Especial Festival de Curitiba

Gregorio Duvivier e Vinicius Calderoni apresentam seu novo espetáculo, Sísifo

(Foto: Annelize Tozetto)

CURITIBA – Gregorio Duvivier está trocando a farra de “Portátil”, espetáculo de improvisação que fez por anos com seus amigos de Porta dos Fundos, pela solidão do monólogo “Sísifo”. Com estreia nacional neste fim de semana no Festival de Curitiba, a peça escrita a quatro mãos com Vinicius Calderoni (de “Elza”) traça um estudo cênico-dramatúrgico da linguagem do meme e do gif. Ela será levada para temporada em São Paulo a partir de junho, no Sesc Consolação, e também está acertada para ir para o Rio de Janeiro, em data a confirmar. “Quero viajar com essa peça, porque acho uma maneira muito gostosa de conhecer o Brasil, interagir, levar teatro. Monólogo possibilita mais fazer viagem.”, o ator diz em coletiva de imprensa realizada no Hotel Mabu, na véspera da grande estreia. Dali, seguiria para o ensaio.

“Sísifo” é o nome de uma figura mitológica condenada a empurrar uma pedra eternamente montanha acima. Sempre que ele a sobe, a pedra rola para baixo de novo, como um gif, em que o fim retoma o início. Gregorio e Vinicius usaram essa história como dispositivo para criação de um texto original, desinteressado em recontar especificamente essa trama. “O primeiro meme da história foi Sífiso”, pontua Vinicius, que também dirige o espetáculo, “isso tinha a ver com ideias do que a gente via que estava acontecendo no mundo, no Brasil, sobre ciclos e repetições, sobre a própria condição humana. A gente viu ali o suporte de uma coisa aberta o suficiente para ser um veículo para falar de muitas coisas que nos interessavam. Uma certa liberdade de suporte”. Sobre o que o espetáculo fala? Sobre o momento do Brasil, o estado das coisas no mundo e a condição humana.

Gregorio Duvivier em coletiva de imprensa (Foto: Annelize Tozetto)

Em cena, Gregorio Duvivier aparecerá em cima de uma rampa grande e giratória, atravessando-a de ponta a ponta, indo e voltando. Sim, como um gif. Ao conceberem o espetáculo, descartaram logo a ideia de trabalhar com tecnologias digitais no palco. A rampa interessou mais, por assumir diferentes significados ao longo dos quadros e por ser também uma metáfora da vida. “A gente sabe que nasceu e sabe que vai morrer um dia. Como a gente preenche esse período? Toda a peça foi baseada nesse dispositivo. Depois que o dispositivo surgiu, a gente escreveu em uma velocidade absurda. A rampa tem essa ideia de ter um ponto de partida e um ponto de chegada fixos. Só conhecemos o ponto de partida e o ponto de chegada, mas todo o meio, a trajetória, é desconhecido”, explica Vinicius, que escreveu a maior parte da peça, segundo Gregorio. “A gente tinha a ideia, falava ‘vamos escrever’ e, no dia seguinte, Vini já tinha escrito algo insuperável. De verdade, é uma parceria meio desigual. Sabe trabalho de escola que sempre tem um que trabalha mais?”, brinca o ator.

Da ideia ao texto final, a dupla levou cerca de um ano entre debates criativos. Estrear no Festival de Curitiba já é, para ambos, uma realização. Nenhum dos dois havia participado do evento anteriormente com um espetáculo inédito. A experiência se torna completamente diferente. “Acho que tem um fato suplementar muito importante que é estar respirando teatro todos os dias, encontrando os colegas no café da manhã do hotel. É uma vivência de teatro sem igual”, conta Vinicius, “eu falei isso com a equipe: é um privilégio criar um espetáculo entre outros colegas, artistas de teatro que a gente admira tanto, e ao mesmo tempo a concentração que a própria equipe fica. Não é uma realidade quando você está em sua cidade natal, criando um espetáculo: não fica todo mundo assim tão junto. Mas quando você está no mesmo hotel, acordando e dormindo, respirando junto, parece que isso é ainda mais especial. Espero que isso transpareça para o público”.

