Financiamento coletivo: ainda funciona? – Teatro em Cena
Comportamento

Financiamento coletivo: ainda funciona?

Financiamento coletivo perde força e projetos teatrais amargam pouca ou nenhuma adesão

Cerca de seis anos após o boom dos sites de financiamento coletivo, a estratégia para arrecadação de fundos perde força no mercado. Vista por muitos produtores como uma luz no fim do túnel, a ideia da “vaquinha virtual” enfrenta dificuldades para conseguir adesão hoje em dia. Basta dar uma olhada no Catarse, a principal plataforma para levantamento de recursos coletivamente. Dos 37 projetos cadastrados na categoria “teatro e dança” no site atualmente, apenas um está com mais de 50% de sua meta alcançada. Isso porque o valor pedido é pequeno: R$ 2,7 mil. A maioria dos projetos não chega a 10% de seu objetivo.

A saturação é uma das principais causas apontadas por produtores teatrais para o insucesso. Tente lembrar: quantos pedidos de contribuição chegaram a você no último mês? Seja por Facebook, Whatsapp ou Instagram, os espectadores são impactados constantemente com campanhas de “crowdfunding” – o nome gringo da vaquinha. “Acabamos inflando essa forma de captação e as pessoas, por já terem ajudado muito, pararam de se mobilizar”, diz o ator e produtor Mau Alves, da Cerejeira Produções.

Outra razão óbvia para a diminuição na adesão é a crise econômica. No financiamento coletivo, o contribuidor destina certa quantia, que pode ir de dez a milhares de reais, em busca de recompensas que serão entregues semanas ou meses depois. Com a diminuição do poder aquisitivo, os espectadores querem respostas imediatas. Os mesmos R$ 10 que investem para levantar um espetáculo daqui a três meses serve para ver algo em cartaz agora mesmo.

– As pessoas estão escolhendo muito bem onde gastar dinheiro e o lazer sempre é o primeiro a ser cortado do cotidiano do cidadão comum. – aponta o ator e produtor George Luis Prata – O financiamento coletivo é o pré-lazer, você paga agora e só vai ter o resultado do investimento em semanas ou até meses. Se a pessoa tiver dinheiro, ela provavelmente irá em uma opção mais imediata.

Claro que existem casos de sucesso – e também os de sucessos aparentes. O arquivo do Catarse mostra que o espetáculo “Zoológicos”, de John Marcatto (o mesmo de “Nascituros”), bateu sua meta de R$ 5,5 mil em 2017 para uma temporada na Sede das Cias. Mas quem foi que disse que os números não mentem?

– Pra ser sincero, a gente conseguiu R$ 2,8 mil, algo do tipo. A gente tirou o resto do bolso, porque a condição era “tudo ou nada”. Diziam que esse esquema tinha maior adesão. Baseado em uma pesquisa do site, o “tudo ou nada” geralmente tem mais sucesso. Mas não rolou. Para não perder os R$ 2 mil e pouco que conseguiu, a gente precisava colocar dinheiro para completar e poder tirar. Eu lembro que a gente colocou uma grana, entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil. – conta o autor e produtor do espetáculo.

Ele acredita que o crowdfunding não funciona mais para teatro. Já cogitou fazer de novo, mas desistiu. George e Mau são mais otimistas. George, inclusive, produz um espetáculo que está com vaquinha virtual aberta, “Yank – O Musical”. Na opinião dele, as pessoas contribuem quando são tocadas pelo projeto: “seja pela temática ou por ter amigos ou familiares envolvidos”. Mau acha que os espetáculos inéditos têm mais chance. “O ineditismo da obra chama mais atenção e as pessoas se sentem mais motivadas a ajudar por ver que aquele projeto nunca saiu do papel”, diz o produtor, “só sei que está cada vez mais difícil de produzir, mas acredito no coletivo, na força da união das pessoas e espero que nós, produtores independentes, continuemos a tentar sempre”.

(Foto: Reprodução)

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