Entrevista

Inez Viana fala sobre Mata Teu Pai, com texto, direção e atuação só de mulheres

(Foto: Annelize Tozetto)

Reestreando no Galpão Gamboa, “Mata Teu Pai”, espetáculo que marca os 20 anos de carreira da atriz Debora Lamm (da Cia. OmondÉ), tem uma ficha técnica interessante. O espetáculo, que é uma adaptação do mito de “Medéia”, a mãe que mata os filhos para se vingar do marido que a abandonou, foi concebido principalmente por três mulheres: Debora, a atriz; Grace Passô (de “Vaga Carne”), a autora; e Inez Viana (de “Meu Passado Me Condena”), a diretora. Girl power total. E, pensando bem, faz todo sentido que seja assim – vista a história que é contada.

– Nossa equipe é basicamente de mulheres. Tem três homens e o resto todo é de mulheres. Uma equipe bem feminina. – sublinha a diretora Inez Viana – Outro dia estava vendo uma matéria sobre isso no cinema, falando que o percentual de mulheres que roteirizam e dirigem cinema ainda é muito pouco. Acho que era de 8%, se não me engano, com relação aos homens. As mulheres estão mais na produção. As grandes produtoras, inclusive, são mulheres. Mas não ocupavam esses cargos. Ainda falta… É engraçado como a gente não se questiona sobre isso, né? Como a gente acha isso… normal. Não tem que achar normal.

Debora Lamm protagoniza a tragédia, transformada em solo (Foto: Aline Macedo)

Idealizado por ela, “Mata Teu Pai” conta também com o coro das Meninas da Gamboa, alunas de Inez no Galpão Gamboa. É a primeira peça profissional delas, e já se apresentaram no Espaço Sérgio Porto, antes da nova temporada. Quando o espetáculo foi para o Festival de Curitiba, infelizmente, não houve como viabilizar a viagem delas. Lá, Inez ofereceu um workshop para que senhoras compusessem o coro nas apresentações locais. Pensando na ocupação desses espaços, a diretora se surpreendeu ao perceber que, das 17 voluntárias inscritas, nenhuma era negra.

– Achei muito interessante. ‘Gente, não tem uma negra’. Por quê? Em Curitiba, não há negras? Ou elas não conseguem acessar esse tipo de lugar? Onde estão os negros de Curitiba? Ou não há negros? Que loucura é essa!? A gente tem que começar a não achar normal esse tipo de coisa. Por que não tem um negro aqui? Por que não tem uma trans? Tem que ser normal todo mundo ocupar todos os lugares. De chefia, de tudo. Chama a sua atenção uma equipe só de mulheres, o que deveria ser normal: diretora, autora, atriz… E não é, né? Parece que ainda é raro de se ver. Várias coisas que vem acontecendo desde o ‘meu corpo, minhas regras’, a questão do aborto, do assédio, do empoderamento de uma forma geral. Está tendo esse movimento e ele naturalmente se reflete na arte.

Não foi intencional, no entanto, montar uma equipe feminina. As pessoas foram escolhidas por seus talento e habilidades. Grace Passô, por exemplo, era o nome mais forte na cabeça de Inez para a adaptação. “Eu e Debora queríamos muito que ela escrevesse, porque a acho uma gênia, umas das maiores autoras que a gente tem atualmente”, enfatiza, em entrevista ao Teatro em Cena, concedida nos bastidores do Festival de Curitiba. Montar “Medeia” era um sonho antigo de Inez Viana – que ainda quer concretizar uma trilogia sobre a história com espetáculos de dança e de ópera. “É uma história que ainda mexe muito comigo”. Por ora, o espetáculo teatral já a deixa orgulhosa: foi um projeto de três anos, entre rasteiras e negativas em editais. E ela acredita que tem tudo a ver montar um clássico nos dias atuais.

Debora Lamm em cena com as Meninas da Gamboa (Foto: Aline Macedo)

– Dá conta um pouco desse sentimento nosso de indignação com o que está acontecendo agora em nosso país. Pelo menos, é o meu. Acho de extrema importância a gente sempre rever esses mitos, rever esses pensadores. Quando você trata de uma obra temporal, a rota está sempre girando. Você está sempre voltando às mesmas questões, aos mesmos problemas, aos mesmos olhares para o mundo. É impressionante. – defende sua opinião – No caso da nossa Medeia, a Grace propõe várias inversões a partir do texto do Eurípedes, que já foi uma grande inversão na época. Foi a partir dele que a Medeia mata os filhos. Antes, era a própria cidade que matava para puni-la. A partir dele, ela começa a matar os filhos. A Grace já propõe uma nova inversão, que aí inclui a plateia, e é barra pesada. É maravilhoso. A catarse desses nossos tempos.