Vinicius Calderoni (Foto: Annelize Tozetto)

Meme como ideograma

GREGORIO – A expressão gif e meme talvez dê essa impressão de efemeridade. Mas tem memes que definem a condição humana, em algum lugar. O meme é hoje em dia uma maneira de comunicar qualquer coisa.
VINICIUS – É um ideograma moderno.
GREGORIO – É um ideograma. Perfeito. É uma imagem sobre a qual se põe uma legenda, e essa união entre texto e imagem gera uma tensão que muitas vezes é cômica. Esse é o sentido de meme. E gif é uma imagem que se repete. A gente até brinca que, como diz Marx, a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa, depois como gif. O gif, em algum lugar, dá a impressão que o Brasil está repetindo a história, mas não mais como farsa, porque já repetimos, então gif. Essas barragens que se rompem, essas enchentes… Todo ano tem uma enchente que ninguém esperava no Rio. Ficam surpresíssimos com a chuva de fevereiro. “Nossa, esse ano, como choveu em fevereiro!” Tem uma charge de 1902 do Rio de Janeiro que se chama “Praça da Banheira”. 1902! E ainda hoje é o apelido que dão à Praça da Bandeira, que todo ano alaga. É meio nesse sentido o gif: um país preso em sua simplicidade.
VINICIUS – Tem outro aspecto também, que o Gregorio me chamou atenção para isso. A revista New Yorker tem uma charge da semana na qual os leitores têm que fazer as legendas. Só tem a imagem e as pessoas têm que completar com o texto. De alguma maneira, a própria configuração do nosso cenário, que tem uma imagem muito forte que é essa rampa, casa com isso, porque a cada vez essa rampa é um lugar, é a tradução de um outro espaço. Tem um pouco a ver com o lugar de charge, que flerta com o meme, né? Também tem esse aspecto nesse estudo de transposição – uma coisa que tem base semelhante, mas uma variação nessa mesma base.

O processo criativo

VINICIUS CALDERONI – Cada processo é um processo. Estou cada vez mais confiante com isso de dizer “qual será esse processo agora?”. Sísifo foi muito particular e nunca tinha acontecido nada parecido. Como é um texto dividido com o Gregorio – é a primeira vez que assino um texto adulto em parceria – então foi uma coisa que a gente sentava e dizia o que queria falar. A gente fez listas de ideias, milhares e milhares, até que a gente chegou no dispositivo central da peça, depois de jogar muita coisa fora, sentar no chão com desespero e dizer “vai ser impossível, vamos desistir”, a gente chegou a uma ideia que pareceu estimulante e forte o bastante, que era o dispositivo de uma travessia que se faz e se refaz. O ator, em uma rampa, vai até o fim e volta. Percorrer o mesmo percurso.
GREGORIO DUVIVIER – A gente está falando dessa peça há um ano. Há um ano que a gente se encontra e fica falando tudo que a gente quer falar [na peça], e essa peça tem um pouco essa possibilidade. Como ela é uma travessia cíclica, em uma rampa, ela pode falar por todas as travessias do mundo.

(Foto: Annelize Tozetto)

Retorno ao monólogo

GREGORIO – Ah, eu vou sentir falta dos caras de “Portátil”, claro, no camarim. Era uma farra o “Portátil” no camarim. Monólogo tem essa solidão no camarim antes de entrar em cena. Quando fazia “Uma Noite Na Lua”, já me peguei algumas vezes antes de entrar em cena dizendo “merda, merda” dando um abracinho em mim mesmo. Claro que tem uma equipe. Neste caso, é maior do que “Uma Noite Na Lua”, porque a gente vai precisar de um contrarregra no palco operando a rampa. Tem a equipe técnica que viaja junto e vira uma família. A galera que viajava comigo em “Uma Noite na Lua” virou minha família. O Pedro Benevides, que era do som, inclusive agora está no Porta dos Fundos. Acabou a peça, e eu levei ele como ator lá para o Porta. Tem essa delícia do monólogo, que é virar uma família com a equipe técnica. Eu pretendo viajar muito. Gosto muito de viajar com peça. Acho que é uma maneira de conhecer o Brasil. Com “Uma Noite na Lua”, a gente foi a quase todas as capitais. Acho que ficou faltando Macapá e Rondônia, e Rondônia porque infelizmente não tinha teatro, não sei agora. Tomara que essa peça tenha essa vida longa. Eu acho que tem tudo pra ter. A rampa é super desmontável e o texto é bem importante de ser dito hoje.

