Gonzaguinha em alta: cantor recebe múltiplos tributos no teatro – Teatro em Cena
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Gonzaguinha em alta: cantor recebe múltiplos tributos no teatro

(Foto: Divulgação)
Gonzaguinha teve vida curta. Foram só 45 anos, interrompidos por um acidente de carro em 1991, mas sua obra ecoa até os dias de hoje. “O Que É O Que É?”, um de seus grandes sucessos, registra 4,7 milhões de streams tanto no Spotify quanto no Youtube. “Lindo Lago do Amor”, outra canção memorável, passa das cinco milhões de reproduções no Youtube. E Gonzaguinha nem chegou a conhecer a Internet. É fato: existe um público consumidor de seu repertório 28 anos após sua morte. De olho nessa demanda, produções teatrais apresentam espetáculos que resgatam a vida e obra do artista. Há dois musicais em cartaz – “Gonzaguinha | Saudade” no Castelinho do Flamengo e “Gonzaguinha: O Eterno Aprendiz” no Teatro João Caetano – e mais um agendado para fevereiro, “Cartas Para Gonzaguinha – O Musical”, que fará temporada no Teatro Riachuelo.

– O que é bom nunca sai de moda. Gonzaguinha é parte do patrimônio cultural brasileiro, é um fenômeno da música, e sua obra será sempre lembrada e revisitada por muita gente. Quem é gênio estará sempre nas paradas. – diz o ator Rogério Silvestre, responsável por encarnar o cantor no espetáculo biográfico “O Eterno Aprendiz” – É extraordinário dar vida ao Gonzaguinha. Não só ao artista, poeta, cantor, compositor, mas principalmente ao ser humano, o cidadão Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior.

Nascido no Rio de Janeiro em 1945, Gonzaguinha cresceu na favela e sem os pais. A mãe morreu quando ele tinha dois anos, e o pai – Luiz Gonzaga, o Rei do Baião – já havia caído no mundo. A relação dos dois foi muito distante até o fim de sua adolescência, quando se mudou para a casa de Gonzagão. De distante, tornou-se, então, tumultuada. Seguindo os passos dos pais (a mãe também era cantora), ele enveredou para a música e tornou-se um artista politizado e contestador. Foi jovem durante a ditadura e, por conta de suas letras críticas ao governo, foi censurado e alvo de repressão. Virou ícone de uma geração silenciada.

Sandro Melo em “Gonzaguinha | Saudade” (Foto: Sabrina L’Astorina)
Rogério Silvestre a frente de “Gonzaguinha: O Eterno Aprendiz” (Foto: Fernando Grilli)
– Gonzaguinha poderia ter sido preso, torturado e assassinado, por um sistema de governo que tinha autorização para tanto; ainda assim, provavelmente com muito medo de que isso acontecesse, e/ou de que fizessem mal para as pessoas a quem amava, ele não deixou de correr o risco, risco de vida; ainda assim, continuou cantando e falando aquilo que achava que estava errado na sociedade. – Sandro Melo, de “Gonzaguinha | Saudade”, diz ao Teatro em Cena – Para a nossa sorte, ele usou a sua fúria, legítima, e a transformou num porto seguro, onde todos que desejarem, podem aportar para recarregar as energias e enfrentar a luta diária de frente, peito aberto e cabeça erguida. Você já viu ou viveu tempos coletivos mais difíceis que este? Como nós não necessitaríamos de alguém como ele, e de outros como ele, para nos apoiar, para avançarmos, em direção a um mundo melhor, para todos.

De fato, Gonzaguinha tende a ser resgatado em momentos de tensão política no Brasil. O próprio “Gonzaguinha | Saudade” começou a ser concebido de verdade após as manifestações populares de junho de 2013, que começaram como um protesto contra o aumento das tarifas de ônibus. Ali, Sandro entendeu como o espetáculo – que ele define como um manifesto musical, poderia ser uma contribuição relevante para a sociedade. Em 2018, ano de eleição presidencial, em que grande parte da população enxergou um perigo real à democracia, “Gonzaguinha: O Eterno Aprendiz” ganhou força e levou 15 mil espectadores ao teatro, segundo a produção. Além disso, Nanan Gonzaga, uma das filhas do cantor, notou uma movimentação interessante no uso da hashtag #gonzaguinha nas redes sociais durante esse período. “Na época das eleições, muita gente postou ‘Pequena Memória’, e é uma música muito menos conhecida. Ficamos surpresos porque virou um hino como ‘O Que É, O Que É’. Foi um recado das pessoas: ‘Se tentarem nos fazer esquecer do passado do nosso país, nós vamos lembrar todos os dias'”, analisa a também cantora, que está envolvida com o próximo espetáculo, com estreia marcada para 6 de fevereiro. Nanan é responsável pela pesquisa do musical, que trará canções consagradas, menos conhecidas e até inéditas de seu pai.

“Cartas Para Gonzaguinha – O Musical”, diferente dos dois anteriormente citados, não será biográfico. É uma obra de ficção ambientada no início dos anos 1980, na retomada da democracia. Os personagens são trabalhadores de uma fábrica, que lutam para garantir um salário, enquanto cumprem horas extras não remuneradas e lidam com o fantasma da demissão. O espetáculo tem direção de Rafaela Amado (de “Les Comédiens”) e idealização de João Bittencourt, que sempre sonhou em levar as canções de Gonzaguinha para o teatro musical. Sobre a estreia neste momento, em que existem outros musicais explorando a obra do cantor, João acha natural.

– Estamos vivendo um momento muito desumano, no sentido literal da palavra, em que as pessoas pensam em perdas de direitos humanos como solução. E o Gonzaguinha era o oposto disso. Ele trazia o olhar da simplicidade, está falando de mim, de você, do guardador de carro, do pedreiro, da cozinheira, etc. Toca muito fundo. – ele diz – Além disso, estamos vivendo um momento em que o fato não importa, mas sim a narrativa. Estão questionando que houve ditadura no Brasil. Estão atacando a educação e os professores. Por isso é tão importante falar de Gonzaguinha e do momento político retratado em suas músicas.

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GONZAGUINHA: O ETERNO APRENDIZ: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 40. 80 min. Classificação: livre. Até 24 de fevereiro. Teatro João Caetano – Praça Tiradentes, s/n – Centro. Tel: 2332-9257.


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GONZAGUINHA | SAUDADE: sáb e dom, 17h. R$ 30. 60 min. Classificação: livre. De 12 de janeiro até 24 de fevereiro. Castelinho do Flamengo – Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho – Praia do Flamengo, 158 – Flamengo. Tel: 2205-0655.


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CARTAS PARA GONZAGUINHA: qua, 20h. R$ 60. Classificação: 16 anos. De 6 até 20 de fevereiro.Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38/40 – Centro. Tel: 3554-2934.

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