadas. “Nunca imaginei que faria um stand up, e nunca pensei na peça dessa maneira. Penso nela como uma atriz querendo compartilhar os bastidores de sua profissão com o público”, explica a artista, que não nega apostar no humor para isso. “Sou eu mesma no palco! Sinto-me muito à vontade assim. Só interpreto quando revivo cenas que aconteceram na minha vida quando eu era mais nova. De resto, sou eu ali, até demais!”.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Fernanda demonstrou sua veia cômica em trabalhos televisivos como “Alma Gêmea” (lembra da Mirna?), em 2005, e “Toma Lá, Dá Cá” (e da Isadora?), em 2007, mas neste espetáculo ela vai além, exposta e aberta às frequentes interações com os espectadores. Chama a atenção, também, que o roteiro é assinado por ela. Mas Fernanda não dá o valor merecido ao seu trabalho de autora. “Eu não escrevi nada. Quem escreveu foi Deus. Eu só passei para o papel. Na verdade, para o iPhone!”, brinca. “Minha peça está toda dentro do celular!”. A ideia para o projeto surgiu no início do ano passado, quando ela assistiu ao monólogo “Tudo é Tudo e Nada é Nada”, do Marcelo Serrado. “Achei legal saber aquelas histórias, saber mais da trajetória dele… Em um jantar com Léo Fuchs, que é o produtor do Marcelo na peça, decidimos fazer algo parecido. Aí achei que era uma ótima oportunidade para contar às pessoas os bastidores da vida de um ator”.

Fuchs, nas palavras da própria atriz, é seu melhor amigo, além de co-autor e produtor do espetáculo. Os dois contracenaram em “Beijos de Verão” e retomaram a parceria em “Um Sonho Para Dois” (2012), no qual ela atuava e ele produzia. “Trabalhar com ele é a melhor coisa do mundo! Contei todas as histórias da minha vida, ele me ajudou a escolher as melhores, e depois pus tudo no papel! Não faria esse espetáculo com nenhum outro produtor…”. A segurança de estar entre confiáveis levou a atriz a incluir na peça seu romance com Thiaguinho – assunto que evita em entrevistas. O homem com quem pretende se casar não podia ficar de fora de um monólogo sobre sua vida.

Thiaguinho e Fernanda em um dos camarins do Projac. (Foto: Divulgação/TV Globo)

Thiaguinho e Fernanda em um dos camarins do Projac. (Foto: Divulgação/TV Globo)

Fernanda Souza conta abertamente como eles se conheceram, por intermédio do ator Rafael Zulu, com quem trabalhou em “Ti-Ti-Ti” (2010). Os dois começaram a trocar mensagens pelo celular depois de um show e, certo dia, Thiaguinho enviou: “você sabe que eu posso ser o homem da sua vida?”. Eles ainda nem haviam ficado. “Pensei: depois do primeiro beijo, ele vai escrever uma música pra mim”. A história rende alguns dos momentos mais engraçados do texto, como o primeiro encontro deles, no drive-thru do Mc Donald’s, para fugir dos paparazzi.

Do óbvio, porém, não dá para fugir: Fernanda é superfamosa e assediada aonde quer que vá. Nas viagens da turnê, ela sempre reserva tempo para atender os fãs depois das sessões. É normal que (grande) parte do público, ainda mais em cidades pequenas, fique esperando-a para tirar uma foto depois de ter rido com seus causos. Ela acredita que isso faz parte do seu trabalho. “Não tem essa de ‘não estar a fim’”, afirma. “Sempre estou disposta a fazer isso após a peça. E peço que ponham [a hashtag] #meupassadonaomecondena, porque só assim posso ver todas as fotos, curtir e ler o que acharam da peça! São declarações lindas…”.

Fernanda na passagem da turnê por Brasília. Ela fez duas sessões para 1.400 pessoas e depois tirou fotos com todos que pediram. (Foto: Reprodução/Instagram)

Fernanda na passagem da turnê por Brasília. Ela fez duas sessões para 1.400 pessoas e depois tirou fotos com todos que pediram. (Foto: Reprodução/Instagram)

Ninguém pode dizer que ela não se esforça para estreitar a relação com os espectadores. Depois das sessões, muitos dizem que se sentem amigos íntimos dela, por terem conhecido tanto de sua história de sua própria boca. Para Fernanda, missão cumprida. “O Thiago fala que tem que assistir à minha peça uma vez por mês para relembrar o quanto gosta da minha história”, fala. Ele é suspeito, é claro. Mas o fato é que uma peça sobre si mesma tinha tudo para ser arrogante, narcisista e egocêntrica, e não é. A atriz realmente consegue se humanizar diante do público e se aproximar de cada pessoa sentada na poltrona. Quando ela curte as fotos no Instagram, então, é quase como fazer parte da mesma panelinha. Fernanda sabe fazer seu trabalho.

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