Público alvo

GREGORIO – Olha, eu acredito que dialoga com todas as idades. Falo que é da nossa geração, mas não é que tem referências à cultura pop. Não é isso. Tem uma linguagem que eu acho que é muito nossa, e que tem a ver com os cortes rápidos. As peças do Vinicius tem muito isso: cortes secos que mudam tudo, sem mudar o cenário. Muda no olhar do ator. Às vezes tem só cinco segundos em uma cena, que na verdade foi uma zapeada, uma janela que você abriu e você fechou, e já passa para outro universo completamente diferente. Acho que esse é o grande barato do teatro – a possibilidade de você criar universos num piscar de olhos. Nesse sentido, eu acho que é uma peça geracional: instaura-se um universo de travessias para depois se desinstaurar e começar algo novo. Ela tem essa agilidade.
VINICIUS – A gente está com essa maravilha de estrear no Festival de Curitiba, que é uma coisa inédita na minha vida. É mais… Você está respirando teatro o tempo inteiro. A gente está totalmente no escuro. Véspera de estreia é isso: você não sabe ainda o quão, com quem e de que maneira o espetáculo se comunica.

(Foto: Annelize Tozetto)

Cenário

GREGORIO – É uma peça bem franciscana nesse sentido. Acho que a Andrea [produtora] não está gostando de eu falar isso, porque a rampa deve ter custado caro! É uma rampa enorme, incrível, linda. Nosso cenógrafo André Cortez fez uma rampa sensacional, que é inclusive superprática pra montar e desmontar. É só uma rampa, com um tubo, por onde caem coisas. Falei demais, mas é isso. Eu gosto muito disso: das múltiplas possibilidades que você tem com uma forma geométrica. A gente até brincou: será que não é a trilogia das formas, já que o Vini adora trilogias? A rampa, depois faz uma pista de skate, o outro é uma montanha… Uma simples forma geométrica, neste caso a rampa, possibilita um trilhão de coisas. A partir do momento que o ator entra e diz algo, instaura-se um universo e aquela rampa imediatamente vira outra coisa. Só isso. Não tem mais nada. Não tem telão, nada. A luz eu não vi ainda. A luz é muito fundamental. Se você joga embaixo, o que ela vira? Um igarapé! Nosso cenógrafo mineiro fala isso! Na diagonal, vira uma montanha. No teatro, tem essa possibilidade de mudar o tempo todo.
VINICIUS – Não é um espaço tedioso, porque roda, é muito grandioso. Não é uma imagem estanque. Quando a gente começou a pensar, pensou em um sentido só. Aí depois o grande salto foi perceber que ela girava e, ao girar, o espaço se reconfigura totalmente.

O festival

VINICIUS – É maravilhoso estrear aqui. Esse festival tem 28 anos. Eu sou apaixonado por teatro desde os oito, nove anos de idade, e acompanhava a cobertura dos festivais, via as peças mais comentadas. De alguma maneira, como espectador, que certamente influenciou minha vida como artista de teatro, isso sempre foi uma coisa muito forte. O Festival de Curitiba sempre foi a referência máxima no país. Eu sempre quis participar. Fazer parte do Festival de Curitiba era um sinal de que “bom, estou no radar, sou um artista de teatro mesmo”. Eu vim a primeira vez há dois anos com “Os Arqueólogos”, mas certamente é muito maravilhoso estrear aqui. É um prazer muito novo e diferente.
GREGORIO – Eu também estou muito feliz de estar no Festival de Curitiba. Acho que é minha sexta ou sétima vez, mas a primeira com uma peça inédita. Tem isso que é lindo que o Vini estava dizendo, que aqui você respira teatro. Eu ontem fui ver o espetáculo da Cia. Hiato, “Odisseia”. Lindo, uma peça deslumbrante. Hoje vamos ver “Os Secundaristas” às 19h e depois ainda quero ver a Lia Rodrigues, que descobri que é minha prima. Foi preciso vir para o Festival de Curitiba para conhecê-la. A gente está no mesmo teatro. Eu acho muito emocionante o teatro.

O jornalista viajou a convite do festival.

Comentários

comments