Papo de Artista

Galharufa – Por Giuseppe Oristanio

(Foto: Thiago Cardinali)

Quando comecei a fazer teatro, em 1972, eu era pré-adolescente. Nessa época, o único documento que um artista possuía era uma carteirinha da Polícia Federal. Essa carteirinha era dada aos artistas e às prostitutas, com todo respeito às prostitutas por andarem com gente como nós – os artistas. Éramos vistos como marginais, a ponto de minha avó quase nem olhar na minha cara: – “Esse meu neto será um perdido…tão novinho…”

Aliás, minto: de concreto, tínhamos a carteira da PF, mas vivíamos em busca de outra coisa muito mais importante e que ninguém sabia ao certo o que era: – a galharufa.

Os atores veteranos sempre diziam aos novatos que era fundamental ter a galharufa porque se tivesse alguma fiscalização dava muito problema não ter galharufa. E os caras ainda acrescentavam que a tal galharufa tinha que ser dada de presente, não era algo que se tirasse num departamento de polícia qualquer. Vivíamos uma Ditadura e a permissão da polícia era necessária pra tudo – e as autoridades nunca tiveram boa vontade com os artistas. Não era bom negócio ter problemas com a polícia.

Os veteranos diziam: – olha, eu já dei a minha galharufa, mas eu acho que fulano ainda tem. Pede pra ele.

E o ator-calouro ia até o outro veterano indicado. Por sua vez, esse também dizia que já tinha repassado a galharufa dele e mandava o calouro pra outro veterano. E esse processo se repetia até que uma boa alma achasse que o calouro já tinha sofrido o bastante e contava pra ele que a tal galharufa não existia. Depois de passar por esse calvário, o calouro virava ator, digamos assim. Ele deixava de ser um principiantezinho pra se tornar um jovem ator.

Em 1978, depois de uma longa campanha, conseguimos que o Congresso votasse a Regulamentação da Profissão de Ator, de Artista. Eu tinha 19 anos em maio de 1978 e fui em caravana, de ônibus, de São Paulo a Brasília para testemunhar esse momento histórico. Me perdi em Brasília e chorei de emoção no Congresso. Finalmente minha avó não precisaria mais se envergonhar do neto. Agora eu tinha oficialmente uma profissão. Eu era ator. Estou no Livro 1 do DRT de São Paulo. Número 545 porque fui preguiçoso e deixei passar uns dias antes de ir lá me registrar.

Hoje, passados exatos 40 anos, as coisas mudaram. Os avós praticamente dão a alma, feito Mefisto, para ter um neto artista. Todos os netos, se conseguirem. Muitos jovens, antes de pensar numa escola, já tem empresários e assessores de imprensa.

E justamente agora, 40 anos depois, estão querendo acabar, abolir a necessidade de formação educacional e técnica para exercer a profissão de ator e de artistas em geral. Por iniciativa da Procuradoria Geral na República, estão querendo abolir as conquistas que suamos pra conseguir. A alegação é que o dito DRT fere o direito de expressão do cidadão comum. Francamente…

Esse nosso país é engraçado: estão querendo nos mandar de volta ao tempo das galharufas e da carteirinha da PF.

O que deve acontecer é justamente o contrário disso: devemos fiscalizar com cuidado para não permitir a venda de Registros Profissionais, o chamado DRT. Devemos fazer com que esse nosso green card profissional seja valorizado. É engraçado o camarada acordar de manhã e dizer: sou ator. Quem acorda de manhã e diz sou dentista e sai por aí arrancando dentes?

E que não se enganem: podem querer nos fragilizar, dificultar nossa atividade já tão difícil, podem até querer nos destruir… isso é natural. Artista incomoda, artista incomoda porque mexe com os lugares mais secretos dos seres humanos. O trabalho do artista revela a alma e arregaça os corações. Fazer isso exige formação e responsabilidade.

Os artistas e as prostitutas exercem as profissões mais antigas do mundo – e ainda estaremos por aí quando o mundo acabar e recomeçar de novo – com ou sem DRT.

Quer saber? Aquela antiga carteirinha da PF não estava de todo errada. Era pra gente mesmo.

Ah! Você tem uma galharufa pra me dar?

Giuseppe Oristanio é ator.
Está em cartaz com “O Inevitável Trem” na Sala Baden Powell, em Copacabana, quintas e sextas às 20h.

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