Especial Festival de Curitiba

Instalação promove ilusão cerebral de troca de corpos e de perspectivas

CURITIBA – Com vagas limitadas, a instalação “The Machine To Be Another / A Máquina de Ser Outro” com certeza foi uma das atrações mais disputadas no Festival de Curitiba de 2018. Foram oito dias abertos ao público, com entrada franca, filas na porta e senhas que se esgotavam em poucos minutos. O repórter que te escreve só conseguiu conhecer “a máquina” no terceiro dia de tentativa. Valeu a pena. Desenvolvida pelo grupo de pesquisa interdisciplinar BeAnotherLab, com direção de Philippe Bertrand e Alessandra Vidotti, a instalação promove uma troca de corpos – algo como os filmes “Se Eu Fosse Você” e “Freaky Friday”. É uma ilusão cerebral. O propósito é testar se, assim, as pessoas se tornam mais empáticas e tolerantes.

(Foto: Annelize Tozetto)

“A Máquina de Ser Outro” mescla realidade virtual, técnicas de ciências cognitivas e performance. Duas pessoas por vez entram em uma tenda de tecido preto, recebem um fone de ouvido e um óculos especial: durante dez minutos, cada uma enxergará tudo pela perspectiva do outro. Ao olhar para sua mão, você vê a da outra pessoa. Como os guias instruem os participantes a fazerem movimentos lentos, para que o outro perceba-os e acompanhe-os, em pouco tempo as duas pessoas estão em sincronia, mesmo sem se ver. Assume-se o corpo do outro e, quando ele estica o braço, você faz o mesmo, mas vê o dele, e seu cérebro de alguma maneira subentende que é o seu.

As aulas de jornalismo ensinam que as notícias não devem vir em primeira pessoa, mas a ocasião pede. Eu desfrutei da instalação junto com uma mulher, que eu nunca tinha visto na vida. Seu nome, Elisa, eu só soube depois. Durante a experiência, me acostumei tanto com o corpo dela, que duvidei que realmente não fosse o meu. Virei meu braço para ver se uma marca de nascença estava lá. Não estava. Mas havia uma pinta, que não era minha. Estava incrédulo que aquilo estava acontecendo. Era eu, e ao mesmo tempo não era eu. Deu um bug no cérebro. Quando me colocaram diante de um espelho, não vi meu conhecido corpo e sim o dela. Quis tocar meus seios, e temi que ela se sentisse assediada. Aquele corpo feminino não era meu, mas naquele momento me era alugado. No fim, ficamos frente a frente, e então eu me vi – pelo olhar dela. E ela se viu, pelo meu olhar. Ela se achou baixinha demais, vista de cima, eu me achei alto demais, visto debaixo. Quando apertamos as mãos e um guia tocou nossos braços, a viagem dela estava tão grande que ela sentiu tocarem os pelos de seu braço – que na verdade eram meus. Ela não é peluda. Quando tiraram os óculos, ainda nos movíamos com lentidão, acostumados à nova condição. Estávamos excitados e eufóricos. Ficamos conversando. Nos sentíamos grandes amigos – e eu não sou exatamente a pessoa mais sociável do mundo, mas havia vivido dez minutos dentro do corpo dela. Como não querer interagir de novo, de alguma forma? IN-SA-NO.

(Foto: Annelize Tozetto)

Philippe Bertrand estava presente e contou que essa é uma pesquisa internacional, que já passou por mais de 30 países, entre América e da Europa. Está a caminho do Sesc Consolação, em São Paulo. Quando ele passou com sua máquina pelo Rio de Janeiro, a levou para a Cidade de Deus, como parte da FLUPP – Festa Literária Internacional das Periferias. Ali, as pessoas foram convidadas a conhecerem a perspectiva de pais e mães que perderam os filhos, vítimas da brutalidade policial. Forte. Em Barcelona, onde ele fez uma residência artística, os participantes experimentavam a perspectiva de muçulmanos vivendo o dia-a-dia da discriminação religiosa. Essas experiências foram exibidas em uma TV na sala de espera para entrar na instalação, em Curitiba.

Guilherme Weber e Marcio Abreu, curadores do festival de teatro, explicam que decidiram convidar a instalação para integrar a programação porque ela vem atraindo a atenção de pesquisadores de diferentes áreas como resolução de conflitos, psicologia, neurociência social e medicina preventiva ao redor do mundo. “Desafiando o senso comum, para os artistas do Coletivo a tecnologia é um meio de criar relações mais profundas entre as pessoas e não de estimular o isolamento social”, dizem.

*O jornalista viajou a convite do Festival de Curitiba.

Comentários

comments