O processo criativo de “Mata Teu Pai” envolveu pesquisas sobre histórias contemporâneas reais de mulheres que mataram filhos – pelos mais diferentes motivos. Elas selecionaram 13 casos de países diversos. Mas, para Inez, o mito dialoga com os tempos atuais de uma maneira mais ampla. “Um governo ilegítimo, a questão do feminismo se propagando com tanta força, o preconceito com trans, negros, mulheres, imigrantes… É um basta geral. Está vindo à tona uma ebulição e, através do teatro, a gente pode falar sobre isso. Mostrar de uma maneira artística”, pontua. O lugar de fala, por exemplo, é destacado logo na primeira frase da peça: “Preciso que me escutem!”, diz Medeia. Ao longo da história, a protagonista encontra diferentes mulheres – síria, cubana, paulista, judia, haitiana – e se vê na mesma condição de imigrante, expatriada de onde vive. Qualquer semelhança com refugiados não é mera coincidência.

Debora Lamm e Inez Viana: investimento próprio para levantar a peça (Foto: Reprodução)

Inez não esconde que tem verdadeiro fascínio pela personagem e pelo mito. “Tem uma versão interessante que diz que ela mata os filhos para sentir uma dor maior do que a perda do amor”, conta, “ela está sofrendo tanto com a perda do Jasão que, só matando os filhos, superaria essa dor. Claro que a gente não perdoa, mas é um ponto de vista interessante. Matar os filhos não tem perdão. Nenhum animal faz isso”. Tão apaixonada pela história, Inez investiu dinheiro do próprio bolso para levantar a produção, junto com Debora Lamm. Em algumas entrevistas, declarou que só vai reaver o investimento em cinco anos – se a peça for muito bem.

– Mas não é isso que importa. O que importa é o que a gente conseguiu realizar. É um investimento que vai trazer frutos. Participar do Festival de Curitiba já é um prêmio. A gente ganha de outras formas. Eu acho que o dinheiro é pra isso, também. A gente tinha uma economia… é pra arte. A gente tem conseguido depoimentos incríveis. Na primeira temporada, no Sergio Porto, as pessoas saíam muito comovidas. Isso já vale. Isso já é a nossa paga. Claro que o artista precisa viver, comer, pagar o aluguel, vestir, comprar livros, claro! Claro que a gente precisa de dinheiro. Não estou falando que a gente tem que abrir mão e fazer teatro só por amor. Não. Ninguém está falando isso. A gente tem que ser remunerado por nosso trabalho: ele existe, ele faz parte e ele tem que ser respeitado tanto quanto qualquer outra profissão. Mas as vezes vale a pena você investir um dinheiro e depois reavê-lo de outra forma, sabe? Isso nos traz outros benefícios.

Depois do Galpão Gamboa, a peça já tem outra temporada confirmada para setembro, no Teatro Poeira. Vida longa! Mas, antes de terminar a entrevista, Inez reitera o protesto do “Prefeito, Pague o Fomento”. “A gente se inscreveu para o fomento e não ganhou, mas quem ganhou também não levou. Tá aí essa questão absurda do fomento. Absurda! Mais uma aberração desse prefeito, dessa secretária de cultura. Eu particularmente sou muito cética…. O pessoal do Reage Artista e do Teatro Pela Democracia está nos defendendo bravamente com reuniões semanais. A Adriana Schneider, a Isabel Gomide e tantos outros colegas incríveis e maravilhosos estão lá lutando por nós. Eles estão lutando para que isso pelo menos vire lei. Não pode ser ‘ganhou, mas não ganhou’, ‘ganhou, mas não levou’, ‘ganhou, mas o outro não quis pagar’. Não existe isso”, conclui.

(Foto: Aline Macedo)

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. R$ 30. 60 min. Classificação: 14 anos. Até 26 de junho. Galpão Gamboa – Rua da Gamboa, 279 – Gamboa. Tel: 98460-1350.

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