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Fundição Progresso salva Jesus travesti da censura

Os produtores locais de “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” encontraram uma saída para realizar a apresentação no Rio de Janeiro, um dia depois do prefeito Marcelo Crivella admitir censura no cancelamento do espetáculo na Arena Carioca Fernando Torres, espaço administrado pela prefeitura em Madureira. A Fundição Progresso, casa privada na Lapa, ofereceu suas dependências para receber a peça no sábado (9/6). Ela será apresentada às 19h, com entrada franca, como parte da Mostra Corpos Visíveis – que visa “desmistificar a existência do diferente através da convivência e do lúdico”.

(Foto: Foto: Leonardo Pastor / Divulgação)

Foi uma semana estressante até chegar a essa solução. Na segunda (4/6), a organização da mostra recebeu uma notificação da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) informando que a arena carioca não estaria disponível para receber a programação prevista. Os produtores receberam a novidade com surpresa. Paralelamente, Crivella declarou no Facebook que, em seu governo, “nenhum espetáculo ou exposição vai ofender a religião das pessoas”. O motivo: a montagem é protagonizada pela travesti Renata Carvalho, que interpreta Jesus em uma releitura contemporânea da Bíblia. Ele julgou ofensivo, e deu início a uma discussão sobre censura. Um protesto aconteceu na terça e, no dia seguinte, ficou garantido que a SMC não solucionaria o impasse do cancelamento. Também pelo Facebook, Renata lamentou a situação: “afinal, o que este espetáculo têm de ofensivo? É que ele equipara/ compara/ apresenta/ materializa/ assemelha Jesus de Nazaré em um corpo travesti. Jesus é a imagem e semelhança de todes, menos de nós pessoas trans – é inapropriado. (…) Precisamos desmistificar essa construção social que criminaliza nossos corpos, identidades e vivências trans”.

Na quarta (6/6), abordado pela imprensa durante um evento na Barra da Tijuca, Crivella reforçou sua postura e usou pela primeira vez a palavra censura. “Se você considera censura, eu vou dizer a você que é. É uma censura que garante os direitos de liberdade religiosa e das pessoas não serem ofendidas na sua liberdade religiosa. Não chamo isso de censura. Enquanto eu for prefeito, nos espaços públicos administrados pela prefeitura, nós não permitiremos qualquer manifestação que ofenda a religião das pessoas”, reiterou.

Não é a primeira vez que Marcelo Crivella toma uma medida assim, nem tampouco que “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” enfrenta obstáculos para sua apresentação. Em Jundiaí (SP) e Salvador (BA), ações judiciais tentaram barrar o espetáculo. Já o prefeito do Rio, em 2017, declarou com todas palavras que não deixaria o MAR – Museu de Arte do Rio – receber a exposição “Queermuseu”: “a população do Rio de Janeiro não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia”, disse. Pouco depois, a programação do “outubro da diversidade” no Castelinho do Flamengo, com exposição e espetáculos de cunho homoerótico, foi totalmente cancelada com desculpas esfarrapadas. O prefeito é acusado de misturar sua liderança religiosa com a administração da cidade.

(Foto: Reprodução)